Planta é utilizada para tratamento das inflamações nos olhos

Certa vez, eu andava pelos cantos do sul da Bahia em férias, caçando jeito de me esparramar numa praia em busca de descanso e lazer, quando se deu a seguinte história. Depois de um dia perfeito de sol e mar, no começo de noite acabei por participar de uma roda de samba no lar de um casal de advogados já idosos, sendo ele dr. Jomar, com seus 90 anos, homem de semblante sério, mas espirituoso, poeta e escritor, que encantava a todos ao declamar versos entremeados a excelente música executada. Dona Ruth, sua garota de 83, trazia no rosto um sorriso constante e um par de olhos miúdos que seguia a tudo e todos, sempre acompanhada de um celular de última geração, dando notícias aos ausentes da família pelo zapzap ou postando fotos no Facebook.

Enquanto os músicos faziam a festa, as histórias escorriam infinitas, dando conta da sabedoria, experiência e humor dos dois nas lidas da vida, começada simples lá nas grotas de Nanuque (MG). Naquele tempo, a devastada Mata Atlântica ainda era soberana e se impunha, disponibilizando recursos muitos àqueles que dela necessitavam e sabiam o “como” colher, preparar e usar. Durante essa prosa despretensiosa, descobrimos o interesse comum pelas plantas medicinais e daí a programar uma singela excursão em busca de remédios do mato foi um pulo.

Dia seguinte, bem cedo, seguimos até um capãozinho de mata na saída da cidade e logo nos demos com uma arvoreta de folhas ásperas, galhos macios e repletos de pequenos frutos esverdeados, que ficam avermelhados quando maduros. Seu Jomar foi logo dando nome e serventia: “Esta aqui é a corindiba (Trema micrantha), também chamada de candiúba, planta de alto poder curativo para as inflamações oftálmicas”. E daí discorreu as experiências por eles vividas: “Certa vez uma neta tava em tratamento num grande hospital da capital, já há quatro meses, sem sucesso para dar jeito numa inflamação dos olhos. Pois bem, colhi uns galhos de corindiba e piquei em pequenos pedaços. E quando se sopra com força o toletezinho em cima de um prato, aos poucos pinga uma seiva transparente, que é o remédio já pronto. Assim preparado, pinguei uma só gota no olho da garota e ela sarou!”.

Seu Jomar e dona Ruth: a corindiba é “remédio do mato” dos bons – Imagem: Marcos Guião

“De outra feita”, ele continuou, “nossa casa tava cheia de gente no verão e por aqui se espalhou uma epidemia de conjuntivite. Aquilo foi uma calamidade, mas pra quem conhece remédio do mato… Primeiramente tratamos nossos meninos e o resto do povo ficava olhando desconfiado. De um dia pro outro a meninada num tinha mais nada e daí se formou foi fila na porta de casa!”.

Pois é assim. É no simples da vida que o vivente aprende. Mas pra isso tem que ter consideração e respeito pela natureza e por aqueles que muito têm pra nos ensinar. Inté a próxima lua!

 

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