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Entenda por que cientistas brasileiros buscam novo tratamento para a esquistossomose

Entenda por que cientistas brasileiros buscam novo tratamento para a esquistossomose

Doença é classificada como negligenciada pelo Ministério da Saúde e pacientes enfrentam dificuldades com o uso do remédio recomendado

Antes de passar pela triagem, consulta médica e pelo tratamento medicamentoso, muitas doenças podem ser evitadas pelo saneamento básico de qualidade. No Brasil, cerca de 90 milhões de pessoas não possuem acesso à coleta de esgoto, o que as expõe a doenças graves como a esquistossomose – conhecida como “barriga d’água” ou “doença dos caramujos” –, causada pelo verme Schistosoma mansoni.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica a esquistossomose como uma doença tropical negligenciada

A OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica a esquistossomose como uma doença tropical negligenciada — Foto: Wikimedia Commons

Hoje, o tratamento mais comum para a doença é feito com o remédio praziquantel, cujos comprimidos são grandes e amargos, dificultando a sua administração, sobretudo em crianças. Cientistas também já observaram vermes que desenvolveram resistência, o que motivou pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em conjunto com a Fiocruz, a desenvolverem um novo medicamento.

Segundo Floriano Paes, da Fiocruz, o objetivo é criar “medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, declarou, em comunicado.

A pesquisa, que contou com a colaboração de cientistas da Faculdade de Medicina de Wisconsin (Estados Unidos) e da Universidade Aberystwyth (Reino Unido), foi publicada na ACS Infectious Diseases.

Desenhando uma nova molécula

No processo de descobrir uma nova molécula, a equipe de pesquisadores identificou que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. “Porém , nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, explicou Floriano.

Foram sintetizadas oito moléculas que possuem estrutura química semelhante ao medicamento de referência, com pequenas modificações feitas pelos cientistas. Nesse processo, cada um dos compostos passou por três etapas de testes para definir a eficácia contra a atividade do Schistosoma mansoni: esquistossômulos, vermes jovens e vermes adultos.

Pesquisadores utilizaram análises de imagens de microscopia para avaliar efeitos de compostos sobre diferentes estágios da vida do verme 'Schistosoma mansoni' — Foto: Oregon State University/Flickr
Pesquisadores utilizaram análises de imagens de microscopia para avaliar efeitos de compostos sobre diferentes estágios da vida do verme ‘Schistosoma mansoni’ — Foto: Oregon State University/Flickr

Os testes também revelaram que as substâncias atuam de forma semelhante ao praziquantel, já que elas também são capazes de se ligarem ao TRPM (potencial receptor transitório) – uma proteína – do verme.

Apesar das potencialidades, os pesquisadores reconheceram que as substâncias não se mostraram mais potentes que o medicamento de referência contra vermes adultos. Por outro lado, algumas características observadas se mostraram interessantes para testes de otimização estrutural, importante para resolver problemas associados ao gosto amargo e ao tamanho do comprimido.

“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade”, afirmou Floriano. O próximo passo é dar continuidade à pesquisa com ensaios e experimentos em seres vivos, como camundongos e verificar as possibilidades de melhora do futuro remédio.