Inventário de Carbono: Você sabe quanto polui? – Artigo 14
O que é um inventário de carbono? Imagine que uma empresa é uma pessoa. Assim como a gente faz exames de saúde para saber como está nosso corpo, uma empresa precisa fazer seu inventário de carbono para saber como estão os seus indicadores em relação ao clima. Eles mostram quanto de gases poluentes (CO₂ e outros) a empresa emite em um ano e de onde vêm essas emissões. O resultado é um relatório que responde a três perguntas: Quanto a empresa emite? De onde vêm essas emissões? Onde dá para reduzir?
Fernando Figueiredo – Coluna Envolverde – Emergência Climática: E nós com isso?
E por que isso importa? Porque só se gerencia o que se mede. Sem saber quanto se emite, a empresa e Nós não conseguimos definir metas de redução das nossas emissões. As SBTi – Metas Baseadas na Ciência, que trarei na próxima coluna vão mostrar onde muitas organizações já estão caminhando para comprovar cientificamente o que estão fazendo de fato, com metas ratificadas pela ciência para reduzir sua pegada no planeta.
Nesta coluna, vou trazer de forma objetiva, informações sobre o inventário, ferramentas e seus conceitos de escopos. É fundamental sabermos de onde vem e como podemos fazer para reduzir nossas emissões. arte superior do formulário
O Programa Brasileiro GHG Protocol
O Programa Brasileiro GHG Protocol foi criado em 2008 e foi responsável pela adaptação do método GHG Protocol ao contexto brasileiro. Desenvolveu ferramentas de cálculo para estimativas de emissões de gases do efeito estufa (GEE) com os objetivos de estimular a cultura corporativa de inventário de emissões no Brasil e proporcionar instrumentos e padrões internacional para contabilização das emissões e publicação dos inventários.
No site do GHG vocês podem ter acesso as ferramentas e todas as informações pertinentes sobre inventários e o que demanda para entrar nesta trilha como organização. Foi desenvolvido pelo FGVces e WRI, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), World Business Council for Sustainable Development (WBSCD) e 27 Empresas Fundadoras. No site você pode ver a evolução deste processo e as empresas que já estão nesta trilha.
O que é uma inventários de carbono e seus três escopos?
O GHG Protocol está dividido em três escopos. Pense neles como três “caixas” que, juntas, compõem todas as emissões de uma empresa;
Escopo 1 – O que a empresa emite diretamente “a chaminé dela”
São as emissões geradas pela própria operação da empresa, de coisas que ela possui ou controla, dentro do muro de suas instalações.
- A fumaça da caldeira ou forno da fábrica.
- O combustível dos carros e caminhões da frota própria
- Os gases refrigerantes que vazam do ar-condicionado e de suas operações
- Dentre outros que fazem parte da operação circunscrita a operação e site da empresa.
Escopo 2 — A energia que a empresa compra “a conta de luz”
São emissões que acontecem fora da empresa, mas que ela precisa usar para operar. O exemplo mais claro é a energia elétrica: quando a empresa usa energia da rede para operar, a usina que gerou essa energia tem uma emissão de CO₂ equivalente a matriz que ela gera. A empresa não emitiu diretamente, mas essas emissões aconteceram para suprir uma necessidade dela e por consequência é seu consumo, entrando na contabilização da organização.
Por isso hoje muitas empresas compram energias renováveis para abastecer suas operações diretamente, pois comprar energia de fontes renováveis como solar e eólica, diminuem a pegada de emissões do escopo 2.
Estes dois escopos são mais fáceis e diretos de medir, ter clareza e gerenciar, estão sobre controle da organização e suas operações … já o escopo 3 traz diversos desafios!
Escopo 3 — Toda a cadeia, “dos fornecedores aos consumidores”
O Escopo 3 é o maior desafio e tem grande importância na contabilização de carbono para os negócios. A ideia central é que a empresa não emite apenas o que sai da própria chaminé e consome de energia. Ela também é “responsável” pelas emissões de quem produz o que ela compra de matérias primas para sua produção e de quem usa o que ela vende.
É aqui que temos o maior desafio das organizações quando se pensa em inventários.
Pense no efeito dominó: quando a empresa compra matéria-prima, o fornecedor emitiu CO₂ para produzi-la. Quando o cliente usa o produto, ele também emite dependo do produto. Tudo isso precisa ser contabilizado na proporcionalidade e quantidade comprada e vendida dentro do Escopo 3.
