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Blade Runner Cities – Futurofobia: o medo como Norte

Blade Runner Cities – Futurofobia: o medo como Norte

Samyra Crespo _ A ONU nos lembrou no dia 31, passado há pouco, que devíamos celebrar ou promover o Dia Mundial das Cidades. Lembrando que esse a década de 2.000 nosso planeta virou urbano, no sentido de que mais da metade dos humanos escolheu viver nas cidades e adotar o modo urbano de vida. Eu mesma, como militante da Agenda 21, tenho me envolvido com muito entusiasmo no projeto de tornar as cidades ambientes ‘sustentáveis’.

Na bruma do tempo, esfarelaram expectativas de propor a paz, a saúde, a convivialidade e a inclusão como bandeiras para obter qualidade de vida.

Hoje, o que observo nas cidades grandes principalmente, é o clima de S.O.S. -.

Sim, as cidades como culminância da cultura e da civilização vêm entrando em acelerada decadência. Comprovam-no adventos como as guerras cruéis em curso, em Kiev e Gaza, turbulência e vandalismo, como em Paris ou Madrid e violência cotidiana, sistemática como no Rio de Janeiro e na periferia das grandes cidades, que nos fazem tremer. E citei somente alguns exemplos entre milhares…

Tremer e temer o futuro.

Não há a menor dúvida de que estamos vivendo a época do VISIONARISMO CATASTROFISTA: caminhamos para o desastre, seja ele ambiental ou da não solução das diásporas de refugiados de guerras, fome e doenças, ou ditaduras. Há um clima de divisão e de nacionalismos recalcitrantes no ar.

Putin, Trump, Milei e líderes populistas ou religiosos radicais não são um fenômeno casual.

O ressurgimento do reacionarismo cujo fruto mais amargo é o FASCISMO está aí para nos esfregar na cara que estamos pensando o futuro NÃO COMO ESPERANÇA, mas como MEDO.

Pode o passado (holocausto e assemelhados) voltar?

O medo mobiliza uma energia ruim, defensiva, rancorosa, nos torna violentos e intolerantes. Traz ao dormir e ao acordar o gosto azedo dos pesadelos.

Antonio Sant’Elia: The futurist architect whose drawings inspired Ridley Scott’s “Blade Runner”
Antonio Sant’Elia: The futurist architect whose drawings inspired Ridley Scott’s “Blade Runner”

É este medo e não esperança que vejo retratado nas CIDADES e no AMBIENTE que cenograficamente agudizam a saga dos filmes distópicos, a exemplo de Blade Runner (1 e 2), filmes que impactam por suas sugestões não só da destruição magnífica que podemos causar às nossas proprias condições de vida, mas por colocar tão premonitoriamente nossa relação com as máquinas e ‘transumanos’ (no filme os ‘replicantes’), como uma realidade cada vez mais plausível.

Os dois filmes (1 e 2) do diretor Ridley Scott são agônicos e intensificam estética e filosoficamente o nosso MAL ESTAR NA CIVILIZAÇÃO.

Aprende-se muito com o cinema.

Entre as possíveis leituras que ambas as películas podem ensejar, duas saltam aos olhos: o ambiente retrata uma NATUREZA PRATICAMENTE AUSENTE, degradada ao extremo, hostil à vida tal como a conhecemos.

As cidades são aglomerados caóticos, habitados por ruínas, sucatas e monumentos de outrora (de hoje?). São escuras, lamacentas, neblinosas, e apinhadas por seres “sobreviventes”.

A comida no primeiro filme era de rua, à semelhança do que ocorre com as cidades asiáticas, no segundo é o fast-food em contínuo delivery por robôs e sistemas automatizados. Não há sabor nessa vida, mas apelos de neon, prazeres virtuais.

Os ambientes seguros/controlados são casamatas gigantes, feias, pesadas, estruturas que esmagam ou tornam insignificantes os que lá estão.

A profecia tenebrosa está bem diante de nós: cidades desumanizadas, seres que vão perdendo suas características humanas, máquinas que vão ganhando nossas feições, mas não a parte luminosa de nossa ÂNIMA.

NÃO HÁ PAZ. É como se fosse o UMBRAL descrito pelos espiritualistas, um entre céu e inferno pós catástrofe nuclear, pós fenômeno climático vivido em sua mais terrível manifestação.

NÃO HÁ PRIMAVERAS NESSE MUNDO desolado.

Em ambos os filmes, a abordagem mais óbvia é a do nosso futuro com a inteligência artificial, automação e robótica e seus possíveis (e tenebrosos) impactos em nossa psique.

Nestas poucas palavras de uma breve reflexão, deixo apenas a sugestão de que essas projeções/fantasias/premonições sobre o futuro começam a delinear o que chamo de futurofobia.

Tememos o futuro. TEMEMOS O TEMPO DO SER HUMANO.

Tememos o que nos tornamos.

Samyra Crespo