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Como as plantas sentem que é hora de parar de comer? Cientistas descobriram mecanismo

Como as plantas sentem que é hora de parar de comer? Cientistas descobriram mecanismo

Estudo pode ajudar no desenvolvimento de plantas que absorvam mais nitrogênio e se tornem menos dependentes de fertilizantes

Sabe aquele momento que você termina de comer o maior “pratão” de comida e a primeira palavra que vem à mente é “estou completamente cheio”? Acontece que, apesar dos cientistas saberem há tempos que outros seres vivos experimentam a mesma sensação, só agora eles descobriram como as plantas sabem que chegaram lá.

Liderado por pesquisadores da Universidade de Nova York (NYU), nos Estados Unidos, o novo estudo foi publicado nesta quinta-feira (30) na revista científica The Plant Cell. O que eles identificaram foi, na verdade, os atores moleculares responsáveis por comunicar à planta quando ela já absorveu nitrogênio suficiente do solo.

Como qualquer outro organismo vivo, as plantas funcionam igual uma engenhoca. Em comunicado, Glória Coruzzi, da NYU, contou o processo de pesquisa e experimentos que levaram ela e a equipe até o resultado. Primeiro, eles analisaram o DNA do vegetal e, a partir dele, identificaram quais reguladores eram mais sensíveis aos diferentes níveis e tipos de nitrogênio.

“Descobrimos um fator regulador que controla o uso do nutriente e uma ‘chave’ para melhorar a absorção e a assimilação de nitrogênio em nitrogênio orgânico em plantas”, explicou Coruzzi.

Quer mais?

Embora o uso de fertilizantes tenha aumentado — e muito! — nas últimas décadas, as plantas absorvem apenas cerca de 50%. É como o dilema do “copo meio cheio e do copo meio vazio”: 50% de aproveitamento no uso desses compostos, mas uma perda de 50%.

E o cenário ruim, sobretudo quando falamos sobre práticas sustentáveis e favoráveis ao bem-estar ambiental, não para por aí: os 50% “perdidos” pela planta são consumidos por outro “sujeito” cuja saúde nos preocupa: a água. Uma quantidade significativa dos fertilizantes contamina os recursos hídricos, o que pode prejudicar a vida de outros seres vivos.

Já a fração de nitrogênio que é perdida e não absorvida contribui para o aumento do gás nitroso, um potente gás do efeito estufa.

O ciclo do nitrogênio transforma o elemento em diferentes “versões”, sendo uma delas o nitrogênio orgânico, a forma utilizada para armazenar nutrientes, transportá-los por longas distâncias e produzir aminoácidos essenciais — Foto: Wikimedia Commons
O ciclo do nitrogênio transforma o elemento em diferentes “versões”, sendo uma delas o nitrogênio orgânico, a forma utilizada para armazenar nutrientes, transportá-los por longas distâncias e produzir aminoácidos essenciais — Foto: Wikimedia Commons

Acontece que o desperdício dos fertilizantes não pesa apenas para o meio ambiente. Produzir, armazenar e transportar esses compostos custa caro e o cenário fica ainda mais delicado quando as tensões geopolíticas entram em jogo. Como se não bastasse, parte dos fertilizantes contém formas instáveis de nitrogênio, o que torna o armazenamento e o transporte um desafio extra.

Foi justamente esse problema que incentivou os cientistas a investigarem como as plantas “sabem” que estão satisfeitas com o composto. Para chegar até ela, a equipe analisou genes que respondiam a diferentes “doses” de nitrogênio.

Agora, o que os pesquisadores da NYU encontraram foi a proteína HHO5, que atua como um sensor de saciedade de nitrogênio. Entre centenas de candidatos, a HHO5 chamou atenção por agir como uma espécie de interruptor a nível molecular, controlando quando a planta deve continuar absorvendo o nutriente e quando é hora de interromper o processo.

Não é a molécula d’água

A equipe também se surpreendeu ao descobrir que nem todo nitrogênio provoca a mesma resposta. Quando a planta acumula quantidades suficientes de nitrogênio orgânico, os níveis da proteína HHO5 aumentam. A partir daí, ela assume uma dupla função: ativa genes ligados ao aproveitamento desse nitrogênio e, ao mesmo tempo, desliga aqueles responsáveis por captar mais nitrogênio inorgânico diretamente do solo.

Segundo Will Hinckley, da NYU, esse mecanismo também faz sentido do ponto de vista energético. Isso porque transformar o nitrogênio absorvido do solo em compostos orgânicos exige um alto gasto de energia desnecessário.

Mas a história da HHO5 não termina aí. Outra competência dessa proteína é mudar de comportamento dependendo da companhia. Sozinha, ela bloqueia genes envolvidos na absorção de nitrogênio inorgânico. Já associa a outra proteína reguladora, chamada WRKY21, passa a estimular genes ligados ao metabolismo do nitrogênio orgânico e até mecanismos de defesa da planta.

Para chegar aos resultados, os cientistas recorreram a uma técnica genômica chamada DoubleTARGET. O método funciona como um sistema de rastreamento: as proteínas recebem marcadores fluorescentes de cores diferentes e, depois, os pesquisadores acompanham quais genes são ativados quando elas trabalham juntas – quando estão ativados, eles “brilham”, sendo notados pelos pesquisadores. O resultado mostrou que células com altos níveis de HHO5 e WRKY21 apresentavam uma resposta muito mais intensa aos genes relacionados ao nitrogênio orgânico.