Carlos Nobre alerta para risco de colapso climáticos durante Rio Nature and Climate Week
𝙂𝙖𝙗𝙧𝙞𝙚𝙡𝙡𝙖 𝙇𝙤𝙪𝙧𝙚𝙣𝙘̧𝙤- Na primeira edição da Rio Nature and Climate Week, o climatologista destacou o avanço da crise climática, o aumento de eventos extremos no planeta e o risco de colapso em biomas brasileiros como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga
Um dos mais renomados pesquisadores do mundo, Carlos Nobre, marcou presença na palestra com o tema “Emergência Climática: Desafios a Serem Enfrentados”, na abertura da Rio Nature and Climate Week, realizada no Rio de Janeiro. O evento reúne pesquisadores, lideranças políticas, organizações ambientais, representantes do setor privado e especialistas de diferentes países para discutir soluções voltadas à crise climática, preservação da biodiversidade e transição para uma economia de baixo carbono.
Durante a palestra, Nobre afirmou que o planeta vive um momento crítico e destacou que as mudanças climáticas e a destruição da natureza não podem mais ser tratadas como problemas separados. “Clima e natureza, natureza e clima são totalmente interligados”, disse.
Ao longo da apresentação, o cientista chamou atenção para a sequência de recordes climáticos observados nos últimos anos. Segundo ele, eventos extremos como secas severas, ondas de calor, enchentes e incêndios florestais têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos em diferentes regiões do planeta.
Nobre destacou ainda que 2024 foi o ano mais úmido já registrado globalmente, reflexo direto do agravamento das mudanças climáticas. “Tudo está batendo recorde”, disse o pesquisador.
O climatologista também alertou para a aproximação dos chamados pontos de não retorno — limites que, quando ultrapassados, podem provocar transformações irreversíveis nos ecossistemas e no sistema climático planetário. De acordo com o cientista, a comunidade científica já monitora 25 pontos de não retorno no planeta.
Caso a temperatura média global ultrapasse 2°C de aquecimento, fenômenos como o branqueamento massivo dos recifes de coral, o degelo do permafrost, o derretimento dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica e alterações na circulação meridional do Atlântico podem atingir níveis irreversíveis.
Ao abordar o cenário brasileiro, Nobre afirmou que quatro dos seis biomas do país já demonstram sinais de forte vulnerabilidade.
O Cerrado foi apontado como um dos casos mais preocupantes. Segundo o pesquisador, o avanço da pecuária e da monocultura da soja intensificou o desmatamento e alterou o equilíbrio climático do bioma, tornando a região mais quente e seca. O cientista também destacou o aumento dos incêndios florestais e a expansão das áreas semiáridas no Nordeste.
Na Caatinga, os dados apresentados indicam que aproximadamente 48% do bioma já foi desmatado. Além disso, cerca de 62% da região é considerada suscetível à desertificação. Em áreas do norte da Bahia, pesquisadores já identificaram regiões com características semelhantes às de um semideserto.
O Pantanal também foi citado como um dos biomas mais ameaçados. Nobre relacionou a degradação ao avanço de hidrelétricas, hidrovias, queimadas e desmatamento. Segundo ele, cerca de 26% do bioma já foi atingido pelo fogo.
O Pantanal está desaparecendoAUTOR
Na Amazônia, considerada a maior floresta tropical do planeta e a região de maior biodiversidade do mundo, o cientista destacou que aproximadamente 18% da cobertura florestal já foi desmatada. O ponto de não retorno da Amazônia apresenta o desmatamento superior a 20-25% e o aquecimento de 2 a 2,5°C.
Além da perda da vegetação, Nobre alertou para o aumento das secas extremas e para o enfraquecimento dos chamados “rios voadores”, correntes atmosféricas responsáveis pelo transporte de grandes volumes de vapor d’água e fundamentais para o regime de chuvas em diversas regiões da América do Sul.
Apesar do cenário considerado grave, o climatologista afirmou que ainda existe possibilidade de reverter parte dos impactos da crise climática.
Entre as medidas defendidas estão a descarbonização acelerada da economia, o avanço das metas de neutralidade de carbono e a rápida eliminação do uso de combustíveis fósseis. Segundo Nobre, o Brasil reúne condições para liderar a transição climática global e pode alcançar a meta de zerar as emissões líquidas até 2040, desde que avance no combate ao desmatamento e amplie investimentos em energia limpa e preservação ambiental.
A participação do climatologista foi um dos destaques da programação da Rio Nature and Climate Week, evento que busca ampliar o debate internacional sobre soluções climáticas e fortalecer compromissos voltados à preservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.
A entrevista será publicada em três partes. Assista à Parte 1.