Para a maioria das empresas, o Escopo 3 é a maior caixa de todas, na sua grande maioria, responde por mais de 80% das emissões totais das organizações. Ou seja: onde a empresa mais “polui” não está na fábrica dela, mas na cadeia de fornecedores. E estes também precisam fazer seu próprio inventário e olhar a sua cadeia de fornecedores. É uma rede que precisa ser construída de forma consistente pois demanda conhecimento e comprometimento de todos os elos.
Para entender melhor a complexidade do escopo 3 abaixo trago os itens que ajudam a enxergar os desafios que as organizações se deparam. Não são todas as 15 categorias que as empresas precisam reportar, pois depende do tipo de negócio, contudo algumas são mandatórias e precisam ser medidas.
Para organizar esse escopo, o GHG Protocol divide o Escopo 3 em 15 categorias, em dois blocos:
- A montante = tudo que acontece antes da empresa (os fornecedores)
- A jusante = tudo que acontece depois da empresa (os clientes).
São elas:
| Bloco | # | Categoria | Explicação |
|---|---|---|---|
| Antes (fornecedores) | 1 | Bens e serviços comprados | O que os fornecedores emitiram para fabricar o que a empresa compra (matéria-prima, insumos) |
| Antes | 2 | Bens de capital | O que foi emitido para construir máquinas, prédios e equipamentos que a empresa compra |
| Antes | 3 | Combustível e energia | O que foi emitido para extrair e transportar o combustível/energia que a empresa usa |
| Antes | 4 | Transporte até a empresa | O que foi emitido para trazer os produtos comprados até a empresa |
| Antes | 5 | Resíduos da operação | O que foi emitido para tratar e descartar o lixo na produção dos produtos comprados |
| Antes | 6 | Viagens a trabalho | O que foi emitido nas viagens de avião e locomoção dos funcionários a serviço |
| Antes | 7 | Deslocamento casa-trabalho | O que foi emitido no trajeto dos funcionários entre casa e empresa |
| Antes | 8 | Ativos alugados (antes) | O que foi emitido pelos equipamentos que a empresa aluga de terceiros |
| Depois (clientes) | 9 | Transporte até o cliente | O que foi emitido para entregar os produtos vendidos aos clientes |
| Depois | 10 | Processamento do produto | O que foi emitido quando o produto passa por outra empresa antes de chegar ao consumidor final |
| Depois | 11 | Uso do produto | O que foi emitido quando o cliente usa o produto (ex.: carro queimando gasolina) |
| Depois | 12 | Fim de vida do produto | O que foi emitido no descarte, reciclagem ou decomposição do produto após o uso |
| Depois | 13 | Ativos alugados (depois) | O que foi emitido pelos equipamentos que a empresa aluga para terceiros |
| Depois | 14 | Franquias | O que foi emitido pelas lojas franqueadas da empresa |
| Depois | 15 | Investimentos | O que foi emitido pelas empresas em que a organização investe |
Você pode estar pensando que é complexo fazer um inventário e ter tantas frentes! Realmente o escopo 3 tem maior complexidade, porém como coloquei, não são os 15 itens que fazem parte do processo de inventário das organizações.
Porém vou colocar que não é tão complexo quanto parece! Do trabalho, precisa ter pessoas que entendem o que estão fazendo e medindo e um comprometimento com a visão de futuro quando se fala sobre a pegada de carbono da organização.
No terceiro ano realizando inventários a organização terá seus escopos bem mapeados e com uma assertividade maior para construir metas de redução dentro de suas operações e de seus processos com fornecedores e consumidores. É um processo contínuo, uma contabilidade de carbono aos moldes que temos na contabilidade financeira.
Ainda temos muito a caminhar nesta frente, porém o GHG Brasil e o RPE, o Registro Público de Emissões são ferramentas que estão ao acesso de todos. O registro público é uma plataforma para divulgação que traz transparência, é rápida e simples para e acessar, lá você tem acesso aos inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa (GEE) das organizações participantes do Programa Brasileiro GHG Protocol. Ele tem a maior base de inventários de organizações da América Latina, com mais de 7.000 inventários registrados.
Já pensou em fazer o inventário do seu negócio? E o seu pessoal? Afinal não são somente as empresas que emitem, Nós como pessoas físicas também!
Boa leitura! Parte inferior do formulário
Organizações e Referências
GHG Protocol Brasil – Programa Brasileiro GHG Protocol | EAESP https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-sustentabilidade/projetos/programa-brasileiro-ghg-protocol#materiais-e-mais-informacoes
RPE – Registropublicodeemissoes https://registropublicodeemissoes.fgv.br/
WRI – GHG Protocol | WRI Brasil
CEBDS – Home – CEBDS https://cebds.org/
WBCSD – Quem somos – https://www.wbcsd.org/who-we-are/
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Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da “bolha” da sustentabilidade.
