Sapatos ‘baixados’ pela internet, anel que paga conta: as novidades no mundo dos ‘wearables’
Babados ou plissados, salto alto ou rasteirinha, saia curta ou comprida? Numa era em que os gadgets eletrônicos superam, de longe, o desejo da geração millennial por bolsas e roupas de grife, essas discussões parecem tão fora de moda quanto um vestido da coleção passada. Não por acaso, antes de seu último desfile recentemente em Paris, a sesquicentenária grife francesa Louis Vuitton projetou num telão de LED um filme em que um modelo disparava raios e se movimentava num cenário high-tech usando um óculos de realidade virtual do videogame Minecraft, nova febre entre os jovens.

No dia anterior, a igualmente lendária Chanel colocou na passarela um chinelo com microlâmpadas que ajudam as clientes a caminhar sem tropeços pela escuridão. Embora se trate ainda de um movimento tímido, as marcas de luxo vêm abrindo espaço para aquela que promete ser a mais profunda transformação na moda desde que a inglesa Mary Quant inventou a minissaia para a revolução jovem de costumes dos anos 1960: a tecnologia vestível, conhecida pela sigla WT, do inglês wearable technology.

No dia 4 de novembro, São Paulo abrigará o primeiro seminário sobre o tema no Centro Universitário Belas Artes, o Wearable Festival. Sob a curadoria da jornalista Alexandra Farah, maior especialista no Brasil sobre a relação entre WTs e moda, a rodada de palestras contará, entre tantos participantes, com a estilista israelense Danit Peleg, que lançou no final do ano passado a primeira coleção de roupas inteiramente fabricadas na impressora 3-D de sua casa, e a peruana Katia Vega, que criou recursos como extensões capilares que atendem e desligam telefones e gravam conversas e cílios postiços que monitoram a casa, acendendo a luz e abrindo portas, úteis para portadores de deficiência motora.

“Comecei a me interessar pelo tema em Nova York no ano passado, quando, em plena semana de moda, o assunto que pautou as primeiras páginas dos jornais não foram as passarelas, mas o lançamento do Apple Watch”, diz Farah. “Embora seja o maior ícone dos WTs de massa hoje, ele já nasceu antigo, porque pensa no relógio da maneira clássica, com toda a inteligência concentrada no visor. No futuro breve, a pulseira inteira vai conversar com o corpo do usuário”.

A marca inglesa de sapatos United Nude, do arquiteto Rem D. Koolhaas, sobrinho e homônimo do lendário arquiteto, e do designer Galahad Clark, é uma das pioneiras em WTs. Nos últimos dois anos, seu ateliê vem investindo na pesquisa para desenvolver sapatos que possam ser ‘baixados’ no computador doméstico das clientes para serem produzidos em impressoras 3-D caseiras. Assim, um modelo único assinado pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid ou pela estilista Iris van Herpen poderá ser impresso em casa, em nylon e borracha. Hoje, existe um sapato da marca que pode ser baixado em seu site por US$ 35. “Estamos entrando num mundo em que produziremos quase tudo o que consumirmos. A moda não está mudando, mas o processo de produção, sim”, afirma Farah. “Todos os consumidores vão poder inventar e fabricar suas roupas e acessórios em casa, e pagarão pelo design dos estilistas que lhe agradam, não necessariamente pelo produto industrializado em si. É mais ou menos o que aconteceu na música nos últimos anos. Você não compra mais o CD do artista, mas a música dele, que está na nuvem”.

Os primeiros WTs de massa são as pulseiras de performance atlética que medem passos e frequência cardíaca. A nova geração dessas pulseiras já registra até o desempenho do sono e o nível de calorias e açúcar consumidos num dia, para controle de obesidade e diabetes. “Mas elas não tinham um atrativo, digamos, fashion, eram esteticamente desinteressantes”, diz o administrador suíço radicado no Brasil Immo Oliver Paul, dono da Carenet, empresa que desenvolve softwares para WTs. Segundo a Euromonitor, no ano passado, foram vendidos apenas 1.000 WTs no Brasil. “Agora existe uma preocupação com o estilo, e essas funções vão estar integradas às roupas”.
O Metropolitan Museum de Nova York, não por acaso, acaba de anunciar que a exposição de moda que todos os anos acontece no Anna Wintour Costume Institute Center será Manus x Machina: Fashion in the Age of Technology, com vários exemplos de peças de roupas que refletem a influência da tecnologia na indústria têxtil. Mas a mostra, que abrirá as portas no dia 2 de maio, quer também lançar o debate: até onde a máquina consegue superar a habilidade artesanal humana? E seria o luxo uma competência ainda exclusiva das marcas de luxo que só recorrem aos trabalhos manuais tradicionais de seus ateliês?

