E agora? Países devem colocar em prática ações para atingir o 1,5ºC, certo?
No sábado (12) foi firmado um acordo histórico: 195 países mais a União Europeia concordaram com um acordo climático em que todos se comprometem em reduzir emissões para manter o aumento da temperatura em bem menos do que 2ºC em 2100 frente à era pré-industrial, perseguindo atingir 1,5ºC.
Esse é um objetivo muito ousado, pois em 2015 devemos atingir já o aumento de 1ºC. O texto não traz quais seriam as metas de redução obrigatória para cada país, uma exigência dos EUA, mas prevê uma revisão das metas voluntárias a cada cinco anos, sendo que a primeira seria em 2023. É mais ou menos assim: “não vamos colocar uma meta. Vamos deixar em aberto. Quando a gente atingir uma meta a gente dobra a meta”.
Agora, cada país leva tarefas para serem realizadas em casa. Em Paris, foi firmado o compromisso que deve se refletir em ações imediatas para “correr atrás do prejuízo” climático em que estamos.
“Esse acordo leva a gente a abrir um novo caminho que é diferente do anterior. Exige compromissos mais fortes de cada país, um redirecionamento para promover a transição indicada pelo acordo. O sucesso depende de os países começarem a fazer mudanças agora”, analisa Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Rachel Biderman, diretora executiva do World Resources Institute no Brasil, acrescenta: “o acordo abre uma grande janela para incentivar a agricultura, pecuária e a indústria em geral de baixo carbono [que emite poucos gases do efeito estufa]”. Para a especialista em administração pública, é necessário criar políticas públicas e financiamento para essas iniciativas.
Segundo Biderman, países como o Brasil não precisam “criar dinheiro” com ciclos de crescimento econômico. “Recursos existem, mas é preciso redirecioná-los. Parar de financiar a indústria do petróleo e canalizar dinheiro para as iniciativas de baixo carbono”, diz.
Neste sentido, Rittl destaca, para o Brasil, a revisão do Plano Decenal de Expansão de Energia para 2024, em que 71% dos investimentos no setor de energia deveriam ir para combustíveis fósseis. “Agora, tem que rever isso”, enfatiza.
Reduzir emissões
A meta brasileira até 2030 prevê redução de 43% das emissões de gases de efeito estufa e plantio de 12 milhões de hectares de florestas, além de apontar o fim do desmatamento ilegal só para esta data. A meta tida como ousada pelo governo, foi classificada como insuficiente por ONGs ambientalistas, que analisaram o potencial do país em reduzir emissões.
Vale lembrar que em 2012 o Brasil já tinha reduzido suas emissões em 41%, graças principalmente à queda do desmatamento de 2005, ano base do cálculo, em diante. Nos últimos anos, as emissões subiram um pouco graças à utilização de termoelétricas para geração de energia e o aumento no número de carros e transporte.
Espera-se agora que esse modelo seja revisto. “É importante reolhar as INDCs [metas voluntárias] e começar a discutir um compromisso de fato implementável que leve a reduções realmente maiores”, afirma Rittl, que lembra que os países ainda precisam ratificar, ou seja, tornar lei, o acordo.
“A gente tem que eliminar com muito mais rapidez os combustíveis fósseis. Transportes e energia devem ser discutidos com maior ambição no Brasil”, diz o especialista do Observatório do Clima.
Uma contribuição fundamental é aumentar a representação de energia solar e eólica na matriz energética. “Já há sinais no Brasil, mas é preciso melhorar muito. São necessários incentivos econômicos, como retirar imposto de importação, para trazer tecnologia”, avalia Biderman.
Buscar o desmatamento zero o quanto antes também é tido como imprescindível pelos especialistas. “Permitir’ que haja desmatamento ilegal pelos próximos 15 anos compromete nossa meta.
Para o país conseguir reduzir ainda mais suas emissões é preciso acabar com o desmatamento e fazer uma transição para economia de baixo carbono, com o apoio de um mercado de carbono internacional.
Economia florestal
“O setor florestal deverá crescer muito, principalmente no Brasil, devido ao clima tropical”, avalia Biderman. A especialista que integra a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura diz que serão necessários mais incentivos, como linhas de crédito, para fazer florescer uma economia florestal.
“É preciso criar um mercado de carbono interno e aproveitar os mecanismos do Acordo de Paris”, acrescenta Biderman. O novo acordo climático estabelece as políticas de Reed ++ e CDM +, que criam compensações financeiras para países empresas e produtores rurais que não desmatam e também para o reflorestamento.
Há um compromisso de reflorestamento nas metas brasileiras, mas esse número poderia ser muito maior. O país tem áreas degradadas que devem ser usadas para reflorestamento ou agricultura e pecuária. Mas é importante diferenciar os tipos de reflorestamento entre plantas nativas, quando você devolve a árvore para seu habitat, recria a biodiversidade local; e as árvores plantadas para fins econômicos, como o eucalipto, por exemplo.Já no setor agropecuário, o país possui um plano para reduzir as emissões – o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), lançado em 2012. “Estamos preparados, possuímos o conhecimento técnico, mas ainda não implementamos na escala necessária”, diz Biderman.
Para Rittl, o crédito agrícola para o projeto deve ser muito maior. “Esse ano a gente teve menos de 2% de crédito do plano Safra para o Plano ABC. E ele aumenta a eficiência, gera maior renda e ao mesmo tempo reduz emissões.”
Toda Sociedade
Segundo Rittl, o texto não é perfeito, depende da vontade dos países, mas temos essa indicação do objetivo. “Cabe a todos cobrar ações do governo que traduzam os objetivos em ações domésticas”, afirma.
Biderman também acredita que o desafio de alcançar os objetivos estipulados pelo acordo climático cabe a toda sociedade – governos, empresas e cidadãos.
“Será preciso deixar o carro em casa e optar pelo transporte público. É a contribuição mínima que cada cidadão precisa fazer. Além disso, é importante reduzir o consumo, reciclar lixo, fazer mutirão de plantio, porque muita árvore precisará ser plantada”, conclui.



