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A natureza dos negócios: os ecossistemas podem se tornar uma nova classe de ativos para as empresas?

A natureza dos negócios: os ecossistemas podem se tornar uma nova classe de ativos para as empresas?

Uma iniciativa brasileira na Amazônia mostra como o manejo florestal sustentável pode gerar renda para comunidades tradicionais e, ao mesmo tempo, demonstrar resultados concretos na conservação da biodiversidade e no armazenamento de carbono; o desafio agora é transformar essas evidências em valor para a gestão empresarial e em novas oportunidades de financiamento.

O que aconteceria com uma empresa se a água de que ela precisa deixasse de estar disponível, se o solo do qual depende sua produção se degrad­asse ou se desaparecesse um ecossistema que sustenta sua atividade?

As perguntas parecem ambientais, mas também são econômicas. Afinal, a qualidade da água, a saúde dos solos, a biodiversidade, a captura de carbono e outros serviços ecossistêmicos – como são chamados os benefícios que a natureza proporciona à sociedade – podem condicionar operações, cadeias de fornecimento e decisões de longo prazo.

Essa foi a principal discussão do II Summit de Serviços Ecossistêmicos FSC América Latina, coorganizado pelo FSC América Latina, FSC Argentina e FSC Brasil e realizado na semana passada, em Puerto Iguazú. O encontro reuniu representantes de governos, empresas, comunidades, universidades e instituições de pesquisa e organizações internacionais para discutir como transformar impactos positivos medidos e verificados em oportunidades concretas de financiamento, conectando projetos, evidências e potenciais financiadores.

Alguns números ajudam a dimensionar a escala do problema. Na América Latina e no Caribe, por exemplo, a relação entre natureza e economia é evidente: de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 55% do PIB regional depende da natureza, enquanto os serviços ecossistêmicos geram um valor estimado de US$ 15,3 trilhões por ano, equivalente a aproximadamente o dobro do PIB da região.

Para o FSC, sistema de certificação florestal mais reconhecido do mundo e referência em manejo florestal responsável, o desafio é gerar dados verificáveis sobre os impactos e benefícios dos ecossistemas para que elas possam ser incorporadas à gestão empresarial. Boa parte desse valor ainda não aparece em um balanço: uma floresta pode armazenar carbono, regular a água, conservar a biodiversidade e proteger o solo sem que esses benefícios tenham, necessariamente, um reconhecimento econômico.

Esse valor também não é exclusivamente ambiental. Os serviços ecossistêmicos têm impacto direto no bem-estar das comunidades, na geração de renda e no desenvolvimento de atividades produtivas. Por isso, identificar as dependências de uma empresa em relação à natureza permite antecipar riscos, proteger recursos estratégicos e fornecer informações para orientar decisões de investimento e alocação de capital.

“Estamos falando de impactos positivos que extrapolam os limites da floresta”, diz Elson Fernandes de Lima, diretor executivo do FSC Brasil. “Quando a gente pensa em financiamento climático, patrocínio de serviços ecossistêmicos, é uma forma de destinar recursos para quem está promovendo, conservando esses serviços ecossistêmicos que afetam o mundo todo”.

Fato é que ainda existe muito questionamento sobre a rastreabilidade e a robustez das comprovações para garantir não apenas que os recursos chegam na ponta, no território, mas que de fato os serviços ecossistêmicos estejam sendo mantidos e melhorados. O FSC, portanto, ocupa esse espaço como uma ferramenta de mercado que traz essa transparência e ajuda os manejadores a comprovarem os seus impactos.

O Impacto Verificado do FSC permite gerar evidências sobre sete serviços ecossistêmicos – biodiversidade, armazenamento e captura de carbono, água, conservação do solo, recreação, valores culturais e qualidade do ar – quantificados e submetidos a processos de verificação validados por terceiros.

No Brasil, essa metodologia já tem uma aplicação concreta na Amazônia. A Amazonbai é uma iniciativa de expansão sustentável da cadeia de valor do açaí combina manejo florestal responsável, geração de renda para comunidades tradicionais e conservação da biodiversidade. O projeto conta com 2.612,73 hectares de manejo florestal certificado pelo FSC para a produção de açaí e contempla 137 produtores, promovendo o uso responsável dos recursos naturais e fortalecendo a governança local.

O projeto conta com Impacto Verificado FSC em carbono e biodiversidade e já conseguiu um patrocínio internacional. As áreas certificadas armazenam 138.226,55 toneladas de carbono e registram 259 espécies de fauna, entre elas algumas ameaçadas, como a onça-pintada, o tamanduá-bandeira e o bugio. Esses resultados reforçam como o manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade pode gerar benefícios ambientais e econômicos para as comunidades que dependem da floresta.

Segundo Elson, um grande ponto ainda é o consenso de que a floresta demanda novas fontes de financiamento. “Como o manejo responsável costuma ter uma produtividade mais baixa, mecanismos que se complementam e geram uma receita adicional são fundamentais”, comenta Elson. Atualmente, por exemplo, um manejador certificado madeireiro compete de forma desfavorável com empresas cujo modelo de negócios é baseado no desmatamento. Nesse sentido, o fato de hoje existir uma sobreposição de áreas produtivas para madeira que entram no mercado de créditos de carbono é uma solução estratégica. “Isso traz recursos entrando anualmente e em longo prazo para completar essa receita e garantir que os benefícios dos serviços ecossistêmicos sejam mantidos”, explica o diretor executivo.

O desafio, portanto, é fazer com que essas evidências contribuam para fechar a lacuna entre o que os ecossistemas proporcionam às economias e a forma como esses benefícios são valorizados, medidos e financiados. Afinal, a questão econômica não é apenas sobre quanto custa conservar. É também sobre quanto custa perder aquilo que sustenta uma atividade produtiva e quanto valor pode ser gerado ao evitar essa perda.

Sobre o FSC

O FSC é uma organização sem fins lucrativos que oferece uma solução comprovada para o manejo florestal sustentável. Atualmente, mais de 200 milhões de hectares de florestas em todo o mundo são certificados de acordo com os padrões do FSC. É amplamente reconhecido por ONGs, consumidores e empresas como um dos sistemas de certificação florestal mais rigorosos para enfrentar os desafios atuais de desmatamento, mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

O padrão de manejo florestal do FSC é baseado em dez princípios fundamentais, desenvolvidos para abordar uma ampla gama de fatores ambientais, sociais e econômicos. O selo do FSC, representado pela “árvore de verificação”, está presente em milhões de produtos de origem florestal e garante que eles são provenientes de fontes manejadas de forma responsável, desde a floresta até o consumidor.