Governo congolês pretende exportar animais ameaçados de extinção para zoos na China

Gorilas-das-montanhas e outras espécies ameaçadas da República Democrática do Congo correm o risco de serem retiradas da natureza e exportadas para zoológicos chineses, segundo grupos conservacionistas.

Uma carta do ministro do Meio Ambiente do Congo para uma empresa chinesa, aparentemente referindo-se a um pedido de várias espécies raras, foi vazada e provocou indignação da ONG protetora da vida selvagem, Born Free, e de outras organizações defensoras dos direitos animais.

A correspondência, postada no Twitter por um ativista ambiental, refere-se a um pedido de uma dúzia de gorilas-da-montanha, 16 bonobos, 16 chimpanzés, oito peixes-boi africanos e 20 ocapis.

Os animais, todos pertencentes a espécies ameaçadas de extinção, foram solicitados pelo zoo de Taiyuan, na província chinesa de Shanxi no norte do país, e ao zoo Anji Zhongnan, no leste da China.

O país não possui programas de reprodução em cativeiro, portanto, entende-se que qualquer acordo exigiria que os animais fossem retirados da natureza. Estima-se que apenas 200 gorilas das montanhas ainda habitem o Congo, enquanto os bonobos são endêmicos no país, ou seja, exclusivos da área.

O presidente da Born Free, Will Travers, disse: “Estamos profundamente desanimados com essas propostas e tememos pelo bem-estar desses animais. Retirá-los da vida selvagem colocará diversas vidas em risco e, em nossa opinião especializada, os zoológicos envolvidos claramente não conseguirão atender às complexas necessidades de saúde, sociais e emocionais desses animais, caso sobrevivam à captura e ao transporte. ”

A carta, datada de 8 de junho de 2018 e assinada pelo ministro do Meio Ambiente do Congo, Amy Ambatobe Nyongolo, parece concordar com a exportação dos animais.

A correspondência é dirigida a Liu Min Heng, CEO da Corporação de Comércio Internacional Tianjing Junheng, e cita um suposto acordo entre os zoos chineses e o Instituto do Congo para a Conservação da Natureza (ICCN), órgão responsável pela proteção da fauna e flora do país.

Adams Cassinga, um jornalista investigativo que se tornou ambientalista e fundador da organização Conserv Congo, recebeu a carta de uma fonte. Ele a postou no Twitter e lançou uma petição para impedir a exportação dos animais, que até agora, foi assinada por quase 3.000 pessoas.

Cassinga disse: “Fiquei completamente chocado quando vi a carta. Todos esses animais são altamente protegidos e ameaçados. Um grande esforço de organizações locais e internacionais tem sido feito para preservá-los, e então esse cara [ Amy Ambatobe] vem do nada e decide enviar esses animais para a China sem consenso.”

“A maioria de nós aqui nunca viu esses animais raros. Eu, por exemplo, nunca vi um peixe-boi na República Democrática do Congo. Eu gostaria que os chineses estivessem envolvidos na conservação de nossa vida selvagem, mas eles estão entre aqueles que a estão destruindo. Nós não temos pandas em nossos zoológicos. Por que nossas espécies raras devem aparecer nos zoos deles?

De acordo com as fontes de Cassinga, o acordo entre o governo e a empresa chinesa estipula que qualquer descendência dos animais deve ser devolvida à natureza na RDC. Cassinga, no entanto, lançou dúvidas sobre a praticidade de tal plano.

Ele disse: “Isso é algo que é improvável devido a muitos desafios, principalmente a falta de recursos do estado congolês”.

O ICCN publicou uma declaração distanciando-se da proposta de exportar animais, instando o governo a respeitar a convenção sobre o comércio internacional de espécies da fauna e flora silvestres ameaçadas de extinção (CITES).

No entanto, o governo do Congo, desde então, emitiu uma declaração alegando que nenhum acordo foi alcançado e que a convenção ainda está sendo avaliada.

Em carta à Cites, Born Free e outros 15 grupos da sociedade civil levantaram preocupações e pediram medidas para impedir exportações potencialmente fraudulentas. As organizações afirmam que qualquer remoção de grandes primatas da natureza seria ilegal sob a lei nacional.

Travers admitiu que o investimento chinês pode ser atraente para as economias africanas em dificuldades, mas disse que isso não deve ocorrer às custas da fauna e flora exclusivas do continente.

Capturar grandes símios vivos da natureza geralmente envolve a interrupção de grupos sociais inteiros e a morte de outros membros da família, com consequências devastadoras, alertou a instituição de caridade.

“Com sua enorme capacidade de investimento, a China tem uma grande responsabilidade para garantir que suas atividades internacionais não prejudiquem a vida selvagem do mundo”, disse Travers.

Amy Ambatobe, que negou ter concordado em exportar os animais, disse que havia encaminhado o pedido aos especialistas em conservação do país. Ele disse que os animais não seriam trocados por dinheiro sob nenhuma circunstância.

A Born Free afirma que uma empresa com o mesmo nome que aparece na correspondência do ministro do Meio Ambiente estava anteriormente envolvida na exportação de oito chimpanzés vivos da Guiné para a China sete anos atrás.

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