Antártica perde gelo marinho em ritmo recorde
Estudos indicam que o aquecimento dos oceanos acelera o derretimento do gelo antártico e pode elevar o nível do mar mais rápido do que o previsto
Durante muito tempo, a Antártica foi vista pelos cientistas como uma espécie de exceção em meio ao avanço da crise climática. Enquanto o Ártico registrava perdas aceleradas de gelo, o continente antártico parecia relativamente protegido desse processo. Esse cenário, no entanto, começou a mudar drasticamente em 2015, quando o gelo marinho que cerca a região deixou de se expandir e passou a diminuir de forma intensa e contínua. Agora, pesquisadores afirmam ter identificado os fatores que desencadearam essa mudança e os resultados reforçam os alertas sobre os impactos do aquecimento global, segundo destacam os veículos jornalísticos CNN e Independent.
Um estudo publicado na revista Science Advances, conduzido por pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, concluiu que três eventos distintos alteraram profundamente o equilíbrio do Oceano Antártico, provocando um rápido processo de derretimento do gelo marinho. Segundo os cientistas, as mudanças climáticas causadas pela atividade humana intensificaram os ventos na região, fazendo com que, a partir de 2013, águas quentes e salgadas das profundezas do oceano fossem empurradas para camadas mais próximas da superfície. Esse movimento alterou a dinâmica térmica do oceano e criou condições favoráveis para a perda acelerada de gelo.
De acordo com a pesquisa, a situação se agravou há onze anos, quando ventos ainda mais intensos passaram a misturar diretamente o calor das águas profundas com a camada superficial do oceano. O efeito foi um derretimento rápido do gelo marinho, principalmente na Antártica Oriental. Desde 2018, os pesquisadores observam que o sistema entre oceano e gelo entrou em um ciclo difícil de interromper: com menos gelo disponível para derreter, a superfície do mar permanece mais quente e salgada, impedindo que a cobertura de gelo consiga se recuperar nos níveis anteriores.

O oceanógrafo Aditya Narayanan, principal autor do estudo, afirma que a transformação foi tão extrema que áreas de gelo equivalentes ao tamanho da Groenlândia desapareceram, contribuindo para os níveis recordes de baixa registrados em 2023. Segundo ele, as conclusões do estudo são especialmente preocupantes porque a perda massiva de gelo marinho pode desestabilizar importantes sistemas de correntes oceânicas ao redor do planeta, acelerando ainda mais o aquecimento global. O pesquisador alerta que o planeta pode aquecer “muito mais rápido do que o esperado”.
Outro estudo, desta vez publicado na revista Nature Communications, reforça as preocupações ao indicar que o aquecimento dos oceanos está corroendo as plataformas de gelo da Antártica pela parte inferior em um ritmo mais acelerado do que os modelos científicos projetavam até agora. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Centro de Pesquisa Polar iC3, na Noruega, e sugere que a elevação global do nível do mar pode acontecer mais rapidamente do que o previsto anteriormente, segundo explicam Earth.com, Science Daily e phys.org.
As plataformas de gelo, grandes extensões de geleiras que flutuam sobre o oceano, funcionam como estruturas de contenção naturais, reduzindo a velocidade com que enormes massas de gelo avançam em direção ao mar. Durante o estudo, os pesquisadores descobriram que sulcos longos em formato de canais, localizados na parte inferior dessas plataformas, podem aprisionar águas oceânicas relativamente quentes. Esse fenômeno intensifica o derretimento em determinadas áreas e compromete ainda mais a estabilidade das formações de gelo. “Descobrimos que o formato da parte inferior da plataforma de gelo não é apenas uma característica passiva. Ela pode reter ativamente o calor do oceano exatamente nos locais onde o derretimento extra é mais importante”, explica Tore Hattermann, um dos líderes da pesquisa.
No início deste ano, o jornal norte-americano The New York Times acompanhou uma missão científica à Antártica liderada por Won Sang Lee, pesquisador do Korea Polar Research Institute. A equipe, formada por nove cientistas, engenheiros e guias, estava na etapa final de uma expedição planejada havia mais de cinco anos. O objetivo era perfurar a geleira Thwaites, que está em processo de derretimento, para alcançar a vasta cavidade oceânica localizada abaixo dela. Em várias geleiras da Antártica, o recuo do gelo acontece de forma lenta e quase imperceptível. Em Thwaites, porém, os efeitos das mudanças são visíveis e constantes. “Lá, dá para sentir”, afirmou Lee, de 52 anos. “Vai desaparecer, mais cedo ou mais tarde. Não em escalas de tempo centenárias ou milenares. Pode acontecer durante a nossa vida ou na próxima geração.”
