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Poluição provocada por queimadas pode comprometer a saúde pulmonar

Poluição provocada por queimadas pode comprometer a saúde pulmonar

Má qualidade do ar aumenta o risco de elevação das taxas de hospitalização e mortalidade, especialmente entre crianças e idosos

O Norte do País enfrenta semanas difíceis, com nuvens de fumaça que encobrem a região. Uma série de queimadas nos Estados do Amazonas e do Pará lança na atmosfera partículas finas de poluição, comprometendo a qualidade do ar. Em outubro, 36 dos 62 municípios amazonenses estavam em estado de alerta, e a capital, Manaus, chegou a suspender as aulas para crianças.

O contato com a poluição pode desencadear uma reação inflamatória sistêmica. Quando atinge os pulmões, essa reação pode acentuar a coagulação sanguínea e comprometer os mecanismos de defesa do órgão. Além disso, a fumaça inalada pode transportar microrganismos presentes no solo, “levando para dentro do nosso pulmão coisas que podem causar infecções”, explica Paulo Saldiva, professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e especialista nos efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde. Entre os mais vulneráveis estão as crianças, cujo sistema de defesa ainda não está plenamente desenvolvido, e os idosos, que apresentam mecanismos inflamatórios mais frágeis em razão do envelhecimento.

A origem da poluição

Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia apontam 2.498 focos de incêndio somente no Amazonas entre 21 de setembro e 27 de outubro. O professor observa que, ao queimar uma floresta, “se produz uma quantidade muito grande de poluentes que não podem ser controlados, ao contrário de uma poluição industrial, que você pode regular de alguma forma”.

Paulo Saldiva – Foto: Arquivo pessoal

As queimadas liberam poluentes resultantes da combustão incompleta de compostos orgânicos. Na atmosfera, essas substâncias podem passar por novas reações químicas sob a ação da radiação ultravioleta do sol. Saldiva destaca a fuligem como um dos principais produtos desse processo: “Que escurece o céu, que suja as casas, que impregna os nossos pulmões”. Entre os poluentes também está o ozônio, formado por reações químicas desencadeadas pela luz solar.

Segundo o pesquisador, a exposição ao material particulado tem efeitos diretos sobre a saúde. “Para cada 10 µg/m³ de material desse poluente, nós vamos ter um aumento de cerca de 8% a 10% das internações e de 2% a 3% da mortalidade.” No início de outubro, Manaus registrou picos de 344,5 µg/m³ de material particulado fino (PM2,5). A exposição a concentrações elevadas pode aumentar significativamente o número de hospitalizações e óbitos, um cenário ainda mais preocupante diante das limitações da infraestrutura de saúde na região. “O sistema de saúde vai receber uma sobrecarga grande, especialmente numa região onde está sob pressão”, acrescenta.

Como se proteger

A principal recomendação diante de episódios de poluição intensa é evitar a exposição, suspendendo atividades ao ar livre. Quando o contato com a fumaça for inevitável, o uso de máscaras adequadas pode ajudar na proteção. Saldiva ressalta, porém, que os equipamentos mais eficientes para esse tipo de situação são específicos e têm custo elevado. “Mesmo o preço disso é proibitivo para as comunidades.” Outra medida é manter os ambientes umidificados, o que pode favorecer a aglomeração de partículas em suspensão.

Para pessoas com doenças crônicas ou idade avançada, Saldiva destaca a importância de evitar esforços excessivos e preservar a capacidade de resposta do organismo. A sobrecarga dos órgãos pode provocar uma descompensação, especialmente quando eles já apresentam algum comprometimento. “Ou seja, órgãos já previamente fragilizados têm que responder frente a um estímulo adverso. Essa diferença entre demanda e agressão significa doença”, explica. A chave, segundo o especialista, é administrar a reserva fisiológica do corpo.

*Sob supervisão de Marcia Avanza