Um eixo e uma asa: uma história de cor verde, limpa

FOTO RUI DUARTE SILVA
Procurar soluções para um desenvolvimento sustentável é o objetivo de cada vez mais empresas portuguesas. É o caso da Omniflow, com sede no Porto, que fabrica sistemas inovadores que aproveitam a energia eólica e fotovoltaica. Em 2013, as energias renováveis representaram 25,7% do consumo energético em Portugal, segundo o Eurostat. Este é o 24.º artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está a publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições
Ter sucesso nem sempre significa alcançar logo o primeiro lugar do pódio. Foi o caso de Pedro Ruão Cunha. “Sempre gostei de inovar e pensar em soluções. Nunca desisti”, diz o engenheiro de 36 anos. Quatro anos depois de se ter formado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Faculdade de Engenharia na Universidade do Porto, viu o anúncio do Prémio Inovação EDP Richard Branson – que visa distinguir projetos empresariais inovadores na área das energias limpas – e não teve dúvidas em participar. Apesar de não ter vencido, o seu projeto ficou entre os finalistas.
Nascia assim o Omniflow, um produto que consiste numa turbina eólica de eixo invertido e com asa invertida omnidirecional que produz energia a partir de duas fontes de energia renováveis: vento e sol.
“É um conceito bastante diferente. Integra duas fontes de energia: o sol e o vento, garantindo por isso um desempenho constante tanto no verão, como no inverno”, explica Pedro Ruão Cunha.
A tecnologia integrada do produto permite que seja utilizado no meio urbano, uma vez que tem uma emissão reduzida de ruído e um difusor que elimina as sombras em movimento, transmitindo uma sensação de maior segurança.
A partir do protótipo inicial, o projeto Omniflow – que veio a dar nome à empresa – foi sempre evoluindo. Em 2011, o projeto conseguiu financiamento, no valor de 230 mil euros, através da Cotec Portugal, tendo chegado ao mercado em 2013. Atualmente o produto também já é vendido lá fora.
“Entre 2013 e 2014, o nosso alvo eram sobretudo habitações e o mercado estrangeiro representou apenas 8%. Este ano estamos mais virados para aplicações comerciais. Hoje em dia, o nosso foco é o mercado externo. Temos unidades na Alemanha, Brasil, Marrocos, França, Guiné e EUA. Esperamos alcançar pelo menos 50% da nossa faturação lá fora”, diz o engenheiro.
Defendendo que a aposta em energias limpas é o futuro do desenvolvimento sustentável, Pedro Ruão Cunha diz acreditar que o investimento no sector das renováveis em Portugal dificilmente terá um retrocesso.
“Cada vez mais empresas nacionais procuram soluções para um desenvolvimento mais sustentável. Sem dúvida que estamos num caminho quase impossível de ter volta”, sustentou.
De acordo com o Eurostat, as energias renováveis em Portugal subiram de 25% em 2012 para 25,7% em 2013, devendo as metas futuras serem atingidas.
Maior consciência ambiental
“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Para António Sá da Costa, presidente da Associação de Energias Renováveis (APREN), esta frase de Charles Darwin sintetiza bem a evolução das energias renováveis a nível global e nomeadamente em Portugal.
“O que se está a passar a nível mundial e em Portugal não é exceção. Os consumidores perceberam que é preciso que alterar o consumo e investir em energias limpas, face às alterações climáticas”.
Segundo o responsável, o cenário do sector das renováveis de hoje em dia baseia-se em decisões tomadas há 10 ou 15 anos, sendo um imperativo dos mais recentes governos, em linha com a tendência internacional.
“No ano passado, reduzimos a nossa independência energética na parte da eletricidade de 85% para cerca de de 75%. Poupamos a partir das fontes renováveis mais de 1500 milhões de euros de importação de carvão e gás natural”, frisa António Sá Costa.
O presidente da APREN diz acreditar que a meta assumida por Portugal perante Bruxelas é perfeitamente alcançável até 2020. “O objetivo é conseguirmos 60% de energia a partir de fontes renováveis”. O importante, defende António Sá Costa, é continuar a apostar em soluções no âmbito das energias limpas e “parece ser esse o propósito do programa de governo dos dois principais partidos que vão a eleições”.
Pela negativa, lamenta apenas o facto de não haver na sua opinião fomento da utilização do sol para aquecer as águas sanitárias e o recurso à biomassa florestal para aquecer o ambiente.

FOTO Rui Duarte Silva
Partindo sempre da ideia de aliar a energia fotovoltaica à eólica, a Omniflow, participada da Portugal Ventures, criou também um sistema de iluminação inteligente em 2014. A Omni Led, que só começou a ser comercializada este ano, permite que a luz seja direcionada para um local específico e possui um dispositivo encaixado no mastro que permite instalar um sistema integrado de wi-fi ou câmaras de segurança. Neste momento, a empresa está a criar amostras e a distribui-las por empresas de vários países.
“Este produto apresenta ainda maior potencial sobretudo para cidades, como por exemplo: companhias de telecomunicações, resorts, parques de estacionamento e câmaras municipais”, adianta Pedro Ruão Cunha.
DR
Torres Vedras torna-se autosustentável
Para quem circula pela A8 – entre Lisboa e Torres Vedras (ou vice-versa) – as torres eólicas que se erguem entre os montes dificilmente passam despercebidas na paisagem. O concelho torriense tem instalados nove parques eólicos, com uma capacidade instalada de 116 megawatts, e continua a investir noutras energias limpas como a fotovoltaica.
Esta aposta tem dados frutos. No final de 2014, Torres Vedras tornou-se autossustentável em termos energéticos, graças às renováveis .
“Há cerca de 13 anos instalámos o primeiro aerogerador, hoje somos autosuficientes em termos energéticos – a nível habitacional e industrial -, devido às fontes renováveis. A componente solar veio também alavancar as metas nomeadamente o plano de sustentabilidade”, afirma Carlos Bernardes, vereador de Obras Municipais, Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Municipal de Torres Vedras.
São vários os projetos ambientais promovidos pela autarquia neste âmbito, que lhe valeram no passado mês de junho a atrbuição do Prémio ‘European Green Leaf’, uma iniciativa da Comissão Europeia que procura galardoar os municípios que executam políticas positivas a nível ambiental.
O EcoUrbe, que foi instalado durante este verão na praia de Santa Cruz, oferece iluminação solar e mobiliário urbano autossustentável, como abrigos de passageiros, sistema de cobertura e painéis informativos. Além disso, a Câmara dá também incentivos aos municípes para aderirem à microgeração e aos veículos elétricos. Há também uma preocupação por parte da autarquia em incutir nos mais jovens as preocupações ecológicas. O Centro de Educação Ambiental, situado no Parque Verde da Várzea, foi construído com esse objetivo e recebe alunos de várias escolas durante todo o ano.
DR
“Esta nova consciência face às energias renováveis faz-me lembrar o que aconteceu há 20 anos com a água, quando as pessoas percebaram que o recurso não era infinito. Mas mais vale tarde do que nunca”, defende António Sá Costa.
O presidente da APREN refere que para Portugal prosseguir o caminho de crescimento do sector é preciso manter e reforçar as medidas já adotadas, e os investimentos. “O ponto de partida é interessante, mas há coisas para fazer e arestas para limar. É vital sobretudo mais estabilidade e regulação”.
“Trabalhadores do sector são Ronaldos e Mourinhos”
António Sá Costa destaca o potencial de criação de emprego do sector, citando um estudo da consultora Deloitte, que dava conta de 40.727 postos de trabalho em 2013. Em 2020, o relatório prevê que os empregos associados às renováveis deverão subir para 58 mil e em 2030 para cerca de de 70 mil.
“A nossa contribuição para o PIB em 2013 era de 2.700 milhões de euros, em 2020 espera-se que atinja os 3.800 milhõees de euros, enquanto em 2030 deverá alcançar mais de 5.400 milhões de euros”, realça o presidente da APREN.
Portugal já está a exprtar mais de 300 milhões de euros em equipamentos eólicos – turbinas, pás ou torres – sobretudo nas fábricas de grupos estrangeitos em Viana do Castelo e em Vagos.
“Os técnicos alemães vêm cá estagiar para melhorar a sua performance, e um dos grupos veio buscar 60 trabalhadores às duas fábricas para levar para a Alemanha. Ou seja, tiveram que vir buscar os Cristianos Ronaldos e Mourinhos de cá. Isso só mostra que temos mão-de-obra especializada e com muita qualidade. Não podemos também deixar de nos orgulhar nisso.”
Fonte: Expresso
