Pesquisa detecta em folhas de alface nanoplásticos que absorvem metais pesados
Estudo realizado nos EUA encontrou nanoplásticos em vegetais folhosos, capazes de favorecer a absorção de cádmio, um metal pesado nocivo à saúde humana e de animais
Vegetais folhosos como a alface são frequentemente associados a uma alimentação saudável. No entanto, novas pesquisas indicam que contaminantes emergentes no ambiente podem alterar a forma como essas plantas absorvem substâncias potencialmente tóxicas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Texas A&M University mostra que a presença de nanoplásticos pode aumentar significativamente a quantidade de cádmio, um metal pesado tóxico, acumulada nas folhas comestíveis da planta.
Divulgado no último dia 7 de março, o estudo foi publicado no periódico Journal of Agricultural and Food Chemistry, que investigou como a alface reage quando exposta simultaneamente a dois tipos de contaminantes: nanoplásticos e cádmio. Os experimentos foram realizados em sistemas hidropônicos controlados, permitindo aos cientistas observar com precisão como essas substâncias interagem dentro da planta.
Os resultados chamaram a atenção dos pesquisadores, uma vez que as plantas foram submetidas a dois contaminantes e absorvem até 61% mais cádmio nas folhas em comparação com aquelas expostas apenas ao metal pesado.
“Devemos começar a reavaliar os limites ‘seguros’ de cádmio e de metais pesados em geral no solo agrícola e em substratos sem solo”, afirmou Xingmao Ma, professor do Departamento Zachry de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Texas A&M e líder da pesquisa, em comunicado.
Estresse nas plantas e absorção de contaminantes
O estudo sugere que o aumento da absorção ocorre devido à resposta fisiológica da planta de alface ao estresse. Em condições normais, quando exposta ao cádmio, a verdura tende a intensificar a ramificação de suas raízes para buscar regiões menos contaminadas do solo. Nesse processo, o metal costuma ficar retido principalmente nesss raízes, reduzindo sua presença nas folhas consumidas.
A presença de nanoplásticos, porém, muda esse equilíbrio. Esses fragmentos microscópicos, gerados pela degradação de plásticos maiores, provocam estresse oxidativo nas plantas, um processo comparável à inflamação em organismos humanos.
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Quando esse tipo de estresse ocorre simultaneamente à resposta natural ao cádmio, os mecanismos de defesa da planta ficam comprometidos. Como resultado, o metal pesado consegue se deslocar com mais facilidade até os tecidos foliares.
Outro resultado inesperado foi observado. Nas plantas expostas ao cádmio e nanoplásticos, a concentração dessas partículas de plástico nas folhas foi 67% maior do que em plantas expostas apenas aos nanoplásticos. A explicação pode estar na forma como as raízes se desenvolvem sob a presença de cádmio.
“Nossa teoria é que esse resultado se deve ao aumento da ramificação das raízes causado pela exposição ao cádmio”, explicou Ma. “Os nanoplásticos não participam de mecanismos de transporte ativo da planta. Em vez disso, são absorvidos passivamente em pequenas lacunas na superfície da raiz, especialmente em regiões de crescimento ativo”.
Impactos para agricultura e segurança alimentar
O cádmio ocorre naturalmente no solo, mas também pode chegar aos sistemas agrícolas por meio de fertilizantes, fontes de água contaminadas ou até materiais de encanamento. Por ser altamente tóxico, sua presença em alimentos é monitorada por autoridades sanitárias em vários países.
Para os pesquisadores, a interação entre nanoplásticos e metais pesados revela um desafio emergente para a agricultura moderna. A coexistência desses contaminantes pode torná-los mais perigosos para plantas, e potencialmente para animais e humanos que consomem esses alimentos. “Nosso trabalho sugere que os níveis de cádmio nos quais as estratégias de remediação são implementadas devem ser reduzidos”, afirmou Ma.
Como próximo passo, a equipe pretende mapear regiões dos Estados Unidos com maior potencial de contaminação. A equipe também quer cruzar dados de solo com novos experimentos para verificar se os resultados observados em laboratório se confirmam em condições agrícolas reais.
