Transformar em sofrimento pessoal o que acontece no mundo

01Atualmente, há uma fecunda discussão filosófica no sentido de resgatar a razão sensível como enriquecimento imprescindível da razão intelectual. Essa diligência é necessária porque é por meio dela que nos comprometemos afetiva e efetivamente com a salvaguarda da vida no planeta e com a humanização das relações sociais. Nesse ponto, curiosamente, o papa Francisco, em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum, trouxe-nos valorosa contribuição.

Ele analisa com espírito científico e crítico o que está acontecendo. Logo adverte que, na perspectiva da ecologia integral, o tema fundamental de seu texto, essas categorias são insuficientes. Temos que nos abrir “à admiração e ao encanto e falar a linguagem da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo”. Portanto, não podemos nos restringir à ecologia ambiental, pois ela atende apenas a relação do ser humano com a natureza, esquecendo-se de que ele é parte dela.

Ocorre que o ser humano possui dimensões sociais, políticas, culturais e espirituais sobre as quais há parca preocupação e insuficiente reflexão, o que dificulta encontrar uma solução consistente para a grave crise que assola a Casa Comum. Considerando a amplitude dessas dimensões, devemos ir além de uma análise meramente técnico-científica. Devemos, sim, utilizar a pesquisa científica, que é imprescindível, mas importa “deixar-nos tocar por ela em profundidade e dar uma base de concretude ao percurso ético e espiritual daí derivado”.

O papa Francisco tem clara consciência de que, por trás das estatísticas, há um mar de sofrimento humano e muitas feridas no corpo da Mãe Terra. Como somos parte da natureza e tudo está inter-relacionado, participamos das dores da crise ecológica.

Mas o papa não se deixa intimidar por esse cenário. Dá um voto de confiança no ser humano, em sua criatividade e em sua capacidade de se regenerar e de regenerar a Terra e muito mais. Francisco confia em Deus, que, segundo as palavras da tradição judaico-cristã, “não permitirá que nos afundemos totalmente”.

Ainda faremos uma conversão ecológica e introduziremos “a cultura do cuidado que permeará toda a sociedade”. Disso nascerá um novo estilo de vida (alternativa repetida 35 vezes na encíclica), fundado na cooperação, na solidariedade, na simplicidade voluntária e na sobriedade compartida que implicará um novo modo de produzir e de consumir.

Por fim, nos dará “a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas, mas formarmos com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”.

Como se depreende, aqui não fala mais somente da inteligência intelectual, mas da inteligência emocional e cordial. O papa dá claro exemplo do exercício desse tipo de inteligência, tão urgente e necessário para superarmos a profunda crise que recobre todos os âmbitos da vida.

Em razão dessa inteligência emocional, pede que devemos “ouvir tanto o grito da Terra como o grito dos pobres”. As agressões sistemáticas, feitas nos últimos dois séculos, “provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo”. Por isso, importa cuidar da criação e tratar com desvelo os outros seres vivos.

Somente quem tem desenvolvida em alto grau a inteligência sensível ou cordial poderia escrever: “Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos, numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas”. Tais sentimentos e atitudes hoje constituem uma demanda geral para afastar as tragédias ecológico-sociais que já se anunciam no horizonte de nosso tempo.

Fonte: O tempo

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