Respiração bucal, em vez da nasal, pode levar a problemas de sono, aprendizagem e desenvolvimento
A respiração nasal é especializada na realização da filtragem do ar, filtrando impurezas, através dos cílios e do muco, e aquecendo e umidificando o oxigênio encaminhado para o pulmão
A respiração bucal é um distúrbio comum, principalmente em crianças que encontram dificuldades em respirar pelo nariz, que é a forma correta. A literatura científica mostra que a prevalência de respiração bucal em jovens é bastante variável, dependendo de critérios diagnósticos, faixa etária e população estudada. Mas, de forma geral, os dados mais consistentes de revisões indicam prevalência entre 11% e 56% deste fenômeno em crianças.

Essa disparidade entre os números, explica o professor Murilo Fernando Neuppmann Feres da Faculdade de Odontologia da USP, especializado em Ortodontia, é relacionada a como a respiração oral é identificada. “Não são utilizados parâmetros objetivos para determinar o diagnóstico, é um conjunto de sinais que devem estar presentes em alguma quantidade para que a pessoa seja classificada como respiradora bucal. Essencialmente, o diagnóstico final, mesmo tendo um grau de subjetividade, é determinado pelo otorrinolaringologista, mas o ortodontista pode ajudar a identificar sinais sugestivos, através de aspectos da face do paciente, dessa síndrome.”
Por que a respiração nasal é a correta?
Diferentemente da boca, a respiração nasal é especializada na realização da filtragem do ar, filtrando impurezas, através dos cílios e do muco, e aquecendo e umidificando o oxigênio encaminhado para o pulmão. Além disso, ela protege as vias aéreas de infecções, ao contrário da boca, que não prepara o ar e pode causar secura e irritação. Também permitindo maior oxigenação para organismo, resultando em até 10%-20% mais oxigênio nos tecidos e melhor capacidade pulmonar.
Ademais, as cavidades nasais produzem Óxido Nítrico (NO), um gás que, ao ser levado aos pulmões, auxilia na dilatação dos vasos sanguíneos e aumenta a eficiência da troca gasosa. Sem essa substância, a absorção de oxigênio pode ser até 15% menor, o que explica a fadiga crônica de quem respira apenas pela boca.
Causas e consequências

Luiz Fernando Manzoni Lourençone, professor da Faculdade de Medicina de Bauru (FMBRU) da Universidade de São Paulo e especialista em Otorrinolaringologia, explica o porquê de algumas crianças se acostumarem com esse tipo de respiração. “Na maior parte das vezes, a criança não escolhe respirar pela boca, ela passa a fazer isso porque encontra dificuldade para respirar pelo nariz. As causas mais comuns são rinite alérgica, aumento das adenoides (carne esponjosa), aumento das amígdalas e outras obstruções nasais. Quando esse quadro persiste, a respiração bucal deixa de ser algo eventual e passa a se tornar habitual, inclusive durante o sono.”
“As consequências podem ser graves. No sono, a criança pode roncar, dormir mal, ter sono agitado e até apresentar pausas respiratórias. Durante o dia, isso pode se refletir em cansaço, irritabilidade, dificuldade de atenção, piora do desempenho escolar e alterações de comportamento. Quando mantida por muito tempo, a respiração através da boca também pode interferir no desenvolvimento da face e da arcada dentária, favorecendo alterações de mordida, palato mais estreito e alongamento facial”, aponta o otorrinolaringologista.
Nesse aspecto ortodôntico, Feres comenta que a abertura da boca para respirar resulta numa alteração postural da mandíbula. “A mandíbula desce, e todas as alterações ortodônticas futuras são decorrentes dessa nova postura mandibular. A primeira consequência é o que chamamos de atresia maxilar, onde o palato fica mais estreito, pois a língua não ocupa seu lugar natural no topo da boca, podendo resultar em uma mordida cruzada posterior, que é mais grave. Já a segunda decorrência é o tipo facial vertical, na qual ocorre um alongamento da face do indivíduo, devido a essa posição da mandíbula. Por último, ocorre uma protrusão dos dentes anteriores, que avançam pelo fato de a pessoa estar com os lábios entreabertos, não aplicando a força necessária na dentição.”
Corrigindo o costume
Para solucionar o problema, Lourençone ressalta que é importante entender que não basta apenas orientar a criança a manter a boca fechada. “É preciso identificar e tratar a causa da dificuldade respiratória, por isso, a avaliação médica é fundamental. O tratamento pode incluir controle de rinite, lavagem nasal, medicações específicas e, em alguns casos, cirurgia para retirada de adenoides e/ou amígdalas, quando há obstrução importante. Quanto mais cedo o problema é identificado, maiores as chances de evitar repercussões no sono, no aprendizado e no desenvolvimento facial.”
Por último, Feres ressalta a importância de três especialistas distintos, uma tríade composta de otorrinolaringologista, ortodontista e o fonoaudiólogo, para não só tratar as consequências do problema, mas das causas também. “O otorrino trata dos antecedentes, ou seja, ele realiza a desobstrução das vias aéreas, que ‘forçam’ a criança a respirar pela boca. Caso surjam as consequências, os responsáveis tornam-se os ortodontistas, que usam aparelhos ortodônticos e ortopédicos para a diminuição desses problemas, e, depois, os fonoaudiólogos, que realizam o treinamento muscular e funcional da respiração nasal.”
