Brasil deve ter ao menos seis ondas de calor até o fim do ano
Análise do Cemaden aponta pelo menos seis ondas de calor até dezembro, com risco de Super El Niño aumentar número de eventos. Calor pode piorar seca e espalhar incêndios. Há alerta de foco em 35% do território.
O Brasil deve passar por ao menos seis ondas de calor nos próximos meses, segundo uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O fenômeno, que já foi mais concentrado em algumas regiões, hoje atinge o país inteiro ao mesmo tempo. E mais: o número de ondas pode ser ainda maior, já que no último El Niño foram nove.
Uma onda de calor não é aquilo que ocorre em um dia quente, é muito mais do que isso. A onda acontece quando, por um período de pelo menos três dias seguidos, as temperaturas máximas e as mínimas ficam excepcionalmente acima do normal. Ou seja, não há trégua de calor.
A previsão aponta que vamos viver um Super El Niño, que pode entrar para os mais intensos já registrados. Ele deve trazer calor e seca, ao mesmo tempo em que provoca chuvas intensas com cenários diferentes pelas regiões do país. Mas há um consenso de norte a sul: o calor.
A estimativa parte de uma pesquisa que analisou o histórico de 47 anos de registros de temperaturas observando o fenômeno em anos de El Niño.
De acordo com a pesquisadora responsável pelo levantamento, Mabel Calim Costa, doutora em ciências do Sistema Terrestre, e que pesquisa ondas de calor no Cemaden, a frequência pode ser ainda maior com a intensificação do El Niño.
“Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes. Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país”, explica.
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Aumento das ondas de calor. — Foto: Arte: Kayan Albertin/g1
Ondas de calor mais frequentes e por todo o país
Os dados trazem dois alertas: as ondas de calor estão mais frequentes e mais extensas. Isso significa que o país vai ter não só períodos mais quentes, mas que não haverá lugar no Brasil para onde fugir do calor.
A análise mostra uma mudança de comportamento nas últimas duas décadas. Nos anos 1980 e 1990, os episódios de calor extremo eram raros e mais concentrados em regiões específicas, como o Nordeste.
A partir de 2010, e de forma mais acentuada depois de 2020, o cenário muda: as ondas de calor não apenas ficam mais frequentes, como passam a cobrir uma área maior do território, atingindo o país inteiro ao mesmo tempo em vez de se concentrar em um ponto do mapa.
“A gente percebe que a onda de calor passa a afetar todo o país e isso é uma questão porque estamos falando de calor adicional em áreas já quentes e em áreas que também não tem resiliência para enfrentar temperaturas tão altas”, explica.
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Cidades pelo país podem ter temperaturas até 3°C acima da média em setembro — Foto: Wesley Costa/O Popular
O gatilho por trás desses episódios costuma ser a formação de áreas de alta pressão que ficam paradas sobre uma região por vários dias. Esses sistemas funcionam como uma espécie de tampa: bloqueiam a formação de nuvens e a chegada de chuva, e prendem no lugar uma massa de ar seco e quente.
Sem nuvens para fazer sombra e sem chuva para resfriar o ambiente, a umidade do solo vai se esgotando — o que, por sua vez, intensifica ainda mais o aquecimento e pode reforçar quadros de seca já existentes.
O que mudou ao longo das décadas, segundo a especialista, não é necessariamente esse gatilho em si, mas a temperatura de base sobre a qual ele atua. Com o planeta mais quente, cada episódio desse gera picos de calor mais extremos do que geraria décadas atrás.
“As mudanças climáticas estão avançando e o mundo está mais quente. Isso reflete na intensidade das ondas e podemos ver um cenário ainda mais forte este ano.”, explica Mabel.
O período de 2023 a 2024 foi o pico da série histórica: nove ondas de calor entre agosto e dezembro, o maior número já registrado desde 1979 — mais que o dobro da média geral do país, que é de quatro registros.
A temporada foi o mais quente da história no mundo. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas enfrentaram pelo menos 150 dias de calor extremo em 2024, como o g1 mostrou com exclusividade.
Ainda não é possível saber quando vamos passar pela primeira onda de calor. No entanto, as previsões de setembro mostram um mapa quase inteiro laranja ou vermelho – o que indicam temperaturas acima da média em quase todo o Brasil – e com índices que podem chegar a 3°C acima da média.
O pesquisador e especialistas em Ciências Meteorológicas, Marcelo Seluchi, explica que vamos começar a sentir os primeiros sinais do El Niño em setembro e podemos esperar calor intenso no Centro-Sul, com chuvas no Sul.
“A temperatura dos oceanos estão batendo recordes e as previsões indicam que vão continuar aumentando. Isso nos mostra que podemos esperar um calor intenso já a partir de setembro, com ondas de calor acontecendo com maior frequência, intensidade e duração”, explica.
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Calor pelo país em setembro. — Foto: Arte: Kayan Albertin/g1
E quais são as consequências do calor?
O calor tende a intensificar a seca. Menos nuvens significam mais evapotranspiração — o processo pelo qual solo e plantas perdem água para o ar —, o que reduz a umidade do solo e agrava o quadro de estiagem.
De acordo com os dados do Índice Integrado de Seca, produzidos pelo Cemaden para o governo federal, 157 cidades no país já estão em seca severa. A maioria dos casos está no Norte e no Nordeste. Os estados com maior número de municípios nessa condição são Tocantins, com 50 casos, e Bahia, com 18.
“As regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo isso com registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões”, explica Ana Paula Cunha, pesquisadora e especialista em secas.
O calor também aumenta o risco de incêndios. Um levantamento conjunto do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) classifica os municípios brasileiros por nível de risco de fogo, cruzando dados de atividade humana — como tendência e acúmulo de focos de calor — com condições climáticas, como temperatura acima da média, chuva abaixo da média e a duração da estação seca.
O resultado mostra que 560 municípios estão hoje em alerta alto, somando uma área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados. Isso representa mais de 35% do território nacional. A região mais vulnerável está entre a Amazônia e o Pantanal.
O risco é um dos principais pontos de atenção para o Ministério do Meio Ambiente. A Amazônia registrou no primeiro semestre de 2026 a menor área com sinais de desmatamento detectados por satélite em uma década, segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe.
Com isso, desde maio foi criado um gabinete de crise para responder ao El Niño com mobilização de mais de 4,6 mil brigadistas federais pelo país para o reforço no combate a incêndios.
Para além disso, há impactos também na economia. Os alimentos podem ficar mais caros para os brasileiros e atingir um pico de preços em até seis meses após os choques climáticos provocados pelo El Niño. Segundo o estudo, os alimentos in natura, como carnes e hortaliças, são os que tendem a encarecer mais.
Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria podem subir 19,9%, enquanto a alimentação no domicílio avançaria 6,32%.Sem lugar para fugir do calor: Brasil deve ter seis ondas de calor entre setembro e dezembro
