Gôndolas de Veneza
Em 12 de setembro de 1846 os poetas ingleses Elizabeth Barrow e Robert Browning fugiram, deixando Londres e o tirânico pai de Elizabeth, que a proibia de se casar. Para onde vai um casal jovem, apaixonado e em fuga? No caso dos nossos poetas, Itália. Eles foram primeiro para Pisa, depois para um pequeno apartamento boêmio em Florença, e finalmente, Asolo, cidade perto de Veneza. Lá Robert Browning escreveu o poema “Numa Gôndola”, que fala sobre o beijo.

© Niko Guido/istockphoto
Gôndola com passageiros no Grande Canal de Veneza
Browning não foi o primeiro nem o último a sonhar com beijos em sua amada a bordo de uma gôndola. Desde que a nobreza começou a flutuar pelos canais da cidade, na Renascença, a gôndola se tornou um símbolo de Veneza e do romance intimamente ligado à cidade. O caso de amor dos escritores do século 19 George Sand e Alfred de Musset se desenrolou em Veneza; há até o registro de uma briga de namorados que incluiu um passeio de gôndola na hora de fazer as pazes. Também a atriz Eleonora Duse e o poeta e dramaturgo Gabriele d’Annunzio tiveram seu caso em Veneza, no fim do século 19. E Veneza foi o cenário do primeiro encontro da famosa soprano grega Maria Callas com Aristóteles Onassis, que se tornaria seu marido. Callas chegou charmosamente atrasada, a bordo de uma gôndola, ao Palazzo Castelbarco. [fonte: Edwards].
Gôndolas são a última palavra em termos de romance. Para ter papel nesse romance, ou pelo menos ser capaz de discutir o tema apropriadamente, você precisa conhecer a cultura da gôndola. Como e quando ela surgiu?
A história das gôndolas
A arquitetura cosmopolita e ornamentada de Veneza se espalha sobre 117 pequenas ilhas localizadas numa lagoa de água salgada no nordeste da Itália – bem onde o “tornozelo” da Itália (o país tem a forma de uma bota), atinge o mar Adriático. Cruzadas saíram de Veneza nos séculos 11, 12 e 13, e a cidade foi ponto de entrada na Europa de especiarias e seda trazidas do Oriente.
A história de Veneza se confunde com a história de suas águas. A cidade é construída sobre o oceano, e não em seu litoral. A água flui por Veneza, em vez de em volta dela. E em vez de táxis, Veneza tem as gôndolas.

Hanquan Chen/istockphoto
Gôndolas atracadas em Veneza
No final do século 15 e início do século 16 os pintores Gentile Bellini, Vittore Carpaccio e Giovani Mansuetti retrataram gôndolas muito semelhantes às atuais. E no final da Renascença italiana, no século 17, cerca de 9.000 gôndolas singravam pelos canais da cidade, levando seus abastados passageiros em seus afazeres.
Em 1633 o governo de Veneza achou que a extravagância tinha passado do limite e promulgou uma lei suntuária, determinando que todas as gôndolas deveriam ser pretas. Todas menos as pertencentes ao governo. Graças à isenção, elas se destacavam no meio dos barcos privados.
As gôndolas pós-renascentistas eram otimizadas para viagens, com uma cabine baixa para passageiros, chamada de felze, protegendo das intempéries. No século 20, com o turismo prevalecendo sobre o transporte no uso das gôndolas, o felze deu lugar a um toldo – e nos anos 60 do século 20 passou a predominar o barco aberto de hoje, feito para facilitar a visão da paisagem pelos turistas, em vez de dar privacidade aos nobres em trânsito.
Há cerca de 400 gondoleiros licenciados em Veneza, prontos para levar turistas ao passeio de suas vidas.
Anatomia de uma gôndola
A construção de uma gôndola, estabelecida por centenas de anos de tradição, é regulamentada por lei.
A forma da gôndola leva em conta a funcionalidade. Seu fundo chato permite que a gôndola deslize sobre canais com poucos centímetros de profundidade, e o uso de um remo (não uma vara) possibilita aos gondoleiros impelir o barco nas águas mais profundas. Infelizmente, o formato tradicional, chato, do fundo, torna a gôndola um tanto instável. As gôndolas – e seus passageiros – sofrem com a esteira deixada por modernos barcos a motor nas águas do Grande Canal, que cruza Veneza de norte a sul, passando pelo seu centro. Por mais experiente que seja o gondoleiro, o passeio pode ser um tanto cheio de solavancos.

