Alagamentos em João Pessoa: o preço do “progresso”
Como pessoense, não me recordo de precisar ficar em casa em dias de chuva.
Nos anos 80 e 90, a cidade era conhecida como uma “capital do interior”, sem grandes espigões, com trânsito relativamente tranquilo e um título que frequentemente ocupava as páginas da imprensa: o de segunda cidade mais verde do mundo.
Embora fosse um título questionável, sem caráter oficial, nós sentíamos orgulho disso. Propagávamos que morávamos em uma das cidades mais verdes do mundo, atrás apenas de Paris.
O tempo passou, e as coisas mudaram.
Em 2009, enquanto geógrafo recém-formado, já alertava através de meu trabalho de conclusão de curso em Geografia, acerca das áreas de risco no bairro de Cruz das Armas sobre um dos principais problemas da nossa cidade: a falta de drenagem adequada, a formação de grandes voçorocas (grandes buracos formados por erosão) e o assoreamento do rio Jaguaribe.
A partir de então, a cidade cresceu de forma acelerada.
Atualmente, há um discurso recorrente de que João Pessoa é uma das melhores capitais do Brasil para se viver. Aparece em rankings, figura entre os melhores destinos do mundo. E, junto a isso, algo no mínimo paradoxal: episódios recorrentes de uma pluma de esgoto invadindo o mar.
A situação do rio Jaguaribe torna-se cada vez mais grave, acompanhando a expansão de populações vulneráveis às inundações e um nível crescente de poluição e eutrofização (o surgimento de plantas aquáticas sinalizam esse processo).
Houve, é verdade, uma relativa expansão na infraestrutura de drenagem e esgotamento sanitário, o que fez cessar a formação de voçorocas em alguns pontos, processo também contido pela pavimentação. No entanto, concomitantemente, cresce outro problema: os alagamentos e as inundações. Foi, em grande medida, um processo de cobrir a cabeça e descobrir os pés. Além disso, do ponto de vista social, esse processo se deu de forma desigual.
O cenário das voçorocas era muito comum nas décadas de 80 e 90, especialmente com o surgimento de conjuntos residenciais e a ausência de pavimentação nas vertentes do rio Jaguaribe. Era o que Cleide Rodrigues define como urbanização em estágio de consolidação.
Hoje, em 2026, a infraestrutura de pavimentação avançou. A drenagem, no entanto, não acompanhou esse ritmo.
É claro que a questão do lixo e a educação ambiental da população também têm peso. Mas o problema não se resume a isso. Faltam alternativas mais eficientes de drenagem urbana, como o que hoje se denomina de soluções baseadas na natureza.
Não há cidade resiliente sem que se pense em drenagem natural. A drenagem artificial, por si só, nunca foi, e dificilmente será suficiente. Ela esbarra em limitações conhecidas: infraestrutura envelhecida, altos custos de implantação e manutenção, além da incapacidade de lidar com volumes cada vez maiores de água, em cidades em expansão e sob eventos de chuva mais intensos e frequentes.
Em Buenos Aires, por exemplo, uma das maiores metrópoles do planeta, já se observam tentativas, ainda pontuais, de reversão desse modelo, com iniciativas de replantio e criação de áreas verdes.
Em suma, se não observarmos essas iniciativas e voltarmos enquanto é tempo, nosso futuro não será dos mais otimistas.
