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“Reciclagem não resolve sozinha o problema do lixo”, diz especialista; menos de 10% do plástico é reciclado

“Reciclagem não resolve sozinha o problema do lixo”, diz especialista; menos de 10% do plástico é reciclado

Especialistas apontam que decisões industriais tomadas antes do consumo determinam o destino dos resíduos e limitam a eficácia da reciclagem

A ideia de que reciclar é suficiente para lidar com a crise global de resíduos vem sendo colocada em xeque por dados e pela própria lógica industrial.

Atualmente, menos de 10% do plástico produzido no mundo é efetivamente reciclado, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, a geração de resíduos sólidos segue em ritmo acelerado, podendo atingir 3,86 bilhões de toneladas anuais até 2050, de acordo com projeções do Banco Mundial, que estima um crescimento de cerca de 50% em relação aos níveis atuais.

Nesse contexto, emerge um diagnóstico ainda pouco presente no debate: o problema do lixo não começa no descarte, mas no momento em que o produto é projetado.

“O ponto que ainda não entrou no centro do debate é que o lixo não nasce no momento do descarte, ele nasce no momento em que o produto é projetado”, afirma, em entrevista ao Um Só Planeta, o CEO da Indústria Fox e presidente do Instituto Nacional de Economia Circular (Inec), Marcelo Souza. “A sociedade discute muito o comportamento do consumidor e muito pouco as decisões industriais que definem o destino dos produtos desde o início”.

A avaliação modifica o foco da discussão sobre resíduos, tradicionalmente centrada na coleta seletiva e no comportamento individual, para a estrutura produtiva global. E de acordo com o especialista, lá, são tomadas as decisões que determinam se um material poderá ou não retornar ao ciclo econômico.

Tarde demais?

Embora seja considerada uma ferramenta essencial, a reciclagem atua, na maioria dos casos, quando o problema já está consolidado. Isso ocorre porque características fundamentais dos produtos, como tipo de material, forma de montagem e presença de misturas complexas, são definidas ainda na fase de design.

“Quando o produto chega ao fim da vida útil, grande parte das decisões que determinam se ele poderá ou não ser reciclado já foi tomada lá atrás”, explica Souza. “A reciclagem é fundamental, mas muitas vezes ela entra em cena quando o problema já está estruturalmente definido”.

 

Presidente do Instituto Nacional de Economia Circular, Marcelo Souza defende que a reciclagem é essencial, mas insuficiente para resolver um sistema produtivo ainda baseado no descarte — Foto: Divulgação/Indústria Fox
Presidente do Instituto Nacional de Economia Circular, Marcelo Souza defende que a reciclagem é essencial, mas insuficiente para resolver um sistema produtivo ainda baseado no descarte — Foto: Divulgação/Indústria Fox

O cenário descrito significa que a indústria de reciclagem precisa lidar com materiais de difícil separação, alto grau de contaminação e baixo valor econômico, o que limita a quantidade de material reaproveitado. Equipamentos eletrônicos, por exemplo, combinam plásticos, metais e componentes integrados que exigem processos complexos e custosos para desmontagem e recuperação.

Esse descompasso ajuda a explicar por que, apesar da expansão de programas de coleta seletiva em diversas cidades, a taxa global de reciclagem segue baixa. “Não estamos diante apenas de uma falha de coleta ou de capacidade industrial. Em muitos casos, o próprio produto não foi pensado para voltar ao ciclo produtivo”, reitera o executivo.

Limites

Insistir somente na reciclagem como principal estratégia pode gerar uma percepção distorcida sobre a dimensão do problema. Isso porque o modelo dominante de produção e consumo ainda segue uma lógica linear, que envolve extrair, produzir, consumir e descartar, e que dificulta a reinserção de materiais na cadeia produtiva.

“O desafio não é abandonar a reciclagem, mas reorganizar o sistema produtivo para que ela seja possível, eficiente e economicamente viável”, diz Souza. Como solução, a indústria já dispõe de tecnologias capazes de viabilizar produtos mais duráveis, desmontáveis e reaproveitáveis. O entrave, nesse caso, é menos técnico e mais econômico.

“Hoje é muito mais uma questão de modelo econômico do que de limitação técnica”, afirma. “Durante décadas, o custo ambiental e logístico do descarte simplesmente não entrou na conta. Quando o sistema econômico não internaliza esses custos, o design tende a priorizar preço, estética ou velocidade de produção”.

Economia circular

A economia circular ganha força como alternativa. A proposta é ampliar o ciclo de vida dos produtos e reduzir a geração de resíduos desde a origem, por meio de mudanças no design, na escolha de materiais e nos modelos de negócio.

“A circularidade começa no design, na engenharia e na forma como pensamos o uso dos recursos ao longo de todo o ciclo de vida do produto”, argumenta Marcelo Souza, incluindo desde a produção de embalagens mais simples e recicláveis até o desenvolvimento de produtos reparáveis, reutilizáveis ou passíveis de remanufatura.

Em alguns setores, como o de metais, papel e vidro, esse modelo já apresenta resultados mais consolidados, com taxas mais elevadas de reaproveitamento.

Ainda assim, a aplicação em larga escala enfrenta desafios, especialmente em cadeias produtivas complexas e globalizadas. “Eliminar completamente o conceito de lixo talvez seja um horizonte de longo prazo, mas reduzir drasticamente a geração de resíduos é algo absolutamente viável”, afirma.

Para atingir o objetivo, será necessário combinar inovação tecnológica, políticas públicas e uma mudança de mentalidade dentro da própria indústria. “Quando começamos a projetar produtos considerando desde o início o que acontecerá com eles no final de sua vida útil, a lógica muda completamente. O resíduo deixa de ser visto apenas como um problema e passa a ser tratado como um recurso”.

O fato é que em um mundo que produz cada vez mais, mais rápido e com maior complexidade, o desafio é melhorar a gestão do lixo e repensar a forma como ele é criado.