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Direita minimiza calor recorde e sustenta negacionismo

Direita minimiza calor recorde e sustenta negacionismo

Políticos e pessoas identificadas com a direita em todo o mundo negam o papel das mudanças climáticas causadas pelo homem no calor extremo deste verão histórico na Europa. A ciência conta uma história diferente.

À medida que chega ao fim um verão marcado por calor extremo na Europa, políticos e especialistas fazem um balanço de seus impactos. A Alemanha registrou cerca de 14 mil mortes relacionadas ao calor, quase dois terços delas em apenas uma semana escaldante de junho. Um banco holandês estimou que o calor extremo custará à União Europeia 180 bilhões de euros (cerca de R$ 1,15 trilhão) de seu PIB (Produto Interno Bruto). Agricultores europeus perderam aproximadamente 9 milhões de toneladas de grãos em junho.

A mudança climática, há muito tempo um tema politicamente polarizado, tornou-se uma realidade cotidiana para pessoas em todo o mundo. Esses e outros efeitos tornam cada vez mais difícil contestar aquilo que as pessoas veem com os próprios olhos.

Ainda assim, isso não impediu a direita populista global de tentar.

Richard Tice, vice-líder do partido britânico de ultradireita Reform UK, afirmou que “a mudança climática sempre existiu e sempre existirá”, acrescentando que seria uma arrogância tentar impedi-la. E ainda incentivou os britânicos a aproveitarem o calor.

Nos Estados Unidos, Harriet Hageman, política republicana e possível futura senadora pelo Wyoming, declarou ao canal de ultradireita Real America’s Voice que a onda de calor europeia não tinha nada de extraordinário.

“Chama-se verão. Alguns anos são mais quentes do que outros e alguns são mais frios”, disse. “Essa é apenas a natureza cíclica do clima.”

Já Tino Chrupalla, copresidente do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), afirmou recentemente a um jornalista que este foi um “verão completamente normal”. Ele classificou a mudança climática como um “hype”.

Mas afirmações como essas não resistem ao escrutínio científico.

Termômetro digital em fachada de farmácia
Termômetro na cidade alemã de Colônia atingiu a marca de 42,2°C em junhoFoto: teutopress/picture alliance

Como afirma a Nasa de forma direta: “As evidências científicas continuam mostrando que as atividades humanas (principalmente a queima de combustíveis fósseis) aqueceram a superfície da Terra e os oceanos, o que continua a afetar o clima do planeta”.

Não foi um “verão completamente normal”

O calor deste verão no hemisfério norte foi histórico.

Organismos independentes de monitoramento climático, incluindo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), o Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas da União Europeia e a Agência Meteorológica do Japão classificaram o mês passado como o mais quente ou o segundo mais quente já registrado.

As condições levaram usinas de energia a interromper operações, rodovias de concreto antigas a rachar sob o calor e edifícios mais antigos a superaquecer durante o dia e quase não resfriar à noite, expondo moradores a estresse térmico.

O calor extremo foi sentido em praticamente todo o planeta. Segundo dados da NOAA, julho foi o mês mais quente da história para a América do Norte, a África e a Ásia.

A parte continental dos Estados Unidos acabou de superar seu recorde de julho mais quente. Os recordes anteriores haviam sido estabelecidos em 1936, durante o “Dust Bowl”, período de severas tempestades de poeira que devastou as Grandes Planícies dos Estados Unidos, e em 2012, quando a América do Norte enfrentou uma intensa onda de calor.

A temperatura média diária da superfície dos oceanos também atingiu neste mês seu nível mais alto desde o início dos registros, em 1979, chegando a 21,1°C.

Isso resulta tanto do aquecimento provocado pela atividade humana quanto do El Niño, fenômeno climático que enfraquece os ventos alísios e aquece as águas superficiais do Pacífico tropical.

Como a mudança climática intensificou incêndios

Na Espanha, o partido de ultradireita Vox afirmou que os incêndios — que consumiram mais de 254 mil hectares nesta temporada — não estavam relacionados à mudança climática.

Entretanto, o consenso entre especialistas é de que o aumento das temperaturas globais desempenhou papel importante na intensa temporada de incêndios florestais, que também atingiu grandes áreas da França e do Canadá.

Brigadistas combatem o fogo em área rural na Espanha
Temperaturas mais altas favorecem incêndios florestais, como visto neste verão na EspanhaFoto: Umit Bektas/REUTERS

Um campo de pesquisa conhecido como ciência da atribuição investiga em que medida a mudança climática agrava eventos meteorológicos extremos, como os incêndios deste verão. Utilizando modelos climáticos, os pesquisadores comparam a probabilidade e a intensidade de um evento no clima atual com um cenário hipotético sem aquecimento causado pela atividade humana.

Análises realizadas neste verão mostraram que as temperaturas globais mais elevadas tornaram os incêndios na Espanha 20 vezes mais prováveis e dobraram a probabilidade de ocorrência de eventos semelhantes na França.

Isso se deve a um fenômeno conhecido como weather whiplash, ou “efeito chicote climático”, no qual os ecossistemas alternam bruscamente entre períodos úmidos e secos.

Quando o planeta aquece, a atmosfera consegue reter mais umidade, as chuvas se intensificam e a vegetação cresce. Depois, durante o verão, essa mesma atmosfera quente retira água do solo e das plantas, agravando as secas e ressecando a vegetação, que se transforma em combustível ideal para incêndios.

“Sabemos — e isso foi demonstrado matematicamente — que a probabilidade de ocorrência de condições propícias para sustentar e gerar esse tipo de evento foi alterada pela mudança climática”, afirmou à DW Francesca Di Giuseppe, coordenadora de um projeto de previsão de incêndios do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, sobre os incêndios deste verão na Espanha e na França.

Os efeitos em cadeia da mudança climática

De forma geral, este verão deixou marcas impossíveis de ignorar.

Rios e lagos em toda a Europa estão secando sob o calor intenso. Trechos dos rios Reno, Danúbio e Pó atingiram níveis historicamente baixos, tornando a navegação impossível em alguns pontos.

Isso desencadeia uma série de consequências.

Pequeno navio de carga navega pelo Reno
A seca e o calor fizeram com que o Reno atingisse níveis historicamente baixos, obrigando os navios de carga a transportar cargas mais levesFoto: Martin Meissner/AP Photo/picture alliance

Os custos da água potável podem aumentar significativamente, já que boa parte da água limpa consumida na Alemanha passa primeiro por margens fluviais cobertas por juncos, essenciais para o processo natural de filtragem.

As cadeias de abastecimento também sofrem impactos. Com os níveis dos rios mais baixos, as embarcações não conseguem transportar a mesma quantidade de carga, elevando os custos de produtos como aço e derivados de petróleo.

Nos Estados Unidos, as condições de seca estão causando estragos nas lavouras e na pecuária.

Em junho, o Departamento de Agricultura dos EUA informou que o período de dez meses entre agosto de 2025 e maio de 2026 foi o mais seco do país desde 1976-1977.

Atualmente, 59% da produção de sorgo do país está localizada em áreas atingidas pela seca.

Mais da metade da produção nacional de gado e quase dois terços da produção de trigo de primavera ocorrem sob condições de escassez hídrica.

Essas circunstâncias podem pressionar diretamente o abastecimento de alimentos, elevar preços e ameaçar os meios de subsistência das comunidades rurais.