17 de junho – Dia Mundial de combate à desertificação
17 de junho, é o Dia Mundial de Combate à Seca e à Desertificação, data instituída pela ONU em 1994. Mais do que um marco no calendário, este dia é um apelo urgente à sociedade para nos conscientizarmos sobre a degradação dos solos e a necessidade de proteger nossas regiões semiáridas.
Em 2026, o tema “Pastagens: Reconhecer. Respeitar. Restaurar.” reforça a necessidade de valorizar ecossistemas essenciais para o equilíbrio ambiental, a segurança hídrica e a resiliência climática.
A batalha contra a desertificação não é apenas uma pauta de justiça ambiental, social e econômica. Quando o solo perde sua propriedade e se torna infértil devido à exploração irresponsável dos recursos naturais e ao desmatamento, comunidades inteiras perdem sua segurança alimentar, sua renda e são forçadas a migrar em busca de sobrevivência.
O tamanho do desafio
Estudos do IPES-Food apontam que o sistema alimentar predominante tem causado impactos devastadores, com 20% a 40% da área terrestre global já considerada moderada ou severamente degradada.
No Brasil, que integra a Convenção Internacional de Combate à Desertificação desde 1998, o cenário exige atenção máxima:
- Impacto no Nordeste: O fenômeno atinge de forma grave cerca de 10% da região semiárida brasileira, afetando os nove estados nordestinos e o norte de Minas Gerais.
- Prejuízo econômico: Estima-se que as perdas cheguem a U$ 300 bilhões por ano, e o custo para recuperar as áreas mais afetadas gira em torno de U$ 2 bilhões para um período de 20 anos.
A conta não fecha né??
Se com US$ 2 bilhões daria para recuperar as áreas mais afetadas, o que está faltando? O problema é que os valores precisariam vir, em grande parte, de investimentos públicos (governos e órgãos internacionais), enquanto as perdas de US$ 300 bilhões são pulverizadas: afetam o pequeno agricultor que perde a safra, o preço dos alimentos nas cidades e a economia local. Como o retorno do investimento não vai direto para o caixa de quem financia, há falta de vontade política para alocar esse recurso.

O caminho para a convivência sustentável
Apesar dos dados alarmantes, especialistas e pesquisadores — inclusive dentro das universidades — mostram que a regeneração é perfeitamente possível. Proteger e recuperar zonas áridas fortalece a segurança alimentar e combate diretamente as alterações climáticas.
Para virar esse jogo, precisamos focar em ações práticas:
- Sistemas Alimentares Sustentáveis: Práticas de produção que respeitem os ciclos do solo, como a rotação de culturas, plantio direto, adubação verde e técnicas que evitem a poluição.
- Preservação Direta: Combate firme ao desmatamento ilegal, reflorestamento, conservação e recuperação das nossas matas ciliares.
- Agropecuária Regenerativa: Apoio a modelos de produção que convivam harmonicamente com o semiárido, gerando renda sem esgotar a terra.
Onde a UFPB entra nisso?
A CGA contribui para esse compromisso por meio de ações voltadas ao combate ao desperdício de água, à preservação ambiental e à promoção de práticas sustentáveis como o programa de compostagem, fortalecendo a convivência responsável com os desafios ambientais do semiárido.
A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desempenha um papel de liderança científica e estratégica no combate à desertificação e na mitigação dos efeitos da seca no semiárido nordestino. As ações da instituição se dividem entre a formulação de políticas públicas, o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas e a atuação direta em campo no bioma Caatinga.
- Estudos sobre Degradação e Desertificação: Dados extraídos dos relatórios de projetos financiados pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq) e pelo CNPq. Entre eles, destaca-se o projeto “Mudanças ambientais, erosão dos solos e desertificação no Semiárido da Paraíba”, liderado pelo Prof. Dr. Rafael Albuquerque Xavier, focado em monitorar áreas críticas como o Cariri paraibano.
- Projeto Nascente Viva: Em parceria com a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), a UFPB atua na recuperação das nascentes do Rio Paraíba. O foco é recompor a vegetação ciliar para garantir a segurança hídrica e frear a degradação do solo ao longo da bacia.
- Parceria com o Observatório da Caatinga / INSA: Estudos que validam o comportamento hidrológico do semiárido e o desenvolvimento de modelos (como o modelo STEEP) criados para calcular com precisão a partição de energia e a perda de água por evapotranspiração no bioma, otimizando a irrigação agrícola.
- Mapeamento da “Sertanização” do Agreste: Pesquisas recentes da UFPB alertam que cerca de metade do Agreste já apresenta características ecológicas severas de transição para o Sertão. Os cientistas monitoram municípios como Cabaceiras, São João do Cariri e São José dos Cordeiros para propor soluções de reversão desse cenário.
- Índices Biofísicos de Degradação: Pesquisadores criaram metodologias específicas para avaliar a perda de fertilidade do solo (como Luvissolos Crômicos, típicos da região) e mensurar o nível de resiliência da cobertura vegetal remanescente em períodos de estiagem extrema.
- Manejo Sustentável do Solo: Estudos promovidos por centros como o Centro de Ciências Agrárias (CCA) avaliam técnicas de correção da acidez e fertilidade do solo, promovendo uma transição para a agricultura familiar ecológica de baixo impacto.

O combate à desertificação está diretamente ligado à Agenda 2030 da ONU, sendo um tema transversal que impacta a segurança alimentar, a erradicação da pobreza e a resiliência climática. O principal objetivo dedicado a esse tema é o ODS 15, mas existem outros diretamente conectados. Veja os principais:
ODS 15: Vida Terrestre (O Alvo Principal)
Este é o coração da engrenagem contra a degradação das terras. A Meta 15.3 estabelece explicitamente o compromisso global com o tema:
“Até 2030, combater a desertificação, restaurar a terra e o solo degradados, incluindo terrenos afetados pela desertificação, secas e inundações, e empenhar-se para alcançar um mundo neutro em termos de degradação do solo.”
ODS 2: Fome Zero e Agricultura Sustentável
A desertificação reduz drasticamente a produtividade das terras agrícolas. O combate a esse fenômeno é essencial para:
- Garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos (Meta 2.4).
- Implementar práticas agrícolas resilientes que aumentem a produtividade e ajudem a manter os ecossistemas, fortalecendo a capacidade de adaptação às mudanças climáticas e às secas.
ODS 6: Água Potável e Saneamento
A degradação do solo e a desertificação alteram profundamente o ciclo hidrológico, secando fontes de água e reduzindo a infiltração no lençol freático. O combate à desertificação ajuda a:
- Proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas, florestas, áreas úmidas, rios, aquíferos e lagos (Meta 6.6).
ODS 13: Ação Contra a Mudança Global do Clima
Solos desertificados perdem a capacidade de armazenar carbono, liberando-o na atmosfera e agravando o efeito estufa. Além disso, a seca severa é uma consequência direta das mudanças climáticas. Trabalhar contra a desertificação significa:
- Reforçar a resiliência e a capacidade de adaptação a riscos relacionados com o clima e catástrofes naturais (Meta 13.1).
Outras conexões importantes
- ODS 1 (Erradicação da Pobreza): Populações de regiões áridas e semiáridas (como o semiárido brasileiro) são as mais vulneráveis à perda de produtividade da terra, tornando o combate à desertificação uma ferramenta de justiça social e segurança econômica (Meta 1.5).
- ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis): Exige a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais, reduzindo o sobrepastoreio, o desmatamento e o uso excessivo de químicos que aceleram a degradação do solo.
“Quando o poço seca, entendemos o real valor de cada gota. Sustentabilidade é aprender a cuidar da água antes que a fonte desapareça.“

