Na bruma do tempo, esfarelaram expectativas de propor a paz, a saúde, a convivialidade e a inclusão como bandeiras para obter qualidade de vida.
Hoje, o que observo nas cidades grandes principalmente, é o clima de S.O.S. -.
Sim, as cidades como culminância da cultura e da civilização vêm entrando em acelerada decadência. Comprovam-no adventos como as guerras cruéis em curso, em Kiev e Gaza, turbulência e vandalismo, como em Paris ou Madrid e violência cotidiana, sistemática como no Rio de Janeiro e na periferia das grandes cidades, que nos fazem tremer. E citei somente alguns exemplos entre milhares…
Tremer e temer o futuro.
Não há a menor dúvida de que estamos vivendo a época do VISIONARISMO CATASTROFISTA: caminhamos para o desastre, seja ele ambiental ou da não solução das diásporas de refugiados de guerras, fome e doenças, ou ditaduras. Há um clima de divisão e de nacionalismos recalcitrantes no ar.
Putin, Trump, Milei e líderes populistas ou religiosos radicais não são um fenômeno casual.
O ressurgimento do reacionarismo cujo fruto mais amargo é o FASCISMO está aí para nos esfregar na cara que estamos pensando o futuro NÃO COMO ESPERANÇA, mas como MEDO.
Pode o passado (holocausto e assemelhados) voltar?
O medo mobiliza uma energia ruim, defensiva, rancorosa, nos torna violentos e intolerantes. Traz ao dormir e ao acordar o gosto azedo dos pesadelos.

É este medo e não esperança que vejo retratado nas CIDADES e no AMBIENTE que cenograficamente agudizam a saga dos filmes distópicos, a exemplo de Blade Runner (1 e 2), filmes que impactam por suas sugestões não só da destruição magnífica que podemos causar às nossas proprias condições de vida, mas por colocar tão premonitoriamente nossa relação com as máquinas e ‘transumanos’ (no filme os ‘replicantes’), como uma realidade cada vez mais plausível.
Os dois filmes (1 e 2) do diretor Ridley Scott são agônicos e intensificam estética e filosoficamente o nosso MAL ESTAR NA CIVILIZAÇÃO.
Aprende-se muito com o cinema.
Entre as possíveis leituras que ambas as películas podem ensejar, duas saltam aos olhos: o ambiente retrata uma NATUREZA PRATICAMENTE AUSENTE, degradada ao extremo, hostil à vida tal como a conhecemos.
As cidades são aglomerados caóticos, habitados por ruínas, sucatas e monumentos de outrora (de hoje?). São escuras, lamacentas, neblinosas, e apinhadas por seres “sobreviventes”.
A comida no primeiro filme era de rua, à semelhança do que ocorre com as cidades asiáticas, no segundo é o fast-food em contínuo delivery por robôs e sistemas automatizados. Não há sabor nessa vida, mas apelos de neon, prazeres virtuais.
Os ambientes seguros/controlados são casamatas gigantes, feias, pesadas, estruturas que esmagam ou tornam insignificantes os que lá estão.
A profecia tenebrosa está bem diante de nós: cidades desumanizadas, seres que vão perdendo suas características humanas, máquinas que vão ganhando nossas feições, mas não a parte luminosa de nossa ÂNIMA.
NÃO HÁ PAZ. É como se fosse o UMBRAL descrito pelos espiritualistas, um entre céu e inferno pós catástrofe nuclear, pós fenômeno climático vivido em sua mais terrível manifestação.
NÃO HÁ PRIMAVERAS NESSE MUNDO desolado.
Em ambos os filmes, a abordagem mais óbvia é a do nosso futuro com a inteligência artificial, automação e robótica e seus possíveis (e tenebrosos) impactos em nossa psique.
Nestas poucas palavras de uma breve reflexão, deixo apenas a sugestão de que essas projeções/fantasias/premonições sobre o futuro começam a delinear o que chamo de futurofobia.
Tememos o futuro. TEMEMOS O TEMPO DO SER HUMANO.
Tememos o que nos tornamos.
Samyra Crespo
