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Calor dá marcha-a-ré, uma descoberta com impactos difíceis de prever

Calor dá marcha-a-ré, uma descoberta com impactos difíceis de prever

Primeiro o que sabemos

Quando pensamos no calor se propagando através de um material, geralmente imaginamos o transporte difusivo, o processo pelo qual o calor flui de uma região de alta temperatura para uma de temperatura mais baixa à medida que partículas e moléculas colidem umas com as outras, perdendo energia cinética no processo.

Mas nem sempre é assim. Por exemplo, o calor pode se mover como uma onda, pode fluir na forma de um calor viscoso, ou, em alguns materiais, o calor pode se propagar fluindo como a água em um encanamento, um regime chamado de transporte hidrodinâmico de calor. Considere que a condução de calor é mediada pelo movimento de fônons, que são excitações coletivas dos átomos nos materiais sólidos – esse “calor que flui pelo encanamento” ocorre quando os fônons se propagam em um material sem perder seu momento no processo.

Essa hidrodinâmica de fônons é ainda pouco compreendida e vinha sendo um assunto quase exclusivamente teórico, até que ela foi observada ocorrendo em materiais monoatômicos, como o grafeno. Além disso, essa possibilidade de fazer o calor fluir por canais bem definidos começou a se tornar mais interessante do que nunca ante a necessidade de direcionar fluxos de calor em aparelhos  eletrônicos, chips, baterias etc.

Mas havia um entrave para tornar mais prático o transporte hidrodinâmico de calor: Nossa compreensão do fenômeno estava limitada a uma descrição matemática inadequada para que os cientistas pudessem trabalhar em um estilo “O que acontece se eu fizer isto ou aquilo”. Este entrave agora foi superado.

Calor dá marcha-a-ré, uma descoberta com impactos difíceis de prever

Mapa de temperatura na amostra de grafite, com as linhas de corrente mostradas para o fluxo viscoso (acima) e o fluxo difusivo (abaixo) do calor.
[Imagem: Enrico Di Lucente et al. – 10.1103/g9dx-hjyn]

O que acabamos de descobrir

Em 2020, uma equipe da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, descobriu uma nova forma de propagação do calor e desenvolveu uma descrição do transporte de calor hidrodinâmico mais adequada para simulações em computador. Mas a interpretação física dos componentes da temperatura permanecia obscura.

Agora eles superaram essa deficiência. “Nosso objetivo era substituir a descrição numérica por uma analítica, onde o transporte de calor hidrodinâmico pode ser descrito por uma função real na qual você insere variáveis e obtém uma solução exata,” explicou Enrico Di Lucente, membro da equipe. “Ter uma função não só facilita a resolução do problema, como também permite obter uma compreensão física mais profunda, pois você vê como cada variável física contribui para o resultado.”

Ao reescrever as equações do calor viscoso em duas equações bi-harmônicas modificadas (um tipo de equação diferencial parcial frequentemente usada para estudar fluxos), a equipe obteve uma solução totalmente analítica e a utilizou para demonstrar que, no regime hidrodinâmico, a temperatura surge de duas contribuições distintas: Uma associada à compressibilidade térmica do fluxo e a outra à sua vorticidade térmica.

A compressibilidade térmica, agora descrita formalmente pela primeira vez, mede o quanto a densidade de energia dos fônons varia em resposta aos gradientes de temperatura, enquanto a vorticidade térmica expressa o movimento de rotação do fluido em torno de um ponto específico. “Essa é uma informação que não seria possível obter com um método numérico,” disse Di Lucente.

 

Calor dá marcha-a-ré, uma descoberta com impactos difíceis de prever

A descoberta tem largo alcance, incluindo a plasmônica e a magnônica, que envolvem a computação com luz e a computação magnética.
[Imagem: Xufeng Zhang/ANL]

Calor pode dar marcha-à-ré

Mas o trabalho rendeu mais do que o esperado: Quando a equipe aplicou suas equações ao caso de uma seção plana de grafite submetida a uma temperatura de 70 K, muito abaixo da temperatura ambiente, eles descobriram que o calor pode ser forçado a se mover em marcha-a-ré, saindo de uma região mais fria rumo a uma região mais quente – em princípio, dá até para pensar em mover o calor em uma direção arbitrária.

“Ao injetar calor em pontos específicos, além da difusão térmica normal no centro, criam-se vórtices nas laterais que empurram o calor de volta das regiões frias para as quentes, um processo que chamamos de refluxo térmico. A resistência térmica no dispositivo, em outras palavras, torna-se negativa,” detalhou Di Lucente.

O efeito é pequeno, mas consistente, na amplitude de alguns graus Kelvin. Mas a possibilidade de inserir um sistema desse tipo em produtos eletrônicos pode ter enormes aplicações: Por exemplo, o gerenciamento hidrodinâmico de calor poderia ajudar a evitar o superaquecimento de baterias ou processadores.

E as equações agora desenvolvidas são versáteis, podendo ser aplicadas a outros fenômenos. “Enquanto na hidrodinâmica de fônons o fluxo é sempre compressível, os fluidos eletrônicos são normalmente descritos como incompressíveis,” explicou Di Lucente. “Mas existem condições especiais em que os fluxos de elétrons também podem ser compressíveis, como na plasmônica, e não são bem descritos pelas equações de transporte de elétrons. Nosso método é uma descrição generalizada do fluxo que pode ser aplicada a fônons, elétrons e até mesmo mágnons, que são excitações magnéticas coletivas de partículas.”

 

Bibliografia:

Artigo: Vortices and Backflow in Hydrodynamic Heat Transport
Autores: Enrico Di Lucente, Francesco Libbi, Nicola Marzari
Revista: Physical Review Letters
Vol.: 136, 056307
DOI: 10.1103/g9dx-hjyn