Associativismo empreendedor é preciso

ImagePor Francisco de Assis Melo*

Nas últimas décadas, motivadas pelos diversos programas governamentais, dificilmente haverá comunidades que não tenham uma associação. É condição sine qua non para ter acesso a recursos governamentais ou mesmo privados. Algumas surgiram a partir de discussão entre os participantes. Outras despontam da noite para o dia, apenas copiando um estatuto, sem se dar ao trabalho de discutir os pontos mais relevantes que envolvem o assunto. 

Assim surgiram as associações “arapucas’ ou “alçapões”, aquelas constituídas às pressas, tão somente para “pegar” recursos governamentais. Tão logo têm o seu projeto implantado, imediatamente cuidam de colocar a associação no rol dos esquecidos. Só queriam o tal projeto. É como se a comunidade não tivesse outros problemas capazes de serem sanados com os recursos disponíveis nas diversas agências de desenvolvimento, do Brasil ou do exterior.

Outras vezes as associações são vítimas da cultura burocrática inerente às instituições oficiais, submetidas a intensos procedimentos de caráter legal que exigem todo um ritual próprio das instituições parceiras. De modo que todo presidente de associação que se preza é facilmente reconhecido por conduzir sempre uma pasta contendo os diversos papéis, debaixo do braço. A cena é tão comum que, jocosamente há quem diga tratar-se de “associação sovaco”.

O fato é que as associações se propõem a desenvolver as comunidades, buscando recursos junto aos organismos que atuam na perspectiva do desenvolvimento comunitário. E para isso precisam compreender o universo das instituições, o aparato legal que normatiza as relações do Estado com a sociedade civil, o conteúdo de lei, estatuto, regimento, enfim, há que entender os meandros da burocracia oficial. 

E mesmo de posse de todo esse aparato ainda é possível a ocorrência de associações que têm “donos” ou “donas” que controlam grupos de associados/as trabalhando nos mais diversos serviços e sendo mal remunerados, às vezes em questionáveis condições de trabalho, enquanto o dirigente muitas vezes é quem se apropria da fatia mais apetitosa do bolo, embora fazendo o gênero “coitadinho(a)”. Geralmente essas “lideranças” não são transparentes em relação à gestão, mantendo sempre o controle da “caixa preta” a sete chaves e quem fizer o menor questionamento passa a fazer parte do grupo de adversário do/da aprendiz de tirania.

Mas, abstraindo-se os aspectos negativos já referidos, as associações podem e devem desempenhar um expressivo papel ao intermediar as demandas sociais da comunidade, com as políticas públicas vigentes. De tal modo que ela pode perfeitamente articular o mercado, por exemplo, para a produção dos associados, sem deixar de cumprir com o seu papel social propriamente dito.

Outro aspecto que requer uma discussão mais aprofundada diz respeito aos projetos comunitários da forma como são concebidos atualmente. Por exemplo, há projetos com características de empreendimento que contribuirão para o aumento da renda dos seus integrantes. E de repente apresenta-se uma lista com trinta e tantos associados, todos ansiosos pelo aumento imediato da sua renda. 

No final dos ciclos produtivos, descontado o capital de giro, depreciação de equipamentos e outros custos operacionais, eis a frustração: sobrou muito pouco para cada um. Sem contar que tal divisão do bolo não se deu considerando a proporcionalidade do trabalho de cada um. Um desestímulo ali outro aqui e o projeto acaba ficando sob o controle de apenas dez, que passaram a ter uma renda razoável em relação à situação anterior. Onde está o equívoco? Ora, o grupo que permaneceu era na verdade o grupo de interesse e para ele é que deveria ter sido elaborado o projeto, considerando-se o seu formato, valor investido e assim por diante. 

Para os “desistentes” haviam que ter sido pensadas outras alternativas que atendessem às suas verdadeiras demandas econômicas ou sociais. Além do mais, nada impede que uma associação possa ter até mais de um grupo de interesse, dependendo das suas potencialidades. O fato é que se faz necessário, desmistificar o conceito de “projeto comunitário”. Assim, quem sabe, os recurso emprestados (é bom que se frise) pelas agências de financiamentos sejam eficazmente empregados e resultem no desenvolvimento tão esperado pela sociedade, a verdadeira pagadora de tais financiamentos.

*O autor é Engenheio Agrônomo e consultor no Projeto Cooperar. Maio/2014.

Fonte: Espaço Ecológico
03.05.2014

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