Safári com Jabulani, uma experiência única. Foto: arquivo Silvana Campello
Escolhi comemorar meus 60 anos em um safári na África do Sul montada em um elefante. Eu já havia feito um safári em elefante, e a experiência daquele encontro tão íntimo com esse maravilhoso animal me marcou profundamente. Quando li que a partir de abril de 2017 os safáris em elefantes serão banidos em todo o mundo, devido a pressão internacional contra as crueldades praticadas para domesticação e treino dos animais para turismo, decidi repetir a experiência pela última vez, embora, como conservacionista, seja completamente a favor da suspensão da atividade. Hipocrisia? Calma. Nada disso. O elefante que montei antes e agora chama-se Jabulani, que significa Felicidade, e seu lar é o Centro de Espécies Ameaçadas de Hoedspruit, na África do Sul.
O Centro, ou HESC (Hoedspruit Endangered Species Center) é uma ONG fundada por Lente Roode, uma mulher excepcional. Quando tinha 6 anos, o pai de Lente recebeu em sua fazenda um filhote de guepardo — ou cheetah –, cuja mãe havia sido abatida para comércio da pele. Lente cuidou do pequeno animal como um mascote, e cresceram juntas em uma relação inseparável. Quando herdou a fazenda de seu pai, em 1985, os guepardos já estavam ameaçados de extinção pela caça, perda de habitat, ou por serem vistos como ameaça ao gado por fazendeiros. Lente passou a buscar filhotes órfãos de guepardos bem como guepardos feridos, visando sua reabilitação e posterior reintrodução na natureza. A construção dos recintos, o tratamento veterinário e os preparativos para reintrodução em reservas de ecoturismo – um processo pelo qual o destinatário do animal é minuciosamente investigado, podendo levar um ano – consumiram centenas de milhares de dólares de sua herança, contra todos os conselhos de sua família e amigos.
Um dia chegou a notícia de que um pequenino elefante se encontrava atolado em uma vala de lama, abandonado por sua manada. Lente mobilizou uma operação de força, e resgatou o filhote exausto, desnutrido, desidratado e profundamente deprimido. Devido aos mimos que recebeu no HESC, Jabulani, como foi chamado, cresceu afeiçoado a Lente e à equipe do centro. Cientes que elefantes são animais sociais, várias tentativas foram feitas para reintegrar Jabulani à natureza mas o animal não foi aceito por grupos selvagens e cresceu na companhia dos humanos, entregue à sua bestial solidão.
Uma manada para chamar de sua
Até que, em 2002, chegou ao conhecimento de Lente que doze elefantes órfãos em operações de matança no Zimbábue seriam abatidos em um “centro de treinamento” em um momento de grande instabilidade social no país. A matança de manadas inteiras para controle de população era uma prática corriqueira no Zimbábue preservando apenas a vida dos menores filhotes, os quais, após presenciar a morte de toda sua família, eram levados a esses “centros” para serem cruelmente domesticados e vendidos a circos, ou usados para safáris. Lente resolveu arriscar tudo: se Jabulani não foi aceito por uma manada selvagem, quem sabe uma manada não pudesse ser criada para ele? De dedos cruzados e de última hora, uma monumental e custosa operação foi montada e, em poucos dias, os pequenos órfãos iniciaram sua longa jornada entre o Zimbábue e a África do Sul. Estábulos foram construídos em tempo recorde a um alto custo. Para garantir o bem-estar psicológico dos pequenos, seus tratadores no Zimbábue foram também contratados, pois os animais já haviam se afeiçoado a eles, e vice-versa.
Eu gostaria de ter presenciado a chegada da manada e seu encontro com Jabulani. Se tudo falhasse, os esforços teriam sido em vão, e o prejuízo incalculável. Felizmente todos se deram bem, e Jabulani recebeu Bubi, Fishan, Klaserie, Kimbura, Limpopo, Lundi, Pisa, Sebakwe, Setombe, Somapane, Tokwe e Zindoga como irmãos. Um tempo depois nasceu o pequeno Mambo. A fim de garantir o sustento da manada, Lente deu continuidade ao preparo dos animais para safáris, porém agora com auxilio psicológico e veterinário, e utilizando apenas reforço positivo. Com avaliação psicológica, apenas seis membros da manada são utilizados para safáris. Sob os cuidados de Lente nenhum animal jamais sofreu abuso físico ou espiritual, e isso fica evidente quando os vemos juntos passeando livremente pela reserva, brincando nos lagos e rios, ou durante o único safári diário, de aproximadamente 1 hora e meia ao final da tarde, onde corriqueiramente “decidem” sair da trilha para comer umas folhas ou quebrar uns galhos de árvores.
Campo Jabulani, como é agora chamada a casa de hóspedes na imensa reserva de Lente, permite aos animais terem uma vida em seu ambiente natural, convivendo com outros animais selvagens como rinocerontes, guepardos e búfalos, porém sem se esquecer das verdadeiras circunstâncias de cativeiro que caracterizam o passado e a criação da manada. E por falar em rinocerontes, o HESC também tem filhotes órfãos de rinocerontes cujas mães foram abatidas pelo infame comércio de “chifres”. A fim de protegê-los, são injetadas nesses tufos de queratina substancias alérgicas para humanos.
A manada toma seu banho diário no rio da reserva. Foto: Silvana Campello
A partir de abril de 2017, a prática de safáris em elefantes será banida, inclusive em Campo Jabulani. Um caso típico onde os bons pagam pelos maus. Porém, é uma medida extremamente necessária tendo em vista que filhotes selvagens estavam sendo roubados de parques na África e na Ásia para serem submetidos a tratamentos extremamente cruéis a fim de serem usados em safáris. O treinamento inclui acorrentamento, confinamento em espaços pequenos, solidão, incapacidade de conviver com outros elefantes – com quem precisam manter ligações emocionais – abuso físico por chicotes, choques elétricos e objetos pontudos, além de passar fome e sede. Na Tailândia, elefantes movidos à base de ferros e chicotes levam turistas em passeios curtos durante o dia inteiro, sem trégua e em meio a trânsito de pessoas e veículos.
Proibir os safáris foi a melhor decisão para combater esse tipo de crueldade. Falta ainda tomar medidas que punam severamente os consumidores de marfim. Punir apenas os grupos criminosos que sustentam o terrorismo na África através do tráfico de marfim no Extremo Oriente não tem surtido resultados. Um relatório da WWF de junho de 2016 afirma que mais de 30.000 elefantes são mortos anualmente pelo tráfico de marfim, e prevê que estarão extintos da Tanzânia até 2022.
Acredito que para ser completamente feliz, uma pessoa precisa ter uma causa, algo que a faça seguir em frente todas as manhãs mesmo diante das adversidades. Pessoas como Lente Roode, e sua filha Adele, que investem seu tempo, seu dinheiro e seu coração em uma boa causa servem de exemplo para mim, já que, dos meus 60 anos (confesso que ainda não me acostumei), dediquei 30 à conservação e os últimos 10 de corpo e alma ao Parque Estadual do Cantão. Dizem que hoje em dia “60 é o novo 40”. Deve ser, porque nem me lembro bem de como comemorei os meus 40. Mas os 60, em contato com Jabulani e sua turma, serão absolutamente inesquecíveis.
*Silvana Campello
Presidente do Instituto Araguaia de Proteção Ambiental e membro da Comissão Mundial de Parques e Comissão de Sobrevivência das Espécies, da IUCN.
