“A caverna é muito dependente do seu entorno; a maior parte do alimento vem de fora dela”, explica Maria Elina. Se as florestas que os morcegos utilizam para se alimentar são derrubadas, e os morcegos desaparecerem, por exemplo, todos os organismos que dependem da matéria orgânica que eles trazem para dentro da caverna morrerão de fome.
“Você pode extinguir uma espécie cavernícola sem nem encostar na caverna”, sentencia Ferreira. Ou, quem sabe, com o tal do autolicenciamento, ignorar a existência ou até soterrar cavernas inteiras, sem as devidas precauções. “Flexibilizar o licenciamento é liberar a destruição de cavernas que nem tivemos a chance de conhecer”, alerta Cruz Junior. Remetendo à sua fala anterior, seria como transformar o “mundo invisível” num fantasma.
Diversidade geológica
Como é possível haver tantas cavernas desconhecidas — ou não cadastradas — no Brasil? A estimativa de 300 mil cavernas possíveis no País é dos pesquisadores Jocy Brandão Cruz e Luís Piló, no guia Espeleologia e Licenciamento Ambiental, publicado em 2019 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ela leva em conta a extensão das formações geológicas em que predominam rochas solúveis, propícias à formação de cavernas — chamadas de paisagens cársticas, ou simplesmente carste —, e faz uma extrapolação, com base no número de cavernas já conhecidas para cada tipo de relevo.
“Parece seguro afirmar que, hoje, menos de 5% das cavernas existentes tenham sido identificadas”, escrevem Piló e o espeleólogo Augusto Auler no Capítulo 1 do guia. “Nosso potencial espeleológico situa-se seguramente na faixa de algumas centenas de milhares de cavernas. Apenas a título comparativo, em países mais desenvolvidos na identificação e exploração de cavernas, como Itália e França, com áreas equivalentes ao Estado de Minas Gerais, cerca de 40 mil cavernas são conhecidas. A ausência de pesquisa, o pequeno número de espeleólogos, as dificuldades de acesso, dentre outros motivos, justificam o reduzido conhecimento que ainda temos do potencial espeleológico brasileiro.”
É perfeitamente possível, segundo os espeleólogos, que haja cavernas imensas escondidas por aí no subterrâneo brasileiro, esperando para serem descobertas. Grandes cavernas não têm necessariamente grandes portais; elas podem ter entradas singelas ou camufladas em áreas de difícil acesso. Só mesmo se aventurando dentro delas para saber. Son Doong, a maior caverna do mundo em volume (com 38,5 milhões de metros cúbicos), no Vietnã, só foi descoberta por pesquisadores em 2009, por exemplo. A maior caverna do Brasil é a Toca da Boa Vista, em Campo Formoso, no sertão da Bahia, com 114 km de galerias mapeadas, e sua verdadeira extensão só começou a ser iluminada cientificamente no fim dos anos 1980 — apesar de a sua entrada já ser conhecida pela população local há bastante tempo.
A diversidade biológica não é a única coisa que chama a atenção nas cavernas brasileiras. Existe, também, uma incrível diversidade geológica a ser admirada e estudada. As mais comuns são as cavernas em calcário, que é uma rocha abundante e altamente solúvel em água; mas há também cavernas formadas em vários outros tipos de rochas, como quartzito e arenito, cada uma com características próprias. Uma peculiaridade do Brasil, que emergiu nos últimos anos, é o grande número de cavernas de ferro — principalmente na região de Carajás (PA), que é a maior produtora de minério de ferro do País.
Preservados nessas rochas estão milhares de anos de história da geologia e do clima dessas regiões, que os cientistas conseguem “ler” por meio dos elementos químicos que são depositados pela água no processo de formação dos espeleotemas (estalactites e estalagmites). São testemunhos de rocha que guardam informações sobre como eram o clima e o ambiente ao redor dessas cavernas no momento em que foram formados, tal qual os testemunhos de gelo extraídos de geleiras. “Cada estalagmite é um patrimônio natural de informações do passado”, afirma Cruz Junior, especialista no assunto. Informações que, segundo ele, são essenciais para entender o que pode acontecer no futuro.
O mesmo vale para os vestígios fósseis e arqueológicos, comumente preservados em cavernas — já que elas, historicamente, sempre foram um local de abrigo para seres humanos e outros animais. A Serra da Capivara, no Piauí, por exemplo, abriga alguns dos vestígios mais antigos de ocupação humana nas Américas; assim como as cavernas da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, onde viveu o chamado “povo de Luzia”.
“Temos um baita patrimônio espeleológico no Brasil”, diz o explorador, fotógrafo e divulgador científico de cavernas Daniel Menin, cujas imagens ilustram esta reportagem. Um mundo invisível, que precisa se tornar visível para ser preservado.
Correção (19/07/21): A citação retirada do Capítulo 1 do guia “Espeleologia e Licenciamento Ambiental” é de autoria de Luís Piló e Augusto Auler; não Piló e Brandão, como citado originalmente.

