Anchor Deezer Spotify

Calor e seca extremos podem atingir quase 30% da população até o fim do século

Calor e seca extremos podem atingir quase 30% da população até o fim do século

Fenômenos combinados devem se tornar até cinco vezes mais frequentes e afetar sobretudo países tropicais de baixa renda

Um novo estudo indica que as políticas climáticas atuais podem expor quase um terço da população global a episódios simultâneos de calor extremo e seca até o fim do século. A projeção aponta que esses eventos devem se tornar mais de cinco vezes mais frequentes em relação ao período entre 1961 e 1990.

Segundo a pesquisa, publicada na revista Geophysical Research Letters, da União Geofísica Americana (AGU), cerca de 28% da população mundial — o equivalente a 2,6 bilhões de pessoas — estará sujeita a esse tipo de evento nas próximas décadas. Hoje, essa exposição é significativamente menor e deve atingir cerca de 6,6% da população já nos anos 2030.

Os chamados eventos “quentes e secos” combinam temperaturas elevadas com escassez de água, ampliando riscos como incêndios florestais, perdas agrícolas e mortes relacionadas ao calor.

“Calor e seca se intensificam mutuamente”, afirmou o cientista climático Di Cai, autor principal do estudo. “Isso pode levar a restrições no uso da água e instabilidade nos preços dos alimentos. Para trabalhadores ao ar livre, é especialmente perigoso.”

Os pesquisadores analisaram 152 simulações climáticas baseadas em modelos usados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), considerando diferentes cenários de aquecimento global e crescimento populacional. Os resultados mostram que esses eventos já estão mais frequentes: entre 2001 e 2020, ocorreram, em média, quatro episódios por ano em áreas terrestres, o dobro do registrado no período pré-industrial.

A tendência é de agravamento. Até o fim do século, esses eventos podem ocorrer quase dez vezes por ano, com duração média de até 15 dias. O estudo também aponta que, sem a influência das emissões humanas de gases de efeito estufa, esse aumento não seria observado.

Apesar disso, os impactos não serão distribuídos de forma igual. Países tropicais de baixa renda, muitos deles com baixa contribuição histórica para as emissões, devem concentrar os efeitos mais severos. Ilhas como Maurício e Vanuatu aparecem entre as regiões mais vulneráveis.

“Há uma enorme injustiça”, disse Di Cai. “Esses países têm menos recursos para lidar com calor extremo, acesso limitado a saúde e pouca margem de resposta quando a água acaba. Não é só uma questão climática, mas de sobrevivência cotidiana.”

O estudo indica que cortes mais ambiciosos nas emissões podem reduzir parte do risco. Se os compromissos do Acordo de Paris forem plenamente cumpridos, a parcela da população exposta a esses extremos cairia para cerca de 18% até o fim do século, ainda alta, mas equivalente a quase 1 bilhão de pessoas a menos.

Para os autores, o cenário reforça o peso das decisões tomadas agora. “As escolhas de hoje vão definir as condições de vida de bilhões de pessoas nas próximas décadas”, cravou o especialista.