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Aves da Caatinga resistem em refúgios cada vez menores

Aves da Caatinga resistem em refúgios cada vez menores

Em 2020, o biólogo Helder Araujo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), percorreu os arredores de Cabaceiras, no sertão paraibano, e encontrou pequenas áreas de matas altas.

Por ali, pensou, poderiam viver arapaçus-do-nordeste (Xiphocolaptes falcirostris), aves com cerca de 30 centímetros de comprimento, plumagem marrom-clara e bico longo.

Mas não viu nem ouviu nenhum.

Nem ali nem em Curaçá, na Bahia, onde essa espécie foi relatada pelo naturalista alemão Johann Baptist Spix no início do século 19. “As manchas de floresta que restaram são pequenas demais para abrigar arapaçus”, concluiu o biólogo.

Não foi só o arapaçu-do-nordeste que se tornou mais raro. Entre as 13 principais espécies endêmicas de aves florestais da Caatinga examinadas pela bióloga Mônica da Costa Lima, por Araujo e por outros pesquisadores com base em registros históricos, 12 perderam mais da metade da área que ocupavam há dois séculos.

A comparação de relatos históricos e registros de coleções de museus de zoologia com as atuais áreas de ocorrência revelou situações dramáticas de perda de habitat para várias espécies. Muitas hoje vivem apenas em áreas restritas — os chamados refúgios.

A jacucaca (Penelope jacucaca), uma ave de grande porte que lembra um faisão, desapareceu em mais de 700 km2 e hoje ocupa apenas 20% de sua área inicial. O principal motivo é a caça de subsistência.

De porte menor, mas igualmente bastante caçada, o zabelê (Crypturellus zabele) também perdeu 80% dos quase 600 mil km2 que ocupava historicamente.

A redução das áreas florestais, substituídas por uma paisagem degradada, foi a principal razão da perda de quase 80% do habitat do rabo-branco-de-cauda-larga (Anopetia gounellei), um tipo de beija-flor.

“Encontrei muitos moradores do sertão que afirmaram nunca terem visto as espécies que já tinham sido registradas na região“, diz Lima, que conduziu o levantamento. “A redução das populações de aves não resulta só no empobrecimento da paisagem, mas também dificulta a recomposição da vegetação, porque se perdem dispersores de sementes.”

Segundo o estudo conduzido por Lima, extinções locais das espécies analisadas foram registradas em 88% da Caatinga. “88% de extinção local é assustador, mas não surpreende, devido ao nível alto de degradação da Caatinga”, comenta o biólogo Pedro Develey, ex-diretor-executivo da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (Save Brasil), organização que representa a BirdLife International no país. “As aves, já disseram, são o barômetro do planeta. Olhe para elas e entenda o ambiente.”

O ecólogo Marcelo Tabarelli, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), observa: “A degradação da Caatinga é intensa por causa da exploração contínua e porque é um ecossistema com uma recuperação lenta, comparada com a Amazônia ou o Cerrado, e, portanto, de esgotamento mais rápido”.

Segundo ele, a vida do sertanejo se apoia na exploração dos recursos naturais, como a caça de subsistência e a queima da vegetação, cujas cinzas são usadas como fertilizantes para as plantações. “Há também uma forte tradição de captura de aves para manter em gaiolas, vender para criadores ou promover competições, como as famosas brigas de canários.”

A recuperação das áreas ocupadas pelas aves implica uma eventual revisão das estratégias de restauração da paisagem da Caatinga. “Manter apenas 20% da área como reserva legal, como determina a lei, usando os outros 80% para produção, não funciona para a Caatinga, porque reduz a capacidade do solo de manter umidade, essencial nesse ecossistema”, afirma Araujo.

“Vários estudos já indicaram que a Caatinga só é sustentável com 50% da área com mata preservada próxima às plantações”, enfatiza. “Só assim o solo vai reter umidade e favorecer outros serviços ecossistêmicos de que a própria agropecuária depende, incluindo o controle natural de pragas e polinização de culturas agrícolas.”

Projetos de recuperação

Em paralelo às pesquisas científicas, organizações não governamentais, universidades e órgãos de governo também trabalham na recuperação dos habitats e das populações de aves da Caatinga.

A Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), por exemplo, iniciou em 2005 um trabalho de recuperação do periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus). Endêmica do bioma, essa espécie perdeu 96% de sua área de distribuição com a destruição de seu habitat, as florestas serranas. Além disso, sofreu com a eliminação sistemática, pois era vista como praga das plantações. Antes encontrado em muitos estados do Nordeste, o cara-suja vive apenas nas matas de municípios da região central do Ceará.

“Com as caixas-ninho [abrigos artificiais de madeira que substituem os troncos ocos das árvores], a população de cara-suja, que era de menos de cem indivíduos, passou, em duas décadas, para 1.238, apenas na serra de Baturité, no Ceará”, conta o biólogo Weber Girão, coordenador de projetos da Aquasis.

A próxima etapa do trabalho será levar as caixas e as aves para repovoar as serras do sul do Ceará, a região metropolitana de Fortaleza e o planalto da Ibiapaba, que se estende a oeste por 600 km entre os estados do Ceará e Piauí. “Levaremos aproximadamente 50 aves para cada lugar. Eles ficarão em um recinto de aclimatação antes de serem soltos”, diz o biólogo Fábio Nunes, gerente do Projeto Cara-Suja. As caixas-ninho são colocadas em árvores de propriedades rurais e vigiadas pelos moradores locais.

“Não é fácil colocar as aves como pauta de preocupação e engajamento para as comunidades, mas o sertanejo percebe os impactos das ações humanas sobre a natureza”, observa o biólogo Edson Luiz, gerente de projetos da Save Brasil.

Um dos projetos de que ele participou foi a restauração do habitat do gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus), um pássaro de plumagem azul-cinzenta, em Boa Nova, na Bahia. “Os índices de desmatamento caíram drasticamente e a espécie foi adotada como mascote pela comunidade local, o que culminou com a criação do Parque Nacional de Boa Nova, com cerca de 12 mil hectares, que também protege áreas de Caatinga”, relata Luiz.

Desde 2012, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), do ICMBio, coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga (PAN Aves da Caatinga), que reúne instituições de pesquisa, órgãos ambientais, ONGs e proprietários rurais interessados na conservação de 67 espécies, incluindo não endêmicas, das quais 34 estão ameaçadas de extinção.

Dessas, além do cara-suja, apenas a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) apresentou aumento populacional documentado.

O soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), que depende de nascentes e matas úmidas da Chapada do Araripe, no sul do Ceará, é uma das espécies que continuam criticamente ameaçadas de extinção. Outras aves em perigo citadas no PAN Aves da Caatinga são o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella) e o zidedê-do-nordeste (Terenura sicki).

“Mesmo com desafios financeiros e de pessoal, ainda há oportunidades reais de salvar diversas espécies”, diz Develey.

Outros grupos de animais vivem uma situação similar. Um levantamento realizado pela bióloga da UFPB Nathália Canassa estimou que 90% da Caatinga perdeu entre 20% e 80% das espécies estudadas de mamíferos de médio e grande porte.

Das 51 espécies analisadas, a anta (Tapirus terrestris), a queixada (Tayassu pecari) e a paca (Cuniculus paca) desapareceram em 80% de suas antigas áreas de distribuição. O macaco-prego-de-cabeça-amarela (Sapajus xanthosternos) e o tatu-canastra (Priodontes maximus) apresentaram as maiores taxas de redução da distribuição geográfica, 95% cada.