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Cascas de banana ganham espaço como fertilizante natural

Cascas de banana ganham espaço como fertilizante natural

Descartadas diariamente em cozinhas de todo o mundo, as cascas de banana costumam ter como destino final o lixo comum. No entanto, pesquisas recentes indicam que esse resíduo orgânico pode desempenhar um papel relevante na agricultura, funcionando como um fertilizante ecológico capaz de estimular o crescimento das plantas e, em alguns casos, apresentar desempenho superior ao de insumos sintéticos tradicionais.

Uma ampla revisão científica, que analisou resultados de mais de 120 estudos, investigou diferentes formas de aproveitamento das cascas de banana na produção de biofertilizantes. As conclusões apontam efeitos positivos consistentes: solos tratados com fertilizantes derivados das cascas apresentaram aumento da germinação, folhas maiores e plantas mais altas em comparação com áreas não tratadas. Assim, além de reduzir o desperdício, o reaproveitamento desse resíduo surge como uma alternativa viável para práticas agrícolas mais sustentáveis.

Resíduos agrícolas como fonte de nutrientes

A pesquisa foi conduzida por Nokuthula Khanyile, da Universidade de Mpumalanga, na África do Sul, e integra um conjunto de estudos voltados à valorização de resíduos orgânicos como insumos agrícolas. O trabalho destaca o uso das cascas de banana como estratégia para melhorar a qualidade do solo e diminuir a dependência de produtos que causam impactos ambientais negativos.

As bananas figuram entre as frutas mais consumidas no mundo, com uma produção anual estimada em 116 milhões de toneladas. Aproximadamente um quarto desse volume corresponde às cascas, que, apesar de ricas em nutrientes, acabam majoritariamente em aterros sanitários. Nesse ambiente, além de não serem reaproveitadas, contribuem para a emissão de gases de efeito estufa.

Do ponto de vista nutricional, as cascas concentram macronutrientes essenciais ao desenvolvimento vegetal, como potássio, nitrogênio, fósforo, cálcio e magnésio — os mesmos elementos que compõem muitos fertilizantes comerciais. A proposta central dos pesquisadores é substituir, sempre que possível, a extração industrial desses nutrientes pela reutilização de materiais já disponíveis no ciclo alimentar.

bananas

Métodos de transformação e aplicação

Os corretivos de solo produzidos a partir de cascas de banana são classificados como biofertilizantes, elaborados com matéria orgânica viva ou de origem biológica. As técnicas de preparo variam conforme o grau de complexidade e os objetivos de uso.

Em abordagens mais simples, as cascas são secas ao sol, trituradas até formar um pó e incorporadas ao solo antes do plantio. Outros estudos utilizaram processos que envolvem o preparo de pastas com cascas frescas, aquecidas com aditivos básicos e filtradas para obtenção de extratos líquidos, posteriormente diluídos e aplicados diretamente no solo. Entre as formulações recorrentes nos estudos analisados, destaca-se a combinação de cascas de banana secas com cascas de laranja, associada ao aumento da área foliar e ao crescimento de raízes mais longas em diferentes culturas.

Há também métodos mais sofisticados, que incluem a fermentação das cascas de banana com outros resíduos vegetais, como borra de café. Esse processo favorece a atuação de microrganismos responsáveis pela liberação gradual de nutrientes, resultando em fertilizantes líquidos que demonstraram potencial para acelerar o desenvolvimento de hortaliças folhosas.

Resultados em diferentes culturas

Ensaios práticos permitiram avaliar o impacto dos fertilizantes à base de banana em culturas específicas. Em experimentos com ervilhas, as cascas foram incorporadas ao solo por períodos distintos. O melhor desempenho ocorreu após cerca de dois meses de decomposição, fase em que as plantas apresentaram maior crescimento e melhor germinação. Quando a decomposição ocorreu em água, o período ideal se estendeu para aproximadamente seis meses, após os quais os benefícios começaram a diminuir. No caso do feno-grego, pesquisadores compararam a aplicação de casca de banana em pó com a de extrato líquido. Os resultados indicaram vantagem para a versão líquida, que produziu plantas mais altas e com coloração verde mais intensa.

Testes realizados com quiabo também evidenciaram ganhos expressivos. A aplicação combinada de pó de casca de banana e outros resíduos de frutas, antes do plantio e durante o desenvolvimento da cultura, resultou em plantas com folhagem mais abundante, vagens mais pesadas e coloração mais vibrante do que aquelas tratadas exclusivamente com fertilizante químico convencional.

Impactos para a agricultura contemporânea

A agricultura industrial depende amplamente de fertilizantes sintéticos NPK, produzidos a partir de processos industriais intensivos em energia fóssil. Embora esses insumos tenham contribuído para o aumento da produtividade agrícola, seu uso está associado a impactos ambientais significativos.

O escoamento de nitrogênio em excesso contamina cursos d’água e favorece a proliferação de algas, prejudicando ecossistemas aquáticos. Segundo um estudo global, os fertilizantes nitrogenados respondem por cerca de dois por cento das emissões totais de gases de efeito estufa geradas pela atividade humana.

Nesse contexto, os biofertilizantes derivados de cascas de banana se destacam por liberar nutrientes de forma mais lenta, reduzindo o risco de perdas por escoamento e, ao mesmo tempo, promovendo a reciclagem de resíduos alimentares. Para pequenos agricultores e jardineiros, trata-se de uma alternativa acessível para melhorar a saúde do solo.

Limitações e perspectivas futuras

Apesar dos resultados positivos, nem todas as aplicações apresentaram efeitos significativos. Experimentos com biochar de casca de banana — material obtido pelo aquecimento dos resíduos até formar uma substância semelhante ao carvão — mostraram ganhos limitados em relação à altura das plantas e outros indicadores de crescimento.

Outro ponto crítico é a escassez de estudos de longo prazo. A maioria das pesquisas analisadas concentrou-se nas fases iniciais do desenvolvimento das culturas, sem acompanhar os resultados até a colheita. Ainda são necessários ensaios em escala maior que avaliem produtividade, qualidade nutricional e vida útil dos alimentos produzidos.

Além disso, a composição química das cascas varia conforme a variedade da banana, o clima e as condições de armazenamento, o que reforça a necessidade de protocolos mais padronizados. Pesquisas futuras deverão considerar não apenas o teor de nutrientes, mas também os efeitos dessas misturas sobre os microrganismos e a estrutura do solo ao longo do tempo. Mesmo com essas limitações, o potencial de reaproveitamento é significativo. Redirecionar parte dos resíduos globais de banana dos aterros para áreas agrícolas poderia reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos e minimizar seus impactos ambientais.