A cultura do conforto : uma reflexão bioética
Rousseau , na sua famosa obra Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens fala-nos sobre a perfectibilidade ,que seria a capacidade quase ilimitada de o ser humano, ao contrário dos animais, transformar-se e se adaptar. Para Rousseau, um animal é, ao fim de alguns meses, o que será pelo resto da vida. Uma abelha constrói colmeias hoje exatamente como fazia há mil anos. O ser humano não. Diante dos desafios da Natureza, inventa, adapta, transforma, reconstrói, modifica, altera o curso, livra-se dos excessos, combina elementos, tudo para atender ao seu interesse.
E qual é esse interesse? O de sentir-se confortável. O homem em estado de Natureza não teme a morte ou o Outro, a perda de bens, ou o que ocorrerá no futuro. Vive o momento, o presente, e faz da sua existência o melhor possível para si. Como afirma o pensador genebrino sobre esse homem natural: seus desejos não ultrapassam suas necessidades físicas; os únicos bens que conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o repouso; os únicos males que teme são a dor e a fome.
Com o tempo e as intervenções no mundo, o homem natural tornou-se o homem civil, esse que chamamos hoje de o homem comum. E a perfectibilidade, que tanta alegria dava ao solitário homem das florestas e pradarias, acabou levando-o à sedentarização, agricultura, pastoreio, metalurgia e , como um corolário dessas transformações todas, à propriedade privada. Para Rousseau, portanto, essa peculiaridade humana não o distinguia dos animais por torna-lo mais sábio, mas, ao fim e ao cabo, por torna-lo mais perigoso para si e para o planeta. Mudar, mudar, mudar, buscando ajustar o mundo e os outros ao nosso imperativo de conforto fez o mundo tornar-se o que é. Cada elemento incorporado ao cotidiano de uma pessoa, como um alimento mais apetitoso, uma lugar mais agradável para dormir, uma roupa com um toque mais macio na pele, uma posição que dispensa de qualquer trabalho fastidioso , torna-se indispensável à vida, como uma segunda natureza sem a qual a existência converte-se em algo insuportável.
A tecnologia, ao longo do tempo, permitiu abrir mão dos escravos, regulamentar os direitos dos empregados e agora discute-se mesmo diminuir o tempo dos dias de trabalho. Uma tarefa que exigia muitas etapas, hoje é realizada com dois ou três toques em uma máquina. Uma viagem que levava semanas ou mesmo meses, hoje ocorre em poucas horas. Mesmo assim, continuamos a reclamar e nos sentir insatisfeitos. Reclamamos dos aeroportos, das filas, da demora da aeronave em decolar, e , com nossa inventividade, vamos criando formas de ampliar nosso conforto, mesmo que ao custo do desconforto dos outros, o que amplia a marcha da insatisfação a um paroxismo no qual todos têm , hoje, mais do que jamais se teve um dia e, mesmo assim, a insatisfação só se amplia.
O conforto invade todas as atividades. Os automóveis já não exigem que troquemos as marchas, as televisões funcionam há tempos sem que precisemos levantar das poltronas, e, recentemente, muitos descobriram os prazeres do trabalho em casa, sem mais a necessidade de deslocamento e de convivência com os colegas. O conforto foi a grande descoberta do ser humano. E também a maldição de si mesmo e da Terra.
No dia a dia do homem comum, quem dispensa a sacola plástica do supermercado? E os canudinhos dos refrescos? E os guardanapos dentro de embalagens plásticas? E as comidas delivery em embalagens de isopor? Lógico que essa lista chega a ser ridícula perto da quantidade de objetos e práticas que não abrimos mão e que estão minando o planeta. Com o agravante de que somos sempre mais, vivendo mais, querendo todos viver bem, o que implica ter acesso a tudo o que permite existir confortavelmente. E quando aparece quem defenda o adiamento do prazer, o abandono de certos confortos em nome do futuro, desperta o homem natural em cada um de nós, isto é, o homem que se recusa a deixar de viver o melhor possível no atual momento, e quer ser feliz, entendendo a felicidade com não ser frustrado em suas vontades. E suas vontades são de mais abundância e conforto e não o contrário. E nessa busca da felicidade, febre contemporânea travestida de “direito universal” é que reside o problema.
Em 2008, o desenho da Pixar Wall-E utilizou a ficção científica para ilustrar como a busca por uma vida de conveniência absoluta pode levar à obsolescência tanto da natureza quanto da própria essência humana. Trata-se, penso eu, de uma atualização do alerta do filósofo iluminista. Para Rousseau, a perfectibilidade nos permitiu criar ferramentas para facilitar a vida. No entanto, o que começa como uma comodidade pode acabar se tornando uma necessidade. E não é possível viver sem o necessário.
No filme, a tecnologia da nave Axiom é o ápice da perfectibilidade: os humanos criaram robôs para resolver todos os problemas. O resultado? Tornaram-se escravos de suas próprias criações. Eles não conseguem mais andar, comer ou se vestir sem as máquinas. Ou seja: o homem “aperfeiçoado” pela civilização acabou mais fraco e dependente do que o homem natural. Os humanos na Axiom não vivem; eles apenas vegetam em um estado de conforto excessivo. A fala do Capitão — “Eu não quero sobreviver! Eu quero viver!” — é uma espécie, podemos dizer, de grito rousseauniano. Uma forma de acordar para o fato de que a “perfeição” técnica (o conforto absoluto) eliminou a liberdade e, principalmente, a agência humana, transformando-nos em seres patéticos e desconectados da natureza.
*Daniel Medeiros – Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.
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