Inteligência artificial: a nova aliada da reciclagem de embalagens
Através da inovação fomentada pela Sociedade Ponto Verde, os operadores industriais e as tecnologias unem forças para transformar infraestruturas em ecossistemas de conhecimento contínuo e automação.
O setor de resíduos de embalagens em Portugal encontra-se no limiar de uma transformação estrutural profunda, acelerada tanto pela urgência ambiental como pela disrupção tecnológica. Longe vão os tempos em que a triagem e a recolha dependiam exclusivamente de processos manuais e mecânicos. Hoje, a introdução de sistemas com inteligência artificial (IA), visão computacional e robótica avançada está a criar toda uma nova cadeia de valor. No centro desta transformação pautada pela inovação está um ecossistema colaborativo de várias áreas e visões, impulsionado pela Sociedade Ponto Verde.

“Se nos recordarmos, no início os processos eram manuais”, aponta Francisco Cal, administrador executivo do grupo EGF. “Os motoristas tinham de conhecer onde estavam os ecopontos e tinham de saber as rotas. Nas nossas fábricas, as linhas de triagem eram totalmente manuais”. À medida que as tecnologias foram surgindo, o setor acompanhou essa evolução. Na recolha, os ecopontos passaram a ser georreferenciados e os motoristas começaram a receber rotas em tablets. Nas linhas de triagem, surgiu a separação automática de metais ferrosos e, mais tarde, introduziram-se os primeiros leitores óticos. “Tudo isto parece banal hoje em dia, mas foram já saltos significativos”, recorda o administrador. Mais recentemente, o setor tem assistido a novas vagas de automação e digitalização.
O ecossistema colaborativo e o papel unificador da Sociedade Ponto Verde
Nesta transição, o desenvolvimento isolado de soluções tecnológicas revelou-se insuficiente face à enorme variabilidade estrutural dos resíduos de embalagens e à complexidade dos processos industriais.
“Neste panorama, a colaboração com os diversos players do setor em Portugal é fundamental, nomeadamente com as entidades gestoras do SIGRE. Destaca-se a parceria com a Sociedade Ponto Verde, onde o desenvolvimento no âmbito da inovação tem sido frutífero. O seu programa de inovação aberta, o Re-Source, é um bom exemplo. Nos últimos anos, desenvolvemos em conjunto um leque de projetos cofinanciados em robótica e inteligência para recolha e linhas de triagem” elogia Francisco Cal. “Com a junção de programas de inovação aberta, como o Re-Source, e o know-how técnico e operacional que nós aportamos, permite claramente acelerar a melhoria das soluções disponíveis no mercado e gerar valor para toda a cadeia” remata.
A eficiência logística e tecnológica na ALGAR
Os resultados práticos são perfeitamente visíveis em projetos concretos no terreno. No caso da ALGAR, operador responsável pela gestão de resíduos na região do Algarve, a aplicação de modelos analíticos avançados e ferramentas de IA traduziu-se em melhorias operacionais significativas. No âmbito do programa Re-Source, cofinanciado pela Sociedade Ponto Verde, foi concluído com resultados bastante positivos um projeto para a otimização da localização dos contentores efetuado na Algar.

Para Kelwin Fernandes, fundador e CEO da NILG.AI ( empresa de consultoria e estratégia em Inteligência Artificial), que desenvolveu a solução analítica para este desafio no projeto Re-Source, o papel da entidade gestora foi absolutamente crucial. “Eu diria que, sem a Sociedade Ponto Verde, esta iniciativa provavelmente não existiria”, confessa o CEO. “Não porque a necessidade não existisse do lado da Algar, não porque a solução não existisse do nosso lado, mas porque muitas vezes falta a cola, não é? Falta aquela pessoa que diga: ‘ Chegou a hora de resolver este problema.’ Foi isso efetivamente que a Sociedade Ponto Verde realizou no programa Re-Source”.

