Crise hídrica impacta na natureza, na geração de energia e no bolso do consumidor

Crise hídrica impacta na natureza, na geração de energia e no bolso do consumidor

A crise hídrica que atinge seu ápice no Brasil durante o segundo semestre de 2021 é uma tragédia em três atos: as queimadas, a falta de chuvas e o impacto no bolso do consumidor, que paga cada vez mais caro pela conta de luz.

O impacto ambiental afetou a situação hídrica de agosto, provocando crise nos reservatórios do Brasil. Sem água, as hidrelétricas trabalham menos. A situação gerou um cenário de instabilidade e tornou iminente a possibilidade de falta de energia elétrica no segundo semestre. Vem aí um apagão? Enfrentaremos um racionamento de energia?

“A gente está em uma situação bem crítica no setor elétrico. Ainda não é certo que esses dois fenômenos vão ocorrer, mas o risco é significativo”, reconhece Luciano Losekann, professor do Departamento de Economia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e membro do Grupo de Economia da Energia, vinculado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O governo federal reconhece que a situação hídrica do Brasil é preocupante, mas descarta um apagão. O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, tenta agendar uma reunião entre a cúpula do Palácio do Planalto para debater a questão. E o vice-presidente Hamilton Mourão, por enquanto, vê a situação sob controle.

“O que eu tenho acompanhado é que o governo tomou as medidas necessárias, criou uma comissão para acompanhar e tomar as decisões a tempo e a hora, no sentido de impedir que haja apagão”, disse – sem, no entanto, descartar um racionamento.

“Pode ser que tenha que ocorrer algum racionamento – o próprio ministro falou isso. Vamos torcer. Nós temos uma matriz energética muito baseada em hidrelétrica. A maior parte é para atividade da agropecuária, o consumo humano é menor parte, a outra é geração de energia. Tem que haver uma dosagem disso aí”, completou.

No fim de agosto, frente à escassez de águas, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciou a criação da bandeira “escassez hídrica” para adicionar R$ 14,20 a cada 100 kW/h consumidos.

A tarifa é válida até abril de 2022 e substitui o valor anterior de R$ 9,49. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, ainda admite usar usinas termelétricas e importar energia de países vizinhos para tentar diminuir o impacto econômico da seca.

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Mas o problema pode ser mais longo e ir além de setembro. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, o Brasil não deve gerar energia suficiente para outubro, e precisaria aumentar a oferta em mais de 5 gigawatts – o que equivale a 7,5% da carga atual. Tudo isso ao mesmo tempo em que, pressionado por empresários, Bolsonaro admite retomar o Horário de Verão.

“Rios flutuantes” no ar e a seca no país

A seca que provoca a crise hídrica começa pela destruição de biomas como a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, crescentemente afetados por queimadas e desmatamento nos últimos anos. Com mais chamas e menos árvores, o Brasil perde força dos chamados “rios flutuantes”, que são os fluxos de ar carregando vapor d’água oriundos do Oceano Atlântico e alimentados pela evaporação amazônica.

Entre 2018 e 2019, as queimadas no Brasil tiveram um aumento de 85%, em um momento de crescente dos incidentes. O ápice dos registros ocorre no inverno, período mais seco do ano. Fatores como a falta de chuvas, os solos ressecados, as temperaturas altas no Centro-Oeste e do Norte e os ventos favorecem o espalhamento das chamas. O combate se complica.

“Canalizados” pelos Andes, esses fluxos costumam desaguar em outras regiões da América do Sul, como Sul e Sudeste do Brasil, Uruguai e Paraguai, além do norte da Argentina. Sem eles, a umidade em certas regiões cai e as chuvas diminuem.

“As causas das queimadas são em muitos casos objeto de dúvidas e investigação. Dados de nossas pesquisas mostram que, em parte, elas podem ser derivadas a partir de um descontrolado uso do fogo. O que muitas vezes teria finalidade doméstica pode ser disseminado e se tornar um problema público”, afirma em artigo publicado em outubro de 2020 por Eduardo Cyrino Oliveira Filho, pesquisador da Embrapa Cerrados, no site da Embrapa.

“Todavia, os resultados indicam que o uso errôneo do fogo pode ser minimizado, principalmente se houver maior envolvimento dos órgãos públicos, sobretudo com a oferta de atividades informativas, instrucionais e de educação ambiental junto às comunidades rurais”, completou, alertando ainda para o impacto de cinzas em ecossistemas aquáticos.

O mês de agosto registrou mais de 8,5 mil focos de incêndio no Amazonas – maior número desde 1998, quando o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) passou a monitorar incêndios florestais.

O recorde pertencia a agosto de 2020, quando o estado registrou pouco mais de 8 mil focos. No mês, o território amazonense concentrou o maior número de focos de chamas no Brasil, à frente de Pará e Rondônia.