Armadilhas fotográficas revelam diversidade animal de floresta na África; vídeo
Estudo registrou 47 grupos de mamíferos no Parque Nacional de Lomami, na Bacia do Congo, e mostrou que observar apenas a superfície pode deixar parte importante da biodiversidade da floresta de fora
Em uma floresta tropical, a biodiversidade não está apenas no chão. Ela se espalha por diferentes alturas, entre a serapilheira, o sub-bosque, os cipós e as copas das árvores. Para enxergar essa dimensão vertical da vida selvagem, pesquisadores instalaram câmeras infravermelhas em diferentes níveis em uma floresta na República Democrática do Congo.
Os resultados, publicados em dois estudos, nas revistas Journal of Mammalogy e Ecology, mostraram uma espécie de “visão 3D” da comunidade de mamíferos do Parque Nacional de Lomami, uma das áreas protegidas da Bacia do Congo. A estratégia revelou espécies e comportamentos que poderiam passar despercebidos em levantamentos concentrados apenas no solo.
Uma floresta em camadas
A equipe da Florida Atlantic University (FAU), nos Estados Unidos, instalou câmeras em três níveis da floresta: próximas ao chão, no sub-bosque e na copa das árvores. Algumas chegaram a ficar entre 20 e 30 metros de altura.
Ao todo, os equipamentos registraram 47 táxons de mamíferos, incluindo primatas, carnívoros, roedores, ungulados e pangolins. O levantamento também identificou oito espécies fora das áreas de distribuição geográfica atualmente documentadas, registros que podem ajudar a atualizar o conhecimento sobre onde esses animais vivem.
A distribuição dos animais entre as diferentes alturas chamou a atenção dos pesquisadores. Foram registrados 32 táxons (grupo científico) no solo, 23 no sub-bosque e 22 na copa.
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Os números mostram que as câmeras terrestres ainda encontraram a maior parte da diversidade observada, mas deixaram escapar uma parcela importante dos animais arborícolas. Mas os pesquisadores observaram que cerca de um quarto dos mamíferos considerados arborícolas demonstrou preferência pelo sub-bosque.
“As câmeras essencialmente nos deram uma maneira de transformar um único ponto na floresta em uma coluna vertical de observação”, explica Daniel Alempijevic, autor principal do estudo, publicado no Journal of Mammalogy, em comunicado.
Para instalar os equipamentos nas partes mais altas, Alempijevic precisou aprender técnicas de escalada. Sua orientadora, Kate Detwiler, o enviou ao Panamá para treinamento antes do trabalho de campo na Bacia do Congo.
Floresta filmada de cima a baixo
A estratégia não serviu apenas para contar espécies. As câmeras produziram milhares de vídeos, posteriormente analisados por pesquisadores e voluntários treinados. Essas gravações revelaram comportamentos difíceis de observar diretamente em campo. Entre eles estão morcegos investigando frutos na copa das árvores e pequenos morcegos insetívoros se aproximando repetidamente de outros mamíferos, possivelmente para capturar insetos atraídos pelos animais.
Os equipamentos também registraram uma quantidade significativa de aves. Foram identificados mais de 1.500 eventos envolvendo aves nos três níveis da floresta, incluindo interações entre aves e mamíferos.
Em algumas gravações, aves de rapina foram vistas predando mamíferos. Em outras, calaus-de-cauda-longa-orientais acompanhavam grupos de macacos. As câmeras também registraram um animal particularmente difícil de encontrar: o pangolim-de-barriga-preta. Segundo os pesquisadores, o trabalho pode representar um dos primeiros registros feitos por armadilha fotográfica para a espécie.
O levantamento conseguiu ainda registrar três espécies de pangolins em uma mesma pesquisa, algo considerado especialmente relevante porque esses mamíferos estão entre os animais mais traficados do mundo.
Veja a baixo o vídeo de algumas gravações da equipe com os animais mencionados:
Poucos metros fazem diferença
No outro estudo, publicado na revista Ecology, os pesquisadores analisaram dados de 25 espécies de mamíferos detectadas com maior frequência, incluindo bonobos, macacos-de-cauda-vermelha, civetas-de-palmeira-africanas, javalis-vermelhos, mangustos-de-nariz-comprido e diferentes espécies de esquilos.
A análise revelou a presença de mamíferos aumentava conforme a altitude. Isso pode parecer pouco significativo em uma região conhecida por sua topografia relativamente plana. Mas a área analisada apresentava apenas 43 metros de diferença de altitude.
“É único podermos observar a mesma floresta desde o solo até a copa das árvores e perguntar como essa dimensão adicional altera o que pensamos saber sobre toda uma comunidade de mamíferos”, afirma Daniel Gorczynski, autor principal desse segundo estudo.
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A nova abordagem também pode ajudar a entender como a fauna responde às alterações provocadas pelas atividades humanas. Um exemplo veio dos pangolins-de-barriga-branca. Em florestas maduras, os animais utilizavam a copa das árvores com maior frequência. Já em áreas desmatadas para agricultura, eram encontrados mais próximos do solo.
Essa mudança pode ter consequências importantes. Ao passar mais tempo perto do chão em áreas ocupadas ou utilizadas por pessoas, os animais podem ficar mais expostos à caça ilegal. Para os pesquisadores, esse tipo de informação é fundamental para identificar habitats importantes e compreender como diferentes espécies respondem à perda e à alteração de seus ambientes.
A Bacia do Congo abriga uma das maiores extensões de floresta tropical relativamente intacta do planeta. Cerca de 60% de sua área florestal está na República Democrática do Congo, mas décadas de insegurança, dificuldades de acesso e infraestrutura limitada fizeram com que grandes áreas permanecessem pouco estudadas. Isso significa que ainda existem lacunas importantes sobre a distribuição e a ecologia de muitas espécies.
“Crescendo nesta região, sempre entendi que a floresta é mais do que uma paisagem, ela abriga uma extraordinária diversidade de vida que ainda estamos apenas começando a compreender”, diz Junior Amboko, coautor dos estudos e pesquisador da FAU. Para Kate Detwiler, a principal autora sênior da pesquisa, a tecnologia permite observar a floresta de uma maneira mais próxima daquela experimentada pelos próprios animais.
A ideia, no futuro, é transformar o método em uma ferramenta que possa ser aplicada em outras áreas da Bacia do Congo para detectar espécies raras ou ameaçadas, identificar habitats importantes e avaliar os efeitos de perturbações humanas.