Kelwin Fernandes reforça que a SPV atua como o grande motor de ligação no setor: “Acredito que a Sociedade Ponto Verde é o dinamizador, digamos, da indústria e desta valorização de resíduos de embalagens em Portugal e terá, certamente, as peças e a necessidade e os objetivos claros de tornar isto realidade para todos os portugueses”.
O impacto desta sinergia reflete-se nos números do projeto-piloto, que gerou uma redução superior a 80% no tempo que os técnicos levam a avaliar as localizações e a instalar cada ecoponto, além de aumentar a taxa de aceitação por parte dos municípios.
“Já não vai bastar saber quanto se reciclou, vai ser necessário saber de onde veio, como foi tratado, para onde voltou. E isso transformará, aos poucos, completamente o nosso sistema atual, de uma infraestrutura operacional para um sistema de conhecimento contínuo sobre esses materiais”, sublinha Francisco Cal, administrador executivo do grupo EGF.
Além disso, a ALGAR tem avançado na implementação de projetos inovadores de robotização na triagem.
Da indústria clássica à reciclagem de embalagens inteligente: O caso de sucesso da Sentinel
O impacto das iniciativas promovidas pela Sociedade Ponto Verde estende-se igualmente ao meio tecnológico e empreendedor nacional, impulsionando a criação de novas competências industriais. Um exemplo prático é o da Sentinel uma empresa tecnológica que desenvolve soluções inovadoras baseadas em inteligência artificial e visão computacional, com foco principal no setor industrial.

“Nós avaliámos o mercado e percebemos que existia uma necessidade de sistemas deste tipo para a reciclagem de embalagens”, explica Álvaro Oliveira, cofundador e CTO da Sentinel. “Foi por isso que contatámos a Sociedade Ponto Verde e propusemos um projeto em que utilizávamos esse know-how nosso da tecnologia da indústria, destes sistemas inteligentes, aplicados à reciclagem”.
Nasceu assim o Sentinel Smart Sorting, uma solução inovadora que combina visão computacional e inteligência artificial. Com uma câmara que vê para além do comum, este sistema identifica automaticamente contaminantes na triagem dos resíduos e orienta os robôs para a remoção, permitindo eficácia na reciclagem de embalagens. Apoiada pela Sociedade Ponto Verde e em parceria com a Resinorte, Valorização e Tratamento de Resíduos Sólidos S.A, esta tecnologia permite uma economia circular mais eficiente e acessível para todos.

“Para isso dada a variabilidade do processo e a variabilidade de tudo o que envolve um centro de triagem, nós tivemos que utilizar, desde logo, inteligência artificial. Todo o nosso desenvolvimento focou-se muito na inteligência artificial para conseguir identificar corretamente estes contaminantes e depois dar instruções ao robô para remover esses contaminantes da linha, de forma automática”, explica Álvaro Oliveira.
Um dos grandes objetivos é também valorizar os colaboradores e melhorar as condições de trabalho: “O ambiente em que se trabalha num centro de triagem não é fácil. Não é fácil trabalhar, e temos muito respeito pelas pessoas que lá trabalham. São pessoas que trabalham todos os dias a tratar muitos resíduos e, como devem imaginar, não é fácil”, admite o CTO da Sentinel.
Trata-se de um projeto com a marca made in Portugal que iniciou o seu percurso em 2021. A partir deste daqui ganhou maturidade para criar sistemas novos com extrema facilidade, aplicando- -os tanto na reciclagem de embalagens como nos setores automóvel, alimentar ou farmacêutico. “A Sociedade Ponto Verde acabou por contribuir também para o crescimento da Sentinel. A Sentinel acaba por criar tecnologia e devolver à sociedade também parte deste crescimento. Temos uma equipa e uma empresa em grande crescimento, e acho que a aposta da Sociedade Ponto Verde no nosso projeto foi importante”, destaca Álvaro Oliveira.
Da atitude reativa à gestão preventiva
À medida que as embalagens colocadas no mercado se tornam complexas, misturadas e difíceis de separar, os sistemas de triagem têm de se tornar mais inteligentes, adaptáveis e autónomos. Com os dados em tempo real, a gestão deixa de olhar apenas para o resultado final através de amostras periódicas e passa a compreender o comportamento do processo desde o seu início, mudando de reativa para uma gestão preventiva.
A continuação da boa parceria na inovação com a Sociedade Ponto Verde
No entanto, é essencial que sejam acompanhadas por políticas fortes de prevenção e sensibilização. Se os cidadãos e as empresas não cooperarem e não separarem os resíduos na origem, os materiais perdem o valor de mercado de forma drástica e sofrem processos de degradação química ao longo de todo o processo de tratamento. Esta perda de qualidade torna muito mais difícil a sua reciclabilidade e reintrodução no nosso dia.
É esta a visão que os operadores pretendem continuar a trabalhar com a Sociedade Ponto Verde, esperando a continuação da boa parceria na inovação e colaboração com o programa Re-Source e iniciativas inovadoras que a entidade possa vir a desenvolver.