Chega a 20.000 euros (quase R$ 50.000,00 em outubro de 2011) o preço de uma gôndola nova. A complexidade da construção ajuda a explicar o preço. Segundo os artesãos do estaleiro Domenico Tramontin e Figli, a gôndola tradicionalmente é feita com 8 tipos de madeira. Nas laterais, o sólido carvalho. Leve, o abeto é usado no fundo do barco. Maleável, a cerejeira vai nos bancos. Pela resistência à água, lariço. Na estrutura, nogueira, que é flexível. Para reforço, tília. O acabamento é feito em mogno, e o olmo vai moldado à nogueira [fonte: Tramontingondole.it]. Essas 8 madeiras compõem as 280 partes intertravantes conectadas como um modelo de armar na hora de montar uma gôndola.
Há apenas duas partes de metal. Uma delas, chamada ferro, é a peça curva de metal na proa (frente) da gôndola. Ela funciona como contrapeso ao gondoleiro, que rema da popa (traseira) do barco. O ferro também protege a proa, evitando que a madeira seja lascada. A outra peça metálica, o risso, é decorativa e tem forma inspirada no cavalo-marinho. Fica na popa, perto do gondoleiro.
As gôndolas são assimétricas, com o bombordo (esquerda do barco, olhando da popa para a proa) 23 cm mais largo que o estibordo. A lateral do casco também é ligeiramente mais alta a bombordo [fonte: Britannica]. Essa assimetria compensa o peso do gondoleiro, que fica a estibordo enquanto conduz o barco.
Também tem função importante a forcola (cavilha do remo). Ela não segue o padrão tradicional, de uma forquilha. Instalada na popa, perto do gondoleiro, ela parece um bumeranque estilizado e é feita de nogueira. A peça é entalhada, formando vários locais para apoiar o remo – cada encaixe é usado numa situação diferente durante a condução da gôndola, como veremos na próxima página.
O projeto da gôndola é de extrema eficiência. Um estudo feito na Itália mostra que a energia empregada por um gondoleiro para remar a gôndola com dois passageiros é equivalente à energia gasta por uma pessoa andando à mesma velocidade.
Gondoleiros venezianos
Pela proximidade constante com os nobres que usavam seus barcos, os gondoleiros de Veneza sabiam – é o que se diz – absolutamente tudo o que se passava na cidade antiga – em especial os casos escusos, frequentes durante os passeios capazes de inspirar romances.
Depois da lei suntuária de 1633 os gondoleiros passaram a usar roupas pretas, combinando com as gôndolas pretas. Depois da Segunda Guerra os gondoleiros começaram a vestir as camisas listradas, sua marca registrada. Os gondoleiros precisam ter a licença emitida por uma guilda, que submete os candidatos a uma avaliação abrangente e rígida. Só 3 ou 4 novas licenças são emitidas por ano, e tradicionalmente cabem aos filhos de gondoleiros – os pais trabalham até que seus filhos consigam passar no exame. As mulheres tentaram por muito tempo, até que em 2010 a primeira delas conseguiu da guilda a licença de gondoleira veneziana. A tradição das famílias gondoleiras é tão forte que a profissão criou seu próprio dialeto, que mistura italiano, espanhol e árabe e ainda é falado por muitos gondoleiros [fonte: UNESCO].
Turistas sonham com gondoleiros cantando durante o passeio, mas isso nem sempre acontece. Gene Openshaw, redator especializado em turismo, conta que sua mãe, ao pedir que um gondoleiro cantasse, ouviu esta resposta: “Senhora, há os amantes e os cantores. Eu não canto.” [fonte: RickSteves.com]. Para ter trilha sonora, você terá que contratar um cantor, geralmente acompanhado por um acordeonista.
O gondoleiro fica a estibordo na popa enquanto rema e dirige o barco usando um longo remo apoiado na forcola. Dependendo da manobra o gondoleiro posiciona o remo na parte baixa da forcola, quase na borda do casco (para por o barco em movimento), no entalhe mais alto (para a condução normal), no cotovelo da forcola (para ir para trás) ou apoia o remo no corpo da forcola para fazer a gôndola parar.
Barcos com um remo só tendem a se mover em círculos, mas a forma assimétrica da gôndola ajuda a mantê-la em linha reta. E o gondoleiro evita desvios, finalizando cada remada com um movimento do remo em forma de “J” ou de “C”.
Gôndolas e turismo
São os turistas os maiores usuários atuais das gôndolas, mas ocasionalmente elas também são usadas para outras finalidades, como casamentos, funerais e até corridas. A gôndola é um barco para ocasiões especiais, em grande parte porque é caro usá-las. Passeios de 40 minutos custam cerca de 80 euros (R$ 200, em outubro de 2011), sem vinho como brinde – mas normalmente há taças disponíveis a bordo. Vale a pena pechinchar [fonte: CapisaniHotel.it].
O preço é alto demais? Os turistas pagam; como ir a Veneza e perder um passeio de gôndola?
É fácil tomar uma gôndola. Da mesma forma que os táxis, elas esperam por corridas na maioria dos locais turísticos. Alguns gondoleiros oferecem visitas guiadas por locais históricos, enquanto outros levam a passeios silenciosos. O principal na hora de reservar a gôndola é negociar antes de embarcar o passeio e seu preço. Para não ter que pechinchar – e conseguir um gondoleiro que seja bom guia – vale a pena pedir a ajuda do hotel ou de uma agência especializada.
Turistas inexperientes acabam ficando em passeios chacoalhantes pelo apinhado Grande Canal. Os visitantes mais tarimbados optam por passeios pelos estreitos canais que zigueagueiam por Veneza.
Perto de 15 milhões de turistas vão a Veneza por ano, a maioria no verão [fonte: BBC]. Se for para lá na alta temporada, reserve a gôndola com antecedência ou se prepare para disputar uma. Na baixa temporada, pechinche. Não há roupa certa para andar de gôndola, mas recomenda-se não ir de salto alto – especialmente se você for homem.
Fonte: Howstuffworks
