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Como o calor impactará as árvores? Morfo busca respostas e quer plantar hoje florestas preparadas para o futuro

Como o calor impactará as árvores? Morfo busca respostas e quer plantar hoje florestas preparadas para o futuro

Ferramenta usa projeções de evolução das temperaturas no planeta, bem como a expansão da ocupação urbana, para calcular riscos e apontar espécies mais apropriadas a resistir ao século 21

A restauração de florestas enfrenta um dilema: o clima do futuro não será, como apontam diversas agências científicas, o mesmo do passado. Como então projetar uma nova vegetação que ao mesmo tempo seja composta por espécies nativas, porém mais resiliente à mudança climática?

Usando projeções computacionais que simulam cenários de temperatura global e comportamento do clima, a Morfo, empresa especializada em restauração de áreas degradadas desenvolveu um software que ajuda a plantar florestas melhor adaptadas ao futuro. As descobertas com o novo método foram publicadas em artigo científico, no periódico Restoration Ecology.

“Muitos projetos ainda se baseiam em referências históricas fixas ou metas de curto prazo, mas os ecossistemas evoluem rapidamente. Com o aumento das temperaturas, secas, incêndios e transformações sociais, esses ecossistemas nunca voltarão exatamente ao que eram. Tentar restaurar o passado frequentemente resulta em florestas frágeis, alta mortalidade e impactos de curta duração”, argumenta o CEO da startup, Gregory Maitre, em post no LinkedIn.

Em conversa com Um Só Planeta, Rebecca Montemagni, engenheira de ecossistemas florestais na Morfo e autora principal do artigo e da ferramenta de “restauração baseada no futuro”, como foi batizado o processo de análise e implementação de florestas, afirma que a inovação veio da necessidade de atualização do modelo de regeneração florestal.

“A restauração seguia uma receita de bolo, como se as condições do passado continuassem. “O erro é não levar em consideração que provavelmente voltar ao anterior não é possível com as mudanças climáticas. Para acomodar essa situação de clima, populações crescendo e pressionando o meio ambiente, criamos um framework que leva em consideração o passado, presente e futuro, sem uma trajetória rígida, apenas.”

O modelo está sendo usado nos projetos da Morfo na Amazônia e na Mata Atlântica. A análise do território considera três cenários possíveis, projetando níveis diferentes de emissões de gases estufa e interferência humana no local analisado. Os mapas construídos pela ferramenta mostram a taxa de sucesso que determinadas espécies locais devem ter em cada cenário, o que serve de baliza para a tomada de decisões na hora de plantar.

Cenários possíveis da floresta do futuro
  • SSP1 (“Sustentabilidade”): Cenário mais otimista em relação ao aquecimento global, prevê um mundo que faça esforços significativos em prol da sustentabilidade, com baixa desigualdade, energia verde e práticas econômicas sustentáveis.
  • SSP3 (“Rivalidade Regional”): Situação mediana. Projeta um mundo fragmentado com alto crescimento populacional, avanço tecnológico limitado e países priorizando a autossuficiência e a segurança em detrimento da cooperação.
  • SSP5 (“Desenvolvimento Impulsionado por Combustíveis Fósseis”): É o cenário de maior aumento na temperatura. Calcula um futuro impulsionado pelo rápido crescimento econômico e alta demanda energética, principalmente dependente de combustíveis fósseis, com pouco esforço para mitigar as mudanças climáticas.

Fonte: Morfo

Ferramenta criada pela Morfo prevê cenários que podem impactar crescimento e durabilidade de espécies. Dados são incorporados em projetos de regeneração florestal. — Foto: Divulgação
Ferramenta criada pela Morfo prevê cenários que podem impactar crescimento e durabilidade de espécies. Dados são incorporados em projetos de regeneração florestal. — Foto: Divulgação

Em um exemplo de aplicação da ferramenta obtido por Um Só Planeta, vê-se os cenários para o Ipê-amarelo-flor-de-algodão no cenário “Sustentabilidade” (imagem acima). Vê-se que a espécie tem um índice baixo de adaptação ao clima do ano 2100, mesmo na melhor das projeções climáticas. No mapa da Amazônia, vê-se gradualmente o aumento de áreas vermelhas, indicativo de baixa taxa de sucesso para a espécie.

A visão de projeto completo na Morfo une a projeção temporal da ferramenta criada por Montemagni a outras etapas do processo de restauração, que passa por análises do solo, e ainda um trabalho junto a populações locais para garantir inclusão socioeconômica e manejo adaptativo em uma estratégia única.

“É importante incluir comunidades tradicionais não só para trabalhar, mas desde o planejamento. Não apenas na execução, mas na análise do problema, levando em consideração o conhecimento local, para sucesso e durabilidade da operação. Eles estarão no campo e habitam a área, então quanto maior o pertencimento deles, maior a chance de sustentabilidade do projeto”, afirma a engenheira florestal.

 

Para Maitre, o foco está em desenvolver projetos hoje que possam continuar de pé, funcionando e apoiando comunidades durante décadas. Para alcançar o objetivo, o CEO destaca a necessidade de uma composição de espécies que seja viável nas condições de amanhã, fazendo com que investimentos em restauração resultem em impacto de longo prazo.