Líquenes antárticos são estudados como potenciais armas contra ‘superbactérias’
Expostos a baixíssimas temperaturas e a condições climáticas extremas, os líquenes que crescem na Antártica podem se tornar a esperança para combater as “superbactérias”, resistentes aos antibióticos e que estão se transformando em uma nova ameaça para a saúde humana.
Dominantes na flora terrestre antártica, os líquenes – surgidos da simbiose entre uma alga e um fungo – produzem grande quantidade de compostos, conhecidos como “metabólitos secundários”, para sobreviver em hábitats inóspitos.
Suas propriedades são úteis em ambientes polares e de alta montanha e, entre elas, encontram-se a proteção contra radiação ultravioleta, atividade antioxidante, antimicrobiana, ou anticancerígena.
Nem todos os líquenes que crescem nas pedras, nos musgos, ou na terra do Continente Branco têm as mesmas propriedades, diz a ecofisióloga Casanova-Katny à AFP.
Entre os líquenes procedentes da península Fildes, na ilha do Rei George, um dos mais efetivos foi o H. lugubris, testado contra duas cepas bacterianas resistentes aos antibióticos (Kocuria rizophila ATCC 9341 e A. baumannii ATCC 19606) e contra várias cepas clínicas de “Acinotebacter baumannii”, um importante patógeno hospitalar multirresistente aos antibióticos.
Entre os compostos que formam o extrato primário encontrado nesse tipo de líquen está o atranol – usado para elaborar perfumes -, um metabólito com potencial utilidade antibacteriana em Medicina.
Embora a maioria das plantas produza esses metabólitos secundários, a quantidade produzida nesses líquenes é muito superior (beira os 700 contra os 200 das outras plantas), apontam os autores do projeto.
Os testes no Laboratório de Pesquisa em Agentes Antibacterianos, da Universidade de Concepción, ainda estão em fase inicial.
Depois, será necessário sintetizar as moléculas de forma artificial em laboratório e realizar testes em animais, antes de convertê-las em antibiótico. E, para isso, o principal é “convencer as empresas farmacêuticas para que invistam” no projeto, acrescenta a cientista.
À dificuldade de levar um novo antibiótico para o mercado, soma-se outra para os cientistas, inerente a esta flora antártica que cresce muito lentamente e cujo cultivo “in vitro” foi difícil. Para algumas espécies, impossível.
Por isso, os cientistas alertam que é “importante” que a investigação em produtos naturais obtidos de organismos antárticos seja uma ferramenta para favorecer e melhorar sua preservação, e “não uma desculpa para depredar um dos últimos lugares mais primitivos na Terra”.
As bactérias são os micro-organismos mais antigos e eficazes que existem na Terra. Estima-se que tenham surgido há quase 3,6 bilhões de anos e sejam capazes de se adaptar praticamente a todas as condições ambientais.
Ainda que imprescindíveis para a vida do planeta e de grande importância para o ser humano, um pequeno percentual de bactérias patogênicas é letal. Desde a descoberta da penicilina em 1929 por Alexander Fleming, foram combatidas por antibióticos, mas algumas se tornaram resistentes à ação desses medicamentos convencionais.
