Guterres propõe 7 passos para enfrentar as “duas crises” globais
Chefe da ONU alerta sobre a dependência dos fósseis e sugere medidas urgentes para enfrentar a crise climática e a crise energética
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou um forte apelo à ação climática durante a Semana de Ação Climática em Londres (London Climate Action Week), ao afirmar que o mundo enfrenta simultaneamente duas grandes crises interligadas: a crise climática e a crise energética. No seu discurso, sublinhou que ambas resultam de um mesmo fator – a dependência dos combustíveis fósseis – e exigem uma resposta comum, centrada numa transição rápida e justa para energias limpas.
Para romper em definitivo com o que considera “modelo falido” e garantir a segurança energética global, o chefe da ONU apresentou sete medidas essenciais para enfrentar as crises.
Como primeiro passo, ele sugeriu limitar o aquecimento ao nível de 1,5°C e combater o metano, com foco na redução drástica de resíduos, na modernização da agricultura e na eliminação total de vazamentos na indústria de petróleo e gás.
A segunda medida é que seja rompida a dependência e modernizada a infraestrutura taxando “lucros enormes das empresas petrolíferas” e direcionando esses recursos para apoiar famílias vulneráveis. Além disso, ele pediu uma reforma às redes de transmissão elétrica para serem tratadas como infraestrutura estratégica, com reformas regulatórias e licenciamentos que apoiem a era da eletrificação.

Como terceiro ponto, o secretário-geral pediu que seja confrontada a pegada ecológica da inteligência artificial cujas instalações podem consumir mais eletricidade do que a maioria das nações e gastar água suficiente para abastecer 1,3 bilhão de residentes da África Subsaariana por um ano até 2030. Tudo isso para resfriar seus servidores.
Como quarto passo, António Guterres menciona a garantia de uma transição justa e coerente pela criação de um espaço prático e unificado entre produtores, consumidores, indústrias e trabalhadores para alinhar as metas de corte de combustíveis fósseis com a segurança econômica regional.
A quinta medida é proteger comunidades com adaptação imediata. Esse passo requer estabilidade e segurança e os países precisam integrar a resiliência climática em seus planejamentos nacionais, criar sistemas de seguros eficazes e implementar alertas precoces de desastres para todos em cumprimento ao compromisso de duplicar, e futuramente triplicar, o financiamento para a adaptação.
Como sexta etapa, a proposta é transformar o atual sistema financeiro global para que países ricos cumpram a promessa de entregar os US$ 300 bilhões acordados e traçar um caminho claro para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.
Para o chefe da ONU, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, que viram sua capacidade de empréstimo subir entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões, devem usar esse capital de forma agressiva. Os fundos de longo prazo chegariam a 50 anos e as garantias públicas atrairiam o investimento privado em mercados emergentes.
Como sétimo estágio, Guterres propõe a defesa da ciência e da integridade da informação. Ele explicou que a desinformação adia as ações climáticas e é usada de forma deliberada para proteger interesses financeiros estabelecidos.

A ONU lidera a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas em favor da independência científica, dos jornalistas ambientais e do acesso irrestrito da sociedade civil a dados fiáveis e evidenciados.
Discurso em Londres
Em seu discurso emblemático, Guterres alertou para o agravamento da crise climática, destacando que os últimos onze anos foram os mais quentes já registrados e que fenômenos climáticos extremos estão tornando-se mais frequentes e destrutivos. Segundo o secretário-geral da ONU, o fenômeno El Niño poderá intensificar o aquecimento global, colocando em risco a meta do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C.
Entre as consequências mais preocupantes, apontou o colapso dos recifes de coral, o acelerado degelo das regiões polares, a subida do nível do mar, possíveis alterações na Amazônia e mudanças nos sistemas oceânicos. Guterres também destacou a crise energética, agravada por tensões geopolíticas no Médio Oriente, que tem provocado impactos econômicos globais, especialmente nos países em desenvolvimento.

Guterres ainda ressaltou que os gigantes dos combustíveis fósseis lucram com a dor coletiva. Um dos exemplos são as oito maiores empresas do setor petrolífero que registraram um lucro extra de US$ 6,5 bilhões apenas no primeiro trimestre deste ano.
Outro ponto alto do pronunciamento foi a abordagem sobre o custo oculto da Inteligência Artificial. Pela primeira vez, o secretário-geral cobrou ação imediata das gigantes de tecnologia. Até 2030, as operações de IA vão consumir mais eletricidade do que a maioria das nações.
A capital britânica é, no momento, o centro das decisões globais com mais de 750 debates envolvendo participantes das áreas política, financeira e ONGs. A Semana de Ação Climática em Londres segue até 28 de junho.
