Calor extremo ameaça transformar Copa de 2026 em prova de resistência e pode até adiar partidas
Estudo aponta que até 25% das partidas do Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá podem ultrapassar limites de segurança térmica
A intensificação da crise climática, causada pela queima massiva de combustíveis fósseis, pressiona o calendário do esporte mais popular do planeta. Um estudo, divulgado nesta quinta-feira (14), pelo grupo científico World Weather Attribution, alerta que a Copa do Mundo FIFA 2026 poderá registrar partidas em condições consideradas perigosas para jogadores e torcedores por conta do calor extremo.
A análise indica que cerca de 25% dos 104 jogos do torneio, que será realizado nos Estados Unidos, México e Canadá, têm potencial para ocorrer acima dos limites de segurança recomendados pela Federação Internacional de Jogadores Profissionais de Futebol (FIFPRO). O cenário poderia justificar até mesmo o adiamento de partidas.
O levantamento utilizou o índice Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), métrica que avalia a capacidade de resfriamento do corpo humano ao combinar temperatura, umidade, radiação solar e vento. Ainda de acordo com os cientistas, aproximadamente cinco partidas podem ocorrer em condições consideradas inseguras. Os jogos não foram especificados, porém.
A FIFPRO recomenda medidas de resfriamento quando o WBGT ultrapassa 26°C e orienta o adiamento dos jogos caso o índice supere 28°C, condição equivalente a cerca de 38°C em calor seco ou 30°C em ambientes muito úmidos.
“Essas estimativas justificam a necessidade de estratégias de mitigação para proteger melhor a saúde e o desempenho dos jogadores expostos ao calor”, ressaltou o diretor médico da FIFPRO, Vincent Gouttebarge, à Reuters.
O alerta é mais uma pressão sobre a FIFA para rever protocolos de segurança e o próprio calendário das futuras Copas do Mundo, desafiada pelo cenário de temperaturas globais cada vez mais elevadas.
A entidade informou que vem implementando medidas de adaptação climática, incluindo pausas de hidratação de três minutos em cada tempo, infraestrutura de resfriamento para atletas e torcedores, além de reforço médico conforme as condições climáticas em tempo real.
“Futebol mais conservador”
O estudo também afirma que mais de um terço dos jogos com risco elevado de calor extremo será disputado em estádios sem sistemas de climatização, incluindo Miami, Kansas City, Nova York/Nova Jersey e Filadélfia.
O calor extremo pode alterar diretamente a dinâmica do jogo em campo. “Será mais uma questão de desempenho do que de saúde. Esses jogadores são atletas de elite e estão aclimatados. Você verá atletas administrando o próprio ritmo”, explicou o anestesista Chris Mullington. Ele é consultor do Imperial College London NHS Trust, e conversou com a reportagem da Reuters.
“Então, podemos acabar vendo um futebol mais conservador”, acrescentou. A análise aponta que mais de um terço dos jogos com pelo menos 10% de chance de ultrapassar o limite de segurança estão previstos para estádios sem sistemas de climatização, incluindo cidades como Miami, Kansas City, Nova York e Filadélfia.
A final da Copa, marcada para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, também é motivo de preocupação. O estudo indica que a partida tem agora cerca de uma chance em oito de ultrapassar o limite de segurança térmica recomendado pela FIFPRO, que é um risco aproximadamente duas vezes maior do que o observado na Copa de 1994, também disputada nos Estados Unidos.
Pressão
“Do ponto de vista da saúde, seria recomendável realizar essas Copas mais cedo ou mais tarde no ano, para que se tenha uma festa do futebol, e não algo que represente um grande risco à saúde de toda a cidade”, considerou a professora de ciência climática do Imperial College London, Friederike Otto, em declaração.
Otto também destacou que cerca de metade do aquecimento global causado pela atividade humana ocorreu desde a Copa de 1994, disputada há 32 anos nos Estados Unidos.
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Além dos atletas, há recomendação para os torcedores. A FIFPRO também alertou que torcedores presentes em áreas externas, fan fests e deslocamentos urbanos poderão permanecer expostos por horas a temperaturas potencialmente perigosas.
A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história da Copa do Mundo FIFA 2026, com 48 seleções e 104 partidas realizadas em três sedes da América do Norte.
