Sucesso entre flores
A história da paisagista Denise Magalhães, que teve as rosas de Caxambu como inspiração para a vida e a profissão
Denise Magalhães: “O perfume das angélicas me leva ao paraíso. E particularmente gosto de ranúnculos, que parecem rosas e florescem em agosto e setembro, numa profusão de cores”
Não a chamem de flower designer, mas simplesmente de florista. É assim que Denise Magalhães gosta. “Minha alma é barroca”, confessa. Nem tentem pedir números da Verde que te quero Verde, empresa de sucesso que dirige há 35 anos, em BH, porque ela só fala de sonhos. E de porções quase mágicas, como a de caminhões que chegam, todos os dias, carregados de flores e param na porta da loja, à rua Sergipe, 1.180, na região da Savassi, diretamente das Centrais de Abastecimento de Minas e de São Paulo.
Com um vestido estampado de folhagens verdes, Denise, de 61 anos, nascida em Caxambu, Sul de Minas Gerais, parece ter sempre vivido entre as flores que vão enfeitar as festas da sociedade mineira, brasileira e até internacional.
Quando menina, ela frequentou muito a chácara dos avós. De lá, sempre voltava com braçadas de flores colhidas nos jardins.
De trabalhos manuais, ela entende muito. Toda a família sempre bordou, teve dom para o artesanato. Mas foi com a mãe, Mariazinha, que está com 88 anos, que ela hoje tem esse olhar diferenciado para a natureza.
Certo dia, dona Mariazinha disse para a filha: “Vamos montar uma loja de flores?” Denise gostou da ideia e as duas foram para São Paulo, passearam pela Avenida São João, visitaram a Ceasa, mas o que ela viu cortava o seu coração. “Para fazer um arranjo, eles enfiavam um arame na flor”. E em silêncio pensava: “Deve ser uma dor, eu nunca vou fazer desse jeito. Quero fazer do jeito que vejo na natureza. Do jeito que ela é”.
Denise montou a primeira loja, que durou quatro anos, em Caxambu, mas percebeu que não dava para vender flor no interior de Minas. “Lá, todo mundo tem um jardim, pega uma mudinha com o vizinho. Não precisa de flora. Então, decidi vir para Belo Horizonte aos 23 anos.” Denise desabrochou junto com a flora, pois fazia arranjos que ninguém ousava fazer. Nada de pirâmides certinhas, de arames violentando flores, de mesmice. Ela começou a fazer diferente.

Imagem: Gustavo Lovalho
Verde, a cor do sucesso
Ela faz questão de destacar o nome de uma pessoa que ajudou a Verde que te quero Verde a ser o sucesso que é hoje – a jornalista e editora do “Caderno Feminino e Masculino” do jornal Estado de Minas, Anna Marina Siqueira. “Um dia”, recorda-se Denise, “a Anna Marina, que eu nem conhecia ainda, entrou na minha loja e disse que ia fazer o aniversário do marido dela, o Cyro Siqueira. E pediu que eu fosse a responsável pelos arranjos da festa. Ela não falou como queria, mas que eu fizesse do meu jeito”.
No domingo seguinte, “me avisaram que meus arranjos estavam na capa e nas páginas centrais do ‘Caderno Feminino’. Daí para frente, não tive mais sossego. Os pedidos explodiram na loja. Foi a partir da divulgação da Anna Marina que teve início a minha trajetória, que incluiu também uma sociedade com outro florista, o também conceituado Ronaldo Maia”, ela reconhece e agradece até hoje.
O sucesso da Verde que te quero Verde foi tanto que ter uma festa assinada por Denise Magalhães se tornou sinônimo de sucesso, porque ela continua fazendo diferente e realizando sonhos, seja em noite de grande evento ou para um petit comitê.
Chegou um momento, porém, que ela sentiu necessidade de crescer, estudar e unir a profissão de florista à arte da cenografia. Ela adubou e regou os seus sonhos. Saiu do Brasil, foi para os Estados Unidos e Japão em busca de conhecimento, pois os arranjos pediam uma construção, exigiam um ambiente cenográfico.
A contragosto, Denise Magalhães revela que faz de 90 a 95 eventos anuais. “Números rotulam”, repete ela, pois persegue “sonhos e a vontade de realizar os desejos das pessoas”. Quem tem o privilégio de conhecer Denise Magalhães, que nasceu sob o signo de Libra, sabe que, por natureza, ela é uma amante das flores. “Acho injusto quando alguém diz que não gosta de uma determinada flor, por exemplo, cravos e crisântemos. Toda flor tem a sua beleza e função.” Mas ela também tem as suas preferidas. “O perfume das angélicas me leva ao paraíso. E particularmente gosto de ranúnculos, que parecem rosas e florescem em agosto e setembro, numa profusão de cores.”
Denise Magalhães teve sua única filha aos 16 anos. Roberta, de 44, vive hoje nos Estados Unidos importando móveis com design brasileiro e o bom do artesanato. Reconhece que respeitar a natureza é uma questão de educação. “A gente era criança quando minha irmã arrancou um girassol do jardim. Minha mãe a colocou segurando a flor por um bom tempo, para dizer que ninguém pode destruir o que não fez.” A lição serviu para sempre. “Mesmo com essa febre ecológica, hoje a gente vê o planeta se danar, porque tem que aprender é de pequeno.”
Cita crianças e adolescentes que não querem nem saber de bichos, árvores e plantas e preferem “ir para Disney”. Mas faz questão de ilustrar o caso do filho de um amigo, de seis anos, que fez essa viagem e depois surpreendeu os adultos ao dizer que a “fazenda do avô era muito melhor”.
É o que tenta ensinar ao seu neto, Nico, também de seis anos, com programas junto à natureza, passeios em fazendas antigas para pescar, caminhar e ver os bichos, árvores, flores e plantas. “Não tem outra forma de educar. É dar o exemplo”, completa Denise.
Fonte: Revista Ecológico
