DNA de borboleta de 93 anos confirma 1ª espécie extinta por humanos nos EUA

Amostra de borboleta azul Xerce coletada em 1928 ajudou pesquisadores a comprovar que ela era uma espécie própria — e não uma subpopulação de outra borboleta

 Considerada um ícone da conversação dos insetos, a borboleta azul Xerce foi extinta no início dos anos 1940 em função do desenvolvimento urbano na região de São Francisco, nos Estados Unidos (Foto: Field Museum)Considerada um ícone da conversação dos insetos, a borboleta azul Xerce foi extinta no início dos anos 1940 em função do desenvolvimento urbano na região de São Francisco, nos Estados Unidos (Foto: Field Museum)

Durante anos, uma dúvida pairou acerca da origem da extinta borboleta azul Xerce, que até o início dos anos 1940 sobrevoava com suas asas finas e iridescentes a região de São Francisco, nos Estados Unidos: teria sido ela uma espécie própria ou uma subpopulação de outra borboleta, a azul prateado, que ainda vive no Oeste norte-americano? Responder a essa pergunta era especialmente importante porque, desde sua extinção, o animal é tido como o primeiro inseto apagado pela ação humana na América do Norte.

Mas, em 2021, um pedaço minúsculo de seu abdômen, coletado em 1928 e encontrado nas coleções antigas do Field Museum, em Chicago, foi o suficiente para que pesquisadores finalmente solucionassem o caso: a partir da extração do DNA remanescente da borboleta de 93 anos, o grupo atestou que ela foi, de fato, uma espécie própria — e, portanto, a primeira a ser extinguida pelo homem. Os resultados foram publicados no periódico científico Biology Letters na última quarta-feira (21).

“Dar os primeiros passos e arrancar parte do abdômen [da borboleta de 93 anos] foi muito estressante, mas também foi meio estimulante saber que poderíamos ser capazes de responder a uma pergunta que está sem resposta há quase 100 anos e que não podia ser respondida por nenhum outro caminho”, avalia, em comunicado, Corrie Moreau, diretora da Coleção de Insetos da Universidade de Cornell e pesquisadora no Field Museum.

Para chegar à conclusão, os cientistas precisaram usar uma pinça que “beliscou” um pequeno fragmento do abdômen do inseto ancestral. Em seguida, o material foi levado para análise no Laboratório de DNA Pritzker, no Field Museum. Ali, a amostra foi tratada com produtos químicos que permitiram ao grupo isolar os remanescentes do código genético da borboleta. Isso porque, explica Moreau, o DNA é capaz de sobreviver por muito tempo após a morte das células em que está armazenado.

Mas a molécula ainda pode se degradar com o tempo. Por isso, o método adotado pelo estudo consistiu em comparar vários segmentos do código e, assim, indicar como seria a sua versão original. “É como se você fizesse um monte de estruturas idênticas de Legos e depois as largasse. As estruturas individuais seriam quebradas, mas se você olhar para todas elas juntas, poderá descobrir a forma da estrutura original”, resume Moreau.

Os cientistas precisaram usar uma pinça que “beliscou” um pequeno fragmento do abdômen do inseto ancestral. Em seguida, o material foi levado para análise no Laboratório de DNA Pritzker, no Field Museum, onde o material genético ancestral da invertebrada foi extraído (Foto: Field Museum)

Os cientistas precisaram usar uma pinça que “beliscou” um pequeno fragmento do abdômen do inseto ancestral. Em seguida, o material foi levado para análise no Laboratório de DNA Pritzker, no Field Museum, onde o material genético ancestral da invertebrada foi extraído (Foto: Field Museum)

Ao comparar o DNA da borboleta azul Xerces e o da azul prateada, os pesquisadores constaram que, embora as duas apresentem traços semelhantes, seus códigos genéticos são distintos, o que significa que elas são espécies separadas. A descoberta só foi possível devido às coleções de insetos mantidas pelo Field Museum, o que, segundo o estudo, destaca a importância da preservação dessas amostras em museus.

Mas, para Moreau, o principal alerta por trás da pesquisa é outro: a importância da conservação dos insetos. A extinção da azul Xerces, considerada um ícone da manutenção desses animais, é creditada ao desenvolvimento urbano na região de São Francisco. Uma das razões atribuídas ao seu apagamento foi o desmatamento da vegetação pertencente aos gêneros Lotus e Lupinus, cardápio dessas invertebradas durante a fase larval.

“Estamos no meio do que está sendo chamado de apocalipse dos insetos – declínios massivos de insetos estão sendo detectados em todo o mundo”, observa a pesquisadora. “E, embora nem todos os insetos sejam tão carismáticos quanto a borboleta azul Xerces, eles têm enormes implicações no funcionamento dos ecossistemas. Muitos insetos estão realmente na base do que mantém muitos desses ecossistemas saudáveis. Eles arejam o solo, o que permite que as plantas cresçam, que então alimentam os herbívoros que, por sua vez, alimentam os carnívoros. Cada perda de um inseto tem um efeito cascata massivo nos ecossistemas.”

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