Vigorexia: quando a obsessão pelo corpo perfeito vira doença

Academia todos os dias, inclusive aos domingos. Exercícios aeróbicos cada vez mais puxados para eliminar aquela gordurinha que ninguém vê. Musculação, crossfit ou qualquer atividade que propicie o aumento da massa muscular e aquela sensação de força, de corpo malhado igual aos estampados nas capas de revista e redes sociais por celebridades. Para garantir bons resultados, os esforços físicos são acompanhados de dietas exageradas, uso de anabolizantes ou outras substâncias e, mesmo assim, ao olhar para o espelho, a imagem que se vê é a de um corpo fraco, frágil e pouco definido.

Conhecida como vigorexia, o transtorno dismórfico muscular é a incompatibilidade entre o corpo de uma pessoa e a imagem que ela tem de si própria. “Por mais musculoso que esteja, o indivíduo sempre vai se achar fraco e franzino, e então inicia uma busca obcecada pela perfeição física”, explica o psicólogo do Hospital Israelita Albert Einstein Thiago Amaro. Assim como a anorexia – quando a pessoa se vê sempre acima do peso e a busca pela magreza passa dos limites saudáveis – a vigorexia é motivada pelos padrões de beleza que, de forma excessiva, cultuam o corpo sarado, com abdômen e pernas definidos e braços durinhos.

Predominante em homens, especialmente com idade entre 18 e 35 anos, a vigorexia está classificada na medicina como um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Essa busca incessante por uma perfeição corporal que não existe pode trazer sérias consequências à saúde pelo aumento de lesões musculares, consumo indiscriminado de anabolizantes, suplementos alimentares e dietas restritivas que não conseguem suprir as necessidades do organismo. “Questões como saúde ou qualidade de vida deixam de ser o foco e a pessoa não mede esforços para alcançar o objetivo. Ela exagera nos exercícios, copia dietas que pegou na internet, não come direito”, diz Thiago Amaro.

De acordo com o trabalho, 6,9% dos homens relataram o uso de suplementos para ganhar peso ou aumentar os músculos e 2,8% assumiram a ingestão de esteroides anabolizantes. Já entre as mulheres, os percentuais foram significativamente menores: 0,7% e 0,4% respectivamente. Estes comportamentos podem se transformar em dismorfia muscular. “Entre os prejuízos do consumo de substâncias assim estão lesões no fígado, perda de nutrientes e desregulação do metabolismo. É uma degradação do corpo em busca da perfeição”, explica Thiago Amaro.

Corpos frequentemente lesionados e ansiedade para a prática de exercícios físicos também são características de pessoas com vigorexia. “Elas exageram e se machucam. Em muitos casos, deixam de ter convívio social por achar que não estão bem fisicamente ou por priorizar sempre a rotina da academia”, explica o profissional de educação física e conselheiro do Conselho Federal de Educação Física, Marcelo Ferreira Miranda.

O especialista lembra que o diagnóstico de uma pessoa com transtorno dismórfico muscular não é simples. O motivo é que muitas vezes a preocupação exagerada com o tamanho dos músculos, as dietas e a rotina de academia são confundidas com hábitos saudáveis. Por isso, educadores físicos, familiares e amigos têm papel fundamental no reconhecimento da doença. “É preciso estar atento. O Conselho orienta que os profissionais da área destaquem aos alunos que os benefícios da atividade física vão além da aparência. Ela melhora o sono, previne doenças cardiovasculares e crônicas degenerativas, propiciam bem-estar”, conta. E mais que isso: melhorar a autoestima dos alunos, não estabelecer metas audaciosas e exageradas e comemorar os resultados ajudam, segundo ele, a prevenir que os alunos de academia entrem no ciclo vicioso pelo corpo perfeito.

“Eu malho todos os dias. Quando me olho no espelho ainda acho que preciso secar mais e aumentar meus músculos, mas não sou bitolado”, afirma o personal trainer Erasmo Bernardo, de 32 anos. Ele diz que se policia com alimentação, evita álcool e pega firme na musculação, mas não deixa de ter compromissos sociais ou saborear alguns prazeres. “Um hambúrguer ou chocolate de vez em quando não faz mal a ninguém. Não posso resumir minha vida à academia”, diz.

Tratamento

Uma vez constatada a doença, o tratamento é multidisciplinar e envolve desde o preparador físico até nutricionista e psicoterapeuta. A equipe ajudará o paciente a identificar as mudanças no comportamento e visão distorcida que ele tem do seu próprio corpo. Em alguns casos é necessário uso de medicamentos para controle de ansiedade, depressão e sintomas de obsessão-compulsiva. “Quando se trata de transtornos como este, é difícil falarmos em cura porque nem sempre é possível separar o comportamento da personalidade da pessoa. O que fazemos é ajudá-la a lidar melhor com a situação”, afirma o psicólogo Thiago.

Características da Vigorexia

De acordo com o Body Dysmorphic Disorder Foundation, instituição norte-americana para conscientização sobre dismorfias corporais, o Transtorno Dismórfico Muscular, popularmente conhecido como vigorexia ou “anorexia reversa” é a preocupação em não ser suficientemente musculoso ou magro (quando não é esse o caso). Ele é caracterizado por:

• Tempo excessivo e esforço exagerado no levantamento de peso para aumentar a massa muscular

• Preocupação e pânico quando não pode comparecer aos treinos

• Preocupação em treinar mesmo lesionado

• Exagero nas dietas especiais ou suplementos proteicos

• Abuso de esteroides e, muitas vezes, uso indevido de outras substâncias

• Camuflagem do corpo por não achar que está perfeito

• Comparações exageradas de corpos

• Sofrimento significativo ou alterações de humor

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