Aos poucos, os estilistas das marcas de luxo vêm descobrindo que a tecnologia não necessariamente atropelará sua histórica manufatura tradicional, ao passo que os executivos do Vale do Silício também notaram que o fascínio pelo mundo fashion pode ser um aliado, e não apenas uma frescura, no embelezamento de seus gadgets. É o caso da recém-anunciada parceria entre a Apple com a icônica grife francesa Hermès em novos modelos do Apple Watch. A novidade foi celebrada com um jantar na última semana de moda de Paris reunindo Jony Ive, diretor criativo da empresa americana, e Pierre Alexis Dumas, tataraneto do fundador da Hermès, marca de 1837 conhecida pela excelência artesanal de seus produtos. Dumas nega qualquer inconveniente em ter seu nome ligado a uma companhia high-tech. “Nosso mundo muda todos os dias, e, na Hermès, temos a filosofia de mudá-lo para melhor. Meu papel é definir como, através daquilo que sabemos e dominamos, poderemos transformar o ordinário em extraordinário”, diz ele. “Temos muitos clientes que são também consumidores da Apple, e devemos atendê-los”.

Na semana passada, chegaram às lojas brasileiras da marca italiana Ermenegildo Zegna duas jaquetas equipadas com um painel gerador de calor integrado, alimentado por um sistema de carregamento por até 13 horas sem fio, que permite que elas aqueçam de 0 a 26 graus em 30 segundos. Os modelos custam entre R$ 6.365 e R$ 8.190, dependendo do tipo de lã costurada à mão. A Ralph Lauren criou um modelo de sua famosa bolsa Ricky Bag com lâmpadas de LED que iluminam seu interior, e entrada USB que carrega os celulares das clientes enquanto eles estão guardados. O estilista Michael Kors anunciou que está desenvolvendo um tubo de batom e um pote de pó compacto que vão servir também de carregadores de bateria para smartphones.

A marca Opening Ceremony criou a pulseira MICA, com joias semipreciosas, que recebe mensagens de texto; e a Visa lançou na semana de moda de Londres, em parceria com a grife House of Holland, anéis em formato de insetos coloridos que funcionam como cartão de crédito. Nos ateliês de outras marcas, estão sendo desenvolvidas joias que telefonam, via GPS, para um número de emergência em caso de pânico ou ameaça. A Google vem desenvolvendo com a grife de jeans Levi’s o Projeto Jacquard, que mistura cabos condutores de energia com as fibras têxteis, mantendo a cor e a textura dos tecidos e os transformando em receptores quando o usuário estiver pressionando uma área da roupa. Assim, ele poderá, por exemplo, atender o celular na calça jeans.

Na última semana, durante o principal evento de moda de Tóquio, o estilista Kunihiko Morinaga apresentou um vestido branco que, iluminado pelo flash de um celular, revela-se uma peça totalmente colorida. “A única maneira de se ver a coleção dele na passarela era iluminando-a com os iPhones”, disse a jornalista inglesa Suzy Menkes, presente à apresentação. “É justamente o oposto do que acontece numa apresentação comum, em que os estilistas detestam o pipocar dos flashes”.

A grande aposta do mundo dos WTs no ano que vem é o produto, guardado a sete chaves, que o Facebook vai lançar para jogos de realidade virtual, o Oculus Rist. Ele deve, inclusive, ser usado também para tarefas do dia a dia e acessar a Internet. “O grande desafio dos WTs é ético. As pessoas não vão aceitar ser filmadas ou gravadas quando não querem. Foram essas questões que causaram o fracasso, por exemplo, do óculos da Google”, afirma Alexandra Farah. Mas o movimento é irreversível. Mais do que listras, babados, bordados, as roupas terão que trazer algo ainda mais útil do que status ou proteção do frio ou da nudez para os consumidores. Elas terão que conectá-los.
