A soberania é decidir o que você coloca no prato
Fortalecer sistemas alimentares locais pode ser um dos caminhos mais concretos para promover saúde, autonomia e equilíbrio social no Brasil
Soberania é uma dessas palavras que ganhou contornos mais urgentes no tempo atual. Em parte, isso se deve às guerras pelo mundo e às disputas territoriais que, de certa forma, são disputas por recursos naturais. Mas é, também, por causa de sua ligação intrínseca com a segurança em sentido amplo: segurança energética, econômica, tecnológica e alimentar. Soberania é a capacidade de assegurar o bem-estar para a própria população e o poder de manter a unidade nacional. Essa é a verdadeira força de um país.
É isso que uma comunidade deve buscar para si mesma. Afinal, para que nos organizamos em sociedade? Por que criamos a gestão pública e mantemos o Estado? Fazemos tudo isso para garantir segurança – para nós, nossas famílias, vizinhos e amigos. Queremos a tranquilidade de saber que estamos cumprindo nosso papel e construindo, em torno de nós, uma rede de apoio institucional e comunitário para que não “caiamos no chão e nos esborrachemos” nos momentos difíceis.
Por isso, quando falamos de soberania alimentar, estamos falando, na verdade, da nossa capacidade de produzir alimentos em todas as circunstâncias.
Geralmente, quando pensamos em produção de alimentos, a imagem que vem imediatamente à cabeça é a do agronegócio brasileiro de larga escala, produtor de commodities. Vemos aqueles campos cultivados a perder de vista, onde o horizonte não revela nenhum pinguinho de floresta para gerar mananciais, produzir chuva, equilibrar o clima, manter a biodiversidade ou a saúde dos cursos d’água. Mas isso é outra conversa.
Voltando à imagem desses campos de monocultura voltados para a exportação: esse é o modelo que associamos ao “agro produtor de alimentos”. Ele tem, de fato, seu papel na geração de divisas, na produção de proteína animal e de insumos para alimentos industrializados ou ultraprocessados. Mas o que vai para a nossa mesa – o arroz, o feijão, a batata, a cebola e a mandioca; o aipo, a cenoura, o jiló e a beterraba; todas essas coisas gostosas que dão sabor e nutrientes ao nosso dia a dia – vem da agricultura familiar.
São os pequenos agricultores, em pequenas propriedades, que dispõem de muito menos recurso, visibilidade e apoio técnico. Estes são os que mais precisam de nós e os que mais nos dão de volta em termos de segurança alimentar.
E esses produtores estão enfrentando tempos difíceis. Não por causa de guerras ou ameaças de invasão de seus territórios, mas por causa das mudanças climáticas. Sim, eventos extremos sempre aconteceram. O clima nunca foi um tapete vermelho estendido na frente do produtor rural; eles sempre lidaram com anos de seca ou de chuva intensa. Mas não podemos negar a ciência: estamos passando por uma ruptura de padrões climáticos provocada pelo aquecimento global. Essa transição de uma fase de padrões previsíveis para uma era de conturbações e extremos imprevisíveis é o que tira o sono dos produtores.
Felizmente, existem caminhos. Uma série de práticas e técnicas, conhecidas como agricultura regenerativa, levam em conta a saúde do ambiente e dos recursos naturais. O princípio é simples: o produtor trabalha para que sua produção melhore o ecossistema — não só dentro da sua propriedade, mas no entorno.
Ao recuperar nascentes, melhorar o curso dos rios e preservar a cobertura vegetal, o agricultor consegue manter uma menor variação de temperatura e reduzir pragas, graças à presença de defensores naturais e maior biodiversidade. Todas essas práticas juntas oferecem resiliência climática. É a capacidade de o produtor atravessar períodos extremos porque possui um sistema de produção mais seguro e diversificado. Técnicas que envolvem diversidade de cultivos ou agroflorestas oferecem produtos diferentes que se adaptam melhor a condições imprevisíveis. É aí que reside a nossa verdadeira soberania.
Falar de alimentação no Brasil costuma nos levar àqueles números de produção em larga escala, exportações, recordes do agronegócio. Mas para falar do mesmo assunto aqui em comunidades do interior agrícola, com predomínio de pequenas propriedades, tem outro sentido. Nesses lugares a alimentação vem de um sistema de produção que ainda não encontrou seu equilíbrio sustentável, mas tem alto potencial de transformar nossas relações socioambientais.
