Planta possui propriedades benéficas para pessoas que sofrem com problema de gota

Por Marcos Guião*

Dia desses estava encarapitado no derredor de um braseiro, assoprando um enorme fole no intento de amolecer um feixe de mola de caminhão. A ideia era fazer daquilo um facão e a lâmina em brasa esticada, por riba da bigorna, recebia severas marretadas do Tião, mestre nessas artes aqui do sertão. Homem sério, dotado de muitas habilidades, ele aos poucos foi dando forma à ferramenta.

O trem tava inté dando certo, quando João Barriga adentrou na oficina. Seu rosto estava vermelho qual o fogo da forja. E um dos pés descalços se apresentava igual uma pipa, de tão inchado. A cada passo, ele soltava uma praga e fazia uma careta, dando maior visibilidade ao seu sofrimento. Ele foi me vendo e dizendo: “É essa danada da gota! Num tô me aguentando em pé. Passei essa noite em claro esperando amanhecer pra buscar recurso e dar fim nesse sofrimento. Pois chego na farmácia e num tem o remédio… Maria, valei-me!”

Fiquei observando sua expressão injetada pelos olhos vermelhos da insônia e me alembrei que a Gota é uma doença que aparece derivada do excesso de ácido úrico circulando no sangue, fazendo com que cristais de sódio se depositem nos tecidos e articulações, gerando dor e inflamação que acompanha os “gotosos”. Tem uma planta afamada nas tratativas de casos como o do João, que é o araticum (Anonna crassifolia). Típica de nosso Cerrado, nessa época do ano esparrama seus frutos de paladar arenoso, cheiro adocicado (e até enjoativo) nas feiras sertanejas.

Foi só o tempo de falar sobre essa possibilidade que ele logo se interessou. E foi se apoiando em meu braço enquanto dizia: “Por misericórdia, você sabe donde arranjo desse remédio aí? Num tô me aguentando de dor”. Maldade demais deixar um amigo em sofrimento! Prontamente me dispus a buscar um bocado da entrecasca da árvore, pois sabia de um pé dele beirando a cerca da casa de Mariinha de Antônio. Fui num pé e voltei noutro – gastei tiquim de tempo. Trouxe uns galhos e rapidamente raspei a parte morta da casca, se dei na entrecasca e bati forte com um porrete, até que ele deu de soltar grandes lascas, que fui picando em pedaços menores.

A água já tava no fogo e joguei um punhado equivalente a pouco mais que uma colher de sopa das cascas, deixei ferver e esperamos até dar ponto de tomar. Num demorou um “tim” e ele já havia tomado todo o chá em grandes goles enquanto conversávamos. Aos poucos foi se acalmando e acabei por levá-lo em casa para evitar o sofrimento da caminhada. Poucos dias depois nos esbarramos na rua e ele fez festa agradecendo “santo remédio, que jogou água na fervura”. O facão até hoje ainda não tá pronto, mas o remédio do João Barriga até já deu resultado.

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais

 

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