Métricas e rimas alternadas, porque uma declaração que se preze se faz pela poesia. Uma estrofe e sete versos, porque basta uma simples mensagem para encantar. Uma ilustração bem detalhada, porque é necessário dar forma ao conteúdo. E o foco no destino da homenagem, porque foi ela que deu sentido a tudo.
A “fórmula” acima parece até uma receita de declaração de amor. E é. No desafio de homenagear àquela que transformou a vida de três amantes do meio ambiente a resposta veio através do cordel. Há pelo um ano, os engenheiros agrônomos Alípio Leão e Emanuel Barreto e o biólogo Cristiano Nascimento uniram habilidades para homenagear a natureza em rimas, estrofes e desenhos.
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Beija-flor-tesoura, um dos mais conhecidos beija-flores do Brasil, recebeu ilustrações de Cristiano Nascimento e o poema de Alípio Leão — Foto: Aves e Versos/Divulgação
“Aves e Versos” foi o nome da página criada pelo trio nas redes sociais. A iniciativa surgiu de forma despretensiosa e ocasional. “Numa conversa informal com o Emanuel, mandei uns versos para ele e ele disse ‘rapaz, vamos levar isso aí adiante’”, conta Raimundo Alípio, que atua hoje como Servidor na Universidade Federal do Ceará.
O colecionador de cordéis trazia versos que já falavam sobre natureza, um alento no meio da pandemia. Emanuel, que trabalha como analista ambiental do ICMBio e atua no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres de Cabedelo na Paraíba, se encantou com as aves como as protagonistas das homenagens e logo teve a ideia de quem poderia agregar mais riqueza ao conteúdo.
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O projeto Aves e Versos é um produto exclusivo da pandemia e que se tornou uma válvula de escape até para os criadores — Foto: Aves e Versos/Divulgação
“Em 2018, Cristiano se inscreveu como voluntário do CEMAVE quando ainda era estudante de biologia e a gente descobriu que ele tem um talento de fazer ilustrações científicas”, explica Emanuel. O jovem artista já havia ilustrado mais de 100 espécies para guias de observação e livros de animais ameaçados e, unindo o útil ao agradável, tratou as imagens já feitas e até elaborou novos desenhos, quando necessário, para compor as poesias.
Mas não pense que a ideia de origem informal constituiria um projeto sem formato. “A referência principal que eu tenho é a literatura de cordel e são várias estruturas diferentes para ela. A setilha é uma delas: estrofes de sete versos onde a gente amarra uma estrutura de rimas do tipo ‘ABABCCB’”, conta Alípio.
Exemplo da métrica no primeiro poema criado para a página:
- Nesses tempos de pandemia (rima do tipo A – “ia“)
- Teu canto reverbera lá fora (rima do tipo B – “ora“)
- Parecendo estranhar a calmaria (rima do tipo A – “ia“)
- Da cidade que, impaciente, implora (rima do tipo B – “ora“)
- Esperando sem saber quando sair (rima do tipo C – “i“)
- Canta, canta meu amigo bem-te-vi (rima do tipo C – “i“)
- E pede para esse vírus ir embora (rima do tipo B – “ora“)
A parceria entre o admirador da boa poesia, o dedicado especialista em aves e o ilustrador científico em formação, deu rima! “Acho que dá um casamento bem legal né? Porque traz um pouco mais de ‘humanização’ para a questão das aves, sensibiliza mais o público e deixa o pessoal mais pensativo quando lê cada estrofe ali”, explica o ilustrador Cristiano Nascimento.
“Bebendo na água” do cordel, com o apoio da ciência e a inovação da forma de linguagem, a equipe passou a transmitir um propósito. “Você não pode de falar em preservar ave sem preservar ambiente e minha ideia é que as pessoas lessem isso e passassem a ver as aves com mais carinho. Se isso tocar as pessoas nesse sentido, é um grande feito, é um objetivo alcançado”, assume Alípio.
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Espécies alvos de misticismos e de preconceitos também são expostas pelos versos e pelas ilustrações — Foto: Aves e Versos/Divulgação
Além do trabalho de divulgação das poesias autorais, a equipe já planeja incluir também a divulgação de grandes artistas nacionais que também usaram as aves como inspiração. Dois experimentos já foram feitos na página com Gonçalves Dias e Luiz Gonzaga.
“Seja pela capacidade de voar, pelo canto que apaixona tantas pessoas, pelas longas migrações que algumas espécies fazem, pelo colorido da plumagem… as aves fascinam e não é à toa que grandes poetas à nível de Drummond e Manoel de Barros as homenagearam em algum momento”, reforça Emanuel.
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Equipe organizou os poemas em um formato ideal para o Instagram, com uma estrofe de sete versos — Foto: Aves e Versos/Divulgação
Como se o amor tivesse fórmula certa para acontecer, a equipe já recebe retornos de pessoas também apaixonadas pelo trabalho. E talvez as poesias possam, um dia, ser reunidas em um livro, como já pedem alguns leitores. Assim, a declaração se transforma em uma maneira de retribuir as alegrias que a natureza proporciona. “A natureza nos presenteia com as aves, é como se fosse realmente os mimos que se troca quando se está enamorado. Então a gente retribui com esses mimos também, que são as poesias”, define Alípio.

