Anchor Deezer Spotify

Cicatrizes Invisíveis: Campanha defende Política Nacional para enfrentar o Trauma Climático

Cicatrizes Invisíveis: Campanha defende Política Nacional para enfrentar o Trauma Climático

Pesquisa inédita do IBGE revela que 67,5% dos lares afetados pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul tiveram a saúde mental abalada. Projeto de Lei em tramitação quer estruturar atendimento contínuo pelo SUS.

Quando a água baixa, a fumaça se dissipa ou a terra para de deslizar, a atenção pública costuma se desmobilizar. O foco das notícias e das ações governamentais foca-se, quase sempre, na reconstrução de pontes, estradas e casas. No entanto, longe dos holofotes, permanece uma dimensão invisível e profunda do rastro de destruição deixado pelos extremos do clima: o colapso emocional e comunitário das populações atingidas.

É para dar visibilidade e respostas estruturadas a esse cenário que surge a campanha Saúde Mental Climática. A iniciativa articula a sociedade civil, especialistas e o poder público em torno do Projeto de Lei 6151/2025, que propõe a criação da primeira Política Nacional de Saúde Mental Climática do Brasil.

O que é o “Trauma Coletivo Climático”?

Eventos climáticos extremos não destroem apenas patrimônios físicos. Eles desorganizam territórios inteiros, rompem laços comunitários e interrompem trajetórias de vida abruptamente. O sofrimento que se segue — marcado por luto, ansiedade crônica, estresse pós-traumático e o medo constante de novas perdas — é o que especialistas chamam de Trauma Coletivo Climático.

 Não há reconstrução física sustentável sobre comunidades traumatizadas. A resiliência de um território depende, fundamentalmente, do cuidado psicossocial contínuo de quem vive nele.

Luciana Brafman, ativista climática e fundadora da Time To Act.

A campanha nasceu justamente da vivência de Brafman nos territórios devastados pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Ali, ficou evidente uma lacuna histórica na gestão de crises no Brasil: enquanto o país mobiliza esforços para erguer paredes, a reconstrução emocional das vítimas continua fragmentada, pontual e dependente de improvisos voluntários.

O Retrato em Números: A Dor que o IBGE Quantificou

O impacto invisível da crise climática acaba de ganhar contornos estatísticos alarmantes. Uma pesquisa recente do IBGE sobre as enchentes no Rio Grande do Sul revelou que:

  • Em dois de cada três domicílios atingidos, ao menos um morador teve a saúde mental afetada.
  • O índice de 67,5% de abalo psicológico superou outros impactos graves, como as dificuldades de transporte para o trabalho/escola ou o isolamento social de parentes e amigos.

O dado consolida a saúde mental como a principal sequela pessoal enfrentada pelas vítimas das enchentes, acendendo o alerta para a urgência de respostas governamentais preventivas e contínuas.

PL 6151/2025: A Proposta para uma Resposta Estruturada

Atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, o PL 6151/2025 — de autoria dos deputados federais Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) — quer transformar o acolhimento emergencial em política de Estado.

O projeto, que passou por audiência pública na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional, propõe substituir as ações fragmentadas por um modelo integrado e permanente de cuidado.

Os Três Pilares da Proposta:

  • Ação em Todas as Fases: Organização do atendimento psicossocial antes (preparação e prevenção), durante (emergência) e após (reconstrução de longo prazo) os eventos extremos.
  • Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução: Espaços territoriais focados no restabelecimento de vínculos comunitários, acolhimento clínico e terapias coletivas.
  • Articulação Intersetorial: Integração obrigatória entre o Sistema Único de Saúde (SUS), assistência social, educação, defesa civil e planejamento urbano.

Desafio Sanitário: Integrar a Mente ao Clima

Com o horizonte constantemente ameaçado por novos ciclos de extremos climáticos, o Ministério da Saúde já opera com estratégias de vigilância e resposta física a desastres. No entanto, especialistas como Débora Noal, referência da Força Nacional do SUS em saúde mental e desastres, e a pesquisadora Jaqueline de Assis (Fiocruz), apontam que é preciso ir além.

O desafio atual é fazer com que a saúde mental deixe de ser tratada como um “puxadinho” das ações de emergência. O objetivo é criar protocolos nacionais, capacitar equipes locais permanentemente e garantir financiamento para que o cuidado emocional continue de pé anos depois que a lama secar.

Quem são os mais afetados?

Embora a crise climática seja global, seus impactos psicológicos e sociais recaem de forma desigual sobre as populações mais vulneráveis:

  • Crianças, idosos e pessoas com deficiência.
  • Populações periféricas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas.
  • Agricultores familiares que perdem o sustento da terra.
  • Profissionais da linha de frente (bombeiros, socorristas, agentes de saúde), que atuam sob estresse extremo e frequentemente sem suporte emocional adequado.

Como Apoiar e Acompanhar

Para que o PL 6151/2025 avance no Congresso e se torne realidade nos municípios brasileiros, a mobilização da sociedade civil é considerada indispensável.

Para conhecer mais detalhes sobre as ações de incidência política, acessar dados e apoiar a campanha, acesse o portal oficial:

🔗 saudementalclimatica.com