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Eleições 2026: o clima entrou nos planos, mas não nas campanhas

Eleições 2026: o clima entrou nos planos, mas não nas campanhas

A eleição acontece enquanto a emergência climática deixa de ser uma projeção distante e se materializa em situações bastante concretas

No dia 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. As eleições acontecem enquanto a crise climática deixa de ser uma projeção distante e se materializa em situações bastante concretas: cidades alagadas, lavouras expostas à irregularidade das chuvas, reservatórios sob pressão, ondas de calor afetando trabalho e saúde, famílias perdendo casas e municípios tentando reconstruir infraestruturas que talvez voltem a ser atingidas.

Uma pesquisa da Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima — organização da sociedade civil dedicada à pauta climática — ouviu 1.800 pessoas com 18 anos ou mais, em todas as regiões do país, entre 17 e 20 de agosto. Resultado: 62% classificam o tema como “muito importante” para a eleição.

Outros dois números completam o quadro: 87% concordam que as mudanças climáticas já provocam secas, chuvas intensas e ondas de calor; e 79% dizem que o tema deve ser priorizado mesmo quando isso implicar custos econômicos — a linha que a próxima seção mostra sendo testada na prática.

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Jovens periféricos rimam sobre racismo ambiental e mudanças climáticas no evento de Rap Batalha da Matrix, em maio de 2025 Foto:Luan Braz | Greenpeace Brasil

Quando clima passa a se chamar economia

O clima não desapareceu do debate eleitoral: mudou de nome. Uma análise do Reset sobre os programas dos principais presidenciáveis mostra transição energética, natureza, bioeconomia, minerais estratégicos e energia limpa vestidos de desenvolvimento, soberania, competitividade, segurança energética ou atração de investimentos. A agenda climática se concretiza via política econômica — ainda que os projetos para fazê-lo sejam bastante diferentes entre si.

Durante muito tempo, meio ambiente apareceu na política brasileira quase como um capítulo separado do “desenvolvimento”: primeiro se discutia crescimento, infraestrutura, indústria e agricultura; depois, em uma espécie de rodapé verde, perguntava-se como reduzir os danos ambientais. A crise climática tornou essa divisão cada vez menos funcional.

O custo da energia é uma questão climática. O preço dos alimentos também. A infraestrutura que resiste (ou não) a uma enchente também. O seguro agrícola, a disponibilidade de água, o transporte público, a qualidade das moradias, a exposição de trabalhadores ao calor e a capacidade do SUS de responder a novas pressões sanitárias igualmente passam pela política climática.

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Foto: Freepik

Ainda assim, essa reformulação tem um limite: colocar a palavra “verde” ao lado da palavra “economia” não resolve sozinho o problema da transição real. A comparação feita pelo Reset encontrou uma convergência relevante entre diferentes candidaturas: petróleo e gás continuam sendo tratados como componentes da segurança energética ao mesmo tempo em que os planos defendem a expansão de fontes renováveis. A disputa central, portanto, não é simplesmente entre “fóssil” e “renovável” — é sobre velocidade da transição, expansão ou substituição de fontes, papel da Petrobras, financiamento e distribuição dos custos e benefícios dessa transformação.

Também existem diferenças concretas nos compromissos registrados nos documentos. Um levantamento do Observatório do Clima examinou 28 temas organizados em oito eixos socioambientais nos programas dos presidenciáveis: Caiado admite os impactos dos eventos extremos e propõe adaptação e prevenção de desastres, mas não fixa metas de redução de emissões; Cury cita a mudança climática, mas não estrutura metas de mitigação; Flávio Bolsonaro não reconhece a crise climática e inclui a exploração de gás por fraturamento hidráulico entre suas propostas; Lula menciona explicitamente o Acordo de Paris e a NDC brasileira; Renan Santos não menciona alguns dos principais marcos da política climática nacional; e Zema reconhece a ocorrência de extremos, mas sem detalhar os meios de implementação.

O próximo governo não começa do zero

Quem assumir o país em 2027 herdará compromissos que já existem. A NDC brasileira apresentada à Convenção do Clima estabelece a redução das emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, tomando 2005 como referência. Em valores absolutos, isso significa chegar a algo entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano.

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Foto: Raimundo Pacco

Há também o Plano Clima 2024–2035, principal instrumento federal de planejamento climático. Na adaptação, ele se desdobra em 16 planos setoriais e temáticos, cobrindo áreas como cidades, saúde, agricultura familiar, recursos hídricos, transportes, redução de riscos de desastres, igualdade racial, povos indígenas e segurança alimentar. Na mitigação, organiza planos para os grandes setores emissores da economia.

Essa continuidade muda a natureza da discussão eleitoral. Não se trata apenas de perguntar quem promete criar uma nova política climática. Também importa saber o que cada projeto de governo pretende fazer com políticas, metas e instituições que já estão em funcionamento. Implementar, revisar, financiar, enfraquecer, ampliar ou abandonar políticas são decisões políticas tão importantes quanto lançá-las.

A eleição climática não termina na Presidência

Há outro ponto pouco lembrado nessa conversa. Em outubro, o eleitor não escolherá apenas presidente. Serão seis votos. Além dos Executivos federal e estaduais, estarão em disputa todas as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 54 das 81 vagas do Senado — dois terços da Casa. Cada eleitor escolherá dois senadores.

Isso é particularmente relevante para o clima porque leis, orçamento e fiscalização do Executivo decidem se a política climática sai do papel: mineração, energia, licenciamento, agricultura e instrumentos econômicos passam pelo Legislativo em diferentes momentos. Deputados e senadores também discutem e votam o orçamento federal e fiscalizam sua execução.

câmara congresso
O PL da Devastação foi aprovado por senadores e deputados. Foto: Vini Loures | Agência Câmara

É difícil falar seriamente em política climática olhando apenas para Brasília, e ainda mais apenas para o Palácio do Planalto. Governadores administram redes de saúde, infraestrutura, defesa civil, recursos hídricos e políticas territoriais. Assembleias estaduais aprovam normas e orçamentos. Municípios lidam diretamente com drenagem, ocupação do solo, mobilidade, moradia e resposta aos desastres.

A urna de 2026, portanto, contém muito mais política climática do que talvez pareça na propaganda eleitoral. Não é sobre quem fala mais sobre sustentabilidade, mas que tipo de Estado, de economia e de território cada proposta consegue imaginar num país que já precisa reduzir emissões e, ao mesmo tempo, aprender a viver com impactos que chegaram antes de a política estar plenamente preparada para eles.

Candidaturas comprometidas com o clima

Nesta eleição, a plataforma Vote pelo Clima reúne candidaturas que voluntariamente aderem a compromissos relacionados a 20 áreas, entre elas saúde, educação, energia, transporte, moradia, agricultura e redução de desastres. Como a participação depende de inscrição e de critérios definidos pela própria iniciativa, a plataforma não substitui uma análise ampla de todas as candidaturas, mas oferece uma porta de entrada para quem procura informações sobre propostas climáticas.

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Imagem: Vote Pelo Clima