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Regulamentações diminuem químicos em ecossistema marinho

Regulamentações diminuem químicos em ecossistema marinho

Regulamentações adotadas por governos e organismos internacionais reduziram significativamente os níveis de PFAS em ovos de aves marinhas

A presença de substâncias químicas persistentes conhecidas como PFAS, popularmente chamadas de “químicos eternos”, caiu drasticamente em ovos de aves marinhas ao longo das últimas cinco décadas. A conclusão é de uma equipe de cientistas que analisou amostras coletadas ao longo de 55 anos e observou uma redução expressiva nos níveis desses compostos após a adoção de regulamentações na América do Norte. Embora os PFAS tenham registrado crescimento exponencial desde a década de 1960, as concentrações atingiram o pico nos anos 1990 e passaram a diminuir conforme aumentava a supervisão governamental sobre sua produção e uso.

Os PFAS formam uma ampla classe de substâncias químicas utilizadas na fabricação de revestimentos resistentes à água, manchas e calor presentes em diversos produtos. Por sua persistência no ambiente, esses compostos se espalharam globalmente e estão associados a múltiplos efeitos nocivos à saúde. Publicado na revista Applied Toxicology, o estudo avaliou as concentrações de PFAS em ovos de gansos-patola-do-norte na Ilha Bonaventure e identificou uma queda de cerca de 70% e, em alguns casos, ainda maior em alguns dos compostos mais utilizados. Entre eles, o ácido perfluorooctanossulfônico (PFOS) apresentou redução de 74%, enquanto o ácido perfluorooctanoico (PFOA) registrou queda de 40%. Já o ácido perfluorohexanossulfônico (PFHxS) teve concentrações 70% menores em comparação aos níveis iniciais.

gansos-patola-do-norte,  Ilha Bonaventure
Foto: Hans-Jörg B. | Pexels

Segundo Raphael Lavoie, coautor do estudo e ecotoxicologista do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Canadá, os resultados evidenciam uma mudança importante ao longo do período analisado. “Observamos um aumento incrível até um pico em que as concentrações parecem estar acima do limite toxicológico para essas aves, e então elas diminuem de forma significativa”, disse ao jornal The Guardian. “As regulamentações estão surtindo efeito.” Os pesquisadores destacam que o foco em aves marinhas e a longa série histórica representam diferenciais importantes da pesquisa, já que os dados abrangem tanto o período de expansão da produção de PFAS quanto sua posterior redução, impulsionada pelo reconhecimento dos riscos ambientais e à saúde no final dos anos 1990 e início dos anos 2000.

A Ilha Bonaventure abriga a maior colônia reprodutora de gansos-patola do mundo. Essas aves pescetarianas estão diretamente expostas à contaminação por PFAS devido à proximidade da ilha com a Hidrovia do São Lourenço. Por estar conectada aos centros industriais dos Grandes Lagos, ao norte e ao sul da fronteira entre Canadá e Estados Unidos, a região recebeu quantidades significativas dessas substâncias ao longo do século XX. Os PFAS contaminaram os peixes, que posteriormente contaminaram os gansos-patola e seus ovos. Conforme relatado por Tom Perkins, do jornal britânico The Guardian, a empresa química M3 reduziu drasticamente sua produção comercial de PFAS no final da década de 1990 em resposta ao aumento do escrutínio regulatório. Em 2015, o setor químico firmou um acordo com a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) para eliminar gradualmente a produção de PFOA e PFOS. Seis anos antes, durante a Convenção de Estocolmo das Nações Unidas, várias das substâncias avaliadas pelo estudo já haviam sido incluídas em processos de eliminação.

Entre elas estavam o PFOA e o PFHxS, enquanto o PFOS passou a ter seu uso restrito a todos os produtos, com exceção das espumas de combate a incêndio. Para os autores, os resultados oferecem uma demonstração abrangente de que essas regulamentações têm sido eficazes na redução da carga tóxica dos PFAS no meio ambiente. Ainda assim, por serem substâncias extremamente persistentes, motivo pelo qual recebem o apelido de “químicos eternos”, os pesquisadores ressaltam a importância de manter a vigilância ambiental e regulatória. A preocupação é que compostos semelhantes liberados atualmente no ambiente possam permanecer ativos e acumulados por tempo indeterminado.