A ideia de soberania alimentar para nós que trabalhamos lado a lado com os agricultores familiares, parte dessa questão de uma forma mais simples do que parece. A nossa alimentação começa no ato de as comunidades decidirem como é que vão produzir, o que irão produzir e o que querem consumir, a partir de suas realidades culturais, ambientais e territoriais.
Em um país com a diversidade do Brasil, isso ganha uma dimensão ainda maior. Cada região carrega um potencial único de produção de alimentos, influenciado pelo clima, pelo solo, pela cultura e pelos saberes tradicionais. Ainda assim, grande parte do que consumimos hoje segue um modelo padronizado, baseado em cadeias longas de distribuição em sistemas produtivos que priorizam a monocultura. Notamos no caminho a perda de hábitos alimentares ancestrais em troca de produzir alimentos mais comerciais. E também nos deparamos com o contrário, quando um alimento era muito consumido no passado, mas hoje volta a ter demanda porque foi descoberto como as plantas alimentícias não convencionais (PANCs) para uma nova geração de cozinheiros modernos.
Esse modelo levanta questões importantes: diversidade reduzida, espécies escolhidas a partir de uma tendência global e ao invés de saberes locais, impactos ambientais de degradação e uma alimentação cada vez mais distante da origem. Nesse ponto a soberania alimentar se apresenta como alternativa econômica e cultural.
Em vez de depender exclusivamente de sistemas centralizados, ela propõe fortalecer a produção local, especialmente a agricultura familiar, valorizando práticas mais diversas e integradas à natureza, considerando hábitos dos avós e bisavós que já ocupavam o território e descobriram empiricamente como fortalecer sua saúde física através do solo.
Sistemas agroflorestais, por exemplo, mostram que é possível produzir alimentos consorciando diferentes espécies, respeitando os ciclos naturais, priorizando a qualidade do solo e aumentando a diversidade produtiva. Técnica que não pode ser considerada nova, porque reflete soluções ancestrais da própria natureza.
Um dos momentos mais emocionantes de quem trabalha com apoio à regeneração da agricultura e ver um momento de insight do produtor quando ele está na prática de projetos que incentivam a transição agroecológica do campo Isso acontece quando a família notando o quanto têm disponível na própria terra. Eu, Analu, já vi algumas vezes com emoção quando os agricultores são surpreendidos por não precisar adquirir insumos e defensivos químicos, e ficam orgulhosos de poder distribuir seus alimentos sem “veneno” (como eles mesmo dizem) para suas famílias e vizinhos. No caso de um agricultor local, foi mencionado que ele faria parte do projeto proposto apenas para provar que não seria possível colher milho sem aditivos, e a surpresa ao notar que não só foi possível, como colheram ainda mais diversidades de espécie do que antes da transição, é sem dúvida minha (da Analu) parte preferida desse processo.
Mas a soberania alimentar não se constrói apenas no campo e com o agricultor, ela também depende de quem consome. Escolher alimentos produzidos localmente, valorizar feiras locais, pequenos produtores e circuitos curtos de comercialização são formas concretas de fortalecer esse sistema. Cada escolha de consumo ajuda a direcionar o tipo de agricultura que queremos sustentar, e ainda é uma escolha consciente com a própria saúde alimentar.
Existe também uma dimensão coletiva que não pode ser ignorada. Uma população que se alimenta melhor tende a ter mais saúde, mais disposição e menor dependência de sistemas médicos sobrecarregados. Ao mesmo tempo, fortalece a produção local, gera renda, reduz desigualdades e mantém vivas culturas alimentares que fazem parte da identidade de cada território. Em outras palavras, soberania alimentar é sobre autonomia, saúde e equilíbrio social. Em um cenário global marcado por crises ambientais, insegurança alimentar e mudanças climáticas, fortalecer sistemas locais não é um movimento de retorno ao passado, é uma estratégia de futuro. E ela começa de forma simples: ao aproximar quem planta de quem consome, e ao devolver às comunidades o poder de decidir o que colocam no próprio prato.
