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Comunidade vira modelo agropecuário no semiárido

Comunidade vira modelo agropecuário no semiárido

No Nordeste brasileiro, cerca de 85% do território é caracterizado como semiárido, sendo marcado pela irregularidade das chuvas e pelas altas temperaturas, que contribuem para o risco constante de escassez hídrica. Essas características podem dificultar a manutenção de atividades agrícolas, a criação animal e outros empreendimentos rurais. Porém, com as tecnologias e o manejo certos, é possível conviver com o semiárido, produzir bem e gerar renda. É isso que prova o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável da Paraíba (Procase), iniciativa do Governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura Familiar e Desenvolvimento do Semiárido (Seafds), que beneficia agricultores familiares, oferecendo estrutura, capacitações e assistência técnica; dentro dele, o projeto EcoProdutivo vem se destacando como um meio de potencializar a produção e as boas práticas.

Desenvolvido desde 2023, ele tem como objetivo implementar uma propriedade rural de base familiar como modelo de referência de produção agropecuária, utilizando técnicas integradas e uma abordagem racional dos recursos naturais, considerando a convivência com o semiárido e as mudanças climáticas. A ação acontece junto à comunidade Tapera, no município do Congo, no Cariri paraibano, alcançando mais de 80 famílias. O investimento é de R$ 590 mil.

Mais de 80 famílias do município do Congo são beneficiadas

Segundo explica o coordenador estadual do Procase, Nivaldo Magalhães, a iniciativa reúne uma série de atividades, como a fruticultura, meliponicultura, piscicultura, caprinocultura, sistemas agroflorestais, produção de hortaliças e outras. “Nós fomos desde a implantação de placas solares, para viabilizar economicamente as ações e também dar maior qualidade de vida aos beneficiários, à implantação de biodigestor, para substituir o gás de cozinha e também ter o biofertilizante para adubação. Fizemos uma verdadeira revolução em uma unidade demonstrativa, claro, para depois aproveitarmos aquelas técnicas, aqueles procedimentos que poderiam ser replicados, e que iam melhorar realmente a qualidade de vida, e dando rentabilidade”, afirma.

Ele destaca ainda que o EcoProdutivo é uma forma de preparação para o Procase II, a segunda fase do projeto, a qual tem o objetivo de atingir todas as 223 cidades do estado — diferente da primeira, iniciada em 2013, que beneficiou 56 municípios paraibanos. A nova etapa do programa deverá ter investimento de US$ 105 milhões, alcançando mais de 60 mil famílias de agricultores.

“Com base em uma propriedade nessas condições, a gente avalia o que é viável para aquela região, o que é inviável também e o que realmente vai dar retorno impediato. Nós tivemos, por exemplo, a implantação de dois tanques de piscicultura, onde eles [os agricultores beneficiados] têm uma boa renda, no caso de venda a programas do governo e também no período de Semana Santa”, pontua Nivaldo. Por meio dessa unidade demonstrativa, é possível acompanhar o desenvolvimento das várias ações implementadas, averiguar a viabilidade de cada uma delas e, com isso, tirar lições e boas práticas que podem ser replicadas e auxiliar em outras comunidades e regiões com características semelhantes.

Fortalecimento local

O consultor do Procase e responsável pela coordenação das ações do EcoProdutivo, Felipe Leal, esclarece que, para a escolha da comunidade beneficiada, foi priorizada uma localidade que estivesse no curso do Rio Paraíba, o qual recebe as águas da transposição do Rio São Francisco. “Por indicadores de níveis de desertificação, desenvolvimento socioeconômico e outros, chegamos à comunidade Tapera, que tem uma associação relativamente nova, mas muito organizada e aguerrida. De forma colaborativa, dialogamos sobre esse projeto, essa intervenção na propriedade, que foi aprovada pela associação dos agricultores local”, afirma.

As ações implementadas já vêm produzindo frutos. O primeiro deles foi a regularização fundiária do território, que aconteceu em parceria com a Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer), a qual também contribuiu com o melhoramento genético dos rebanhos, cedendo reprodutores caprinos, ovinos e bovinos. “Também tivemos a regularização do uso da água do manancial, a outorga do uso da água, por meio da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba, e a parte do licenciamento ambiental, junto à Superintendência de Administração do Meio Ambiente”, relata Felipe.

Com o fortalecimento da organização associativa e da produção, também houve melhoria de renda. “Eles estão buscando o mercado institucional. Pela primeira vez, estão acessando o Programa de Aquisição de Alimentos municipal, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, estão participando de editais, não só no município do Congo, mas outros da região. Também estamos fomentando um grupo de mulheres com quintais produtivos, produzindo pitaia, aumentando o leque de produtos que eles podem comercializar”, enfatiza Felipe.

O consultor ressalta que o grande objetivo das ações é que, além da segurança alimentar e nutricional e da melhor convivência com o semiárido, os agricultores possam alcançar ganhos financeiros. Os produtores beneficiados também recebem formações, oficinas, assistência técnica e acompanhamento constantes dos técnicos do Procase. O projeto ainda promove o fortalecimento da palma forrageira e a revitalização de matas ciliares, e o espaço abre as portas para receber a visita de escolas da região.

Agricultores

“O que nós temos na comunidade foi através do projeto EcoProdutivo. A gente aprendeu muita coisa, tanto com a assistência técnica como sobre participar de programas do governo, porque antes ninguém participava, já que a gente não sabia nem como fazer”, afirma José Roberto Bezerra Júnior, presidente da Associação Comunitária dos Agricultores, Produtores, Criadores e Apicultores das Comunidades de Tapera, Tatu, Poço Comprido e Barro Branco.

Quando a iniciativa chegou ao local, a associação havia sido criada poucos meses antes. José Roberto conta que, no início, a organização da entidade foi mais difícil, com parte das pessoas desacreditadas no projeto, mas o apoio do Procase facilitou o andamento das atividades. “Estamos abastecendo hoje a escola estadual aqui do Congo e de Camalaú, além da municipal do Congo e de outro programa do município. Fornecemos verduras, legumes, carne caprina e bovina, peixes”, informa.

Sobre a criação de peixes, José Roberto frisa que esse conhecimento foi aprendido com o projeto. “A gente não sabia nem como lidar e hoje temos dois tanques de peixe. Foi uma coisa que veio para somar e gerar uma renda, conciliando com as outras coisas que a gente já fazia”, ressalta.

Outra agricultora da comunidade, Sara Layne Feitosa de Farias diz que o EcoProdutivo também lhe trouxe novos conhecimentos. Hoje, ela trabalha com meliponicultura — criação de abelhas com ferrão atrofiado, popularmente chamadas de “sem ferrão” —, cultivo que iniciou após o projeto. “A gente não tinha esse conhecimento sobre as abelhas sem ferrão, e o projeto trouxe isso e muito mais, desde as abelhas até a criação de animais, ração e alimentação dos animais e o plantio. E tem os técnicos que nos ajudam”, comenta.

Ela fala ainda sobre a importância da melhoria genética dos rebanhos, por meio do cruzamento com reprodutores trazidos pelas ações do Procase. “Também fizemos curso de poda, aprendemos outras formas de cuidar das plantas frutíferas, e, com os ensinamentos deles [os técnicos], a gente hoje vê as coisas de outra forma”, celebra.

O Procase é realizado em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Já o projeto EcoProdutivo tem o apoio, ainda, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade da Paraíba (Semas), da Prefeitura Municipal do Congo, entre outras instituições.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.