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Óleo descartado nos boxes da Fórmula 1 volta ao mercado após processo industrial de reciclagem

Óleo descartado nos boxes da Fórmula 1 volta ao mercado após processo industrial de reciclagem

Lwart recolhe lubrificante usado no GP de São Paulo desde 2022 e transforma resíduo em matéria-prima para novos produtos. Processo recupera 76,6% do volume recebido

Enquanto as equipes da Fórmula 1 se preparam para o GP de São Paulo, que acontece entre 6 e 8 de novembro, uma operação menos visível do que os pit stops movimenta os bastidores da competição. O óleo lubrificante retirado dos motores dos carros, submetidos a altas temperaturas e rotações, é recolhido e transportado para uma unidade industrial em Lençóis Paulista, no interior paulista. Ali, o resíduo passa por um processo de rerrefino que permite recuperar mais de três quartos do volume original e transformá-lo em matéria-prima para a fabricação de novos lubrificantes.

A operação é realizada pela Lwart Soluções Ambientais, que mantém parceria com a organização do GP desde 2022. Esta é a quinta edição consecutiva da parceria. Nas quatro edições anteriores, foram recolhidos mais de mil litros de óleo lubrificante usado ou contaminado (OLUC), segundo a empresa. O material é classificado como resíduo perigoso e, pela regulamentação brasileira (Resolução Conama nº 362/2005), deve ser destinado ao rerrefino, processo que recupera suas propriedades e permite seu retorno à cadeia produtiva.

A logística começa nos boxes, onde tambores específicos recebem o óleo retirado dos veículos. Ao final do evento, a equipe da Lwart recolhe o material e o transporta em caminhões equipados para essa finalidade até a fábrica de Lençóis Paulista. Segundo a empresa, a coleta no autódromo segue os mesmos padrões de segurança adotados com os demais clientes, com equipe treinada e emissão de documentos e certificados que comprovam a entrega do óleo.

O lubrificante usado nos carros de corrida não recebe tratamento diferenciado. A formulação dos produtos utilizados pelas equipes é definida pelos fabricantes, mas, depois de usado, o óleo é um OLUC como qualquer outro, de acordo com a Lwart.

Na fábrica, o óleo do GP é processado junto com o restante do resíduo que chega à unidade, cerca de 240 milhões de litros por ano. Todo o OLUC recebido passa por testes de laboratório que avaliam suas propriedades e sua qualidade. A partir desses resultados, o material é separado em tanques conforme a qualidade, e cada tanque alimenta o rerrefino de forma controlada.

O processo tem duas etapas principais. A primeira é físico-química, responsável pela retirada de água, partículas sólidas e outros contaminantes acumulados durante o uso. Em seguida, o material passa pelo hidrotratamento, tecnologia que utiliza hidrogênio, altas temperaturas, pressão e catalisadores para remover impurezas e melhorar a qualidade do produto recuperado.

O resultado é um óleo básico do Grupo II, classificação que indica características de qualidade e desempenho utilizadas pela indústria de lubrificantes. Não há um cliente específico para o óleo que sai do autódromo: o produto é fornecido aos principais fabricantes de lubrificantes, que acrescentam aditivos e o transformam em novos produtos para uso automotivo e industrial. O óleo básico também é usado no agronegócio, na lubrificação de máquinas e equipamentos industriais e no setor elétrico, como isolante em transformadores, painéis e disjuntores. Segundo a empresa, o produto tem aprovação técnica de todos os formuladores de lubrificantes do Brasil e das principais montadoras.

Segundo a Lwart, o rendimento de seu processo é de 76,6%. Isso significa que, a cada mil litros de óleo usado processados, são recuperados 766 litros de óleo básico. A companhia explica que os demais componentes também são aproveitados como subprodutos, reduzindo a geração de resíduos.

Entre eles estão hidrocarbonetos leves, utilizados internamente para geração de energia, e asfalto, destinado à indústria da construção civil para a fabricação de mantas e produtos impermeabilizantes. Os catalisadores que chegam ao fim da vida útil são encaminhados à reciclagem na indústria metalúrgica, de acordo com o relatório de sustentabilidade de 2024 da companhia.

A tecnologia de hidrotratamento permite à Lwart produzir óleo básico Grupo II a partir do rerrefino. A empresa afirma ser a única fabricante desse tipo de produto na América Latina utilizando óleo lubrificante usado como matéria-prima.

Ciclo fechado – A empresa também aposta em modelos de ciclo fechado, desenvolvidos com montadoras e fabricantes de lubrificantes. Neles, o óleo usado é coletado pela Lwart, rerrefinado e transformado em óleo básico, com qualidade igual ou superior à do óleo de primeiro refino, segundo a companhia, e volta a ser usado na formulação de lubrificantes dessas empresas. Depois de utilizados, esses produtos retornam à coleta e ao rerrefino, com rastreabilidade em todas as etapas.

O modelo é aplicado no transporte pesado, no agronegócio e em veículos leves. Entre as iniciativas estão a parceria com Iveco e Petronas, com o lubrificante Nexpro Infinity, que coletou mais de 407 mil litros de óleo usado no primeiro ano; com CNH e Petronas, na linha Fleetpro Cycle, voltada ao agronegócio; e com Stellantis e Motul, na linha Motul NGEN Circular Autopeças, a primeira gama de lubrificantes desse modelo para veículos leves.

Rastreabilidade da operação

No GP de São Paulo, a comprovação da destinação é feita por meio de documentos emitidos ao final de cada edição. O evento recebe o Certificado de Coleta de Óleo e o Certificado de Destinação Final, segundo a Lwart, que atestam o recolhimento e o encaminhamento do material para o tratamento adequado.

A cadeia é regulada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A legislação também estabelece a emissão de certificados de coleta e recebimento e obrigações de prestação de informações sobre os volumes movimentados pelos agentes do setor.

O volume recolhido no autódromo variou ao longo das edições. Foram cerca de 500 litros em 2022, 470 litros em 2023, 50 litros em 2024 e 145 litros em 2025, segundo a empresa. O volume deste ano será apurado após o evento.

Em 2024, parte do óleo lubrificante foi descartada junto com óleo de cozinha e, contaminada, não pôde seguir para o rerrefino, de acordo com a Lwart. O episódio levou a companhia a reforçar a comunicação com as equipes. A estrutura de coleta foi mantida, mas a empresa passou a usar um vídeo demonstrativo em inglês, que mostra onde e como descartar o óleo nos boxes e para onde ele vai depois, e reforçou a sinalização dos pontos de coleta, com etiquetas que identificam o espaço como destinado ao óleo lubrificante usado.

Em entrevista ao Um Só Planeta, João Vianney, diretor de Coleta da Lwart Soluções Ambientais, comenta que a experiência ajuda a ampliar a conscientização sobre um resíduo que também faz parte da rotina de oficinas e motoristas. A empresa considera que o automobilismo oferece uma oportunidade de mostrar que o descarte adequado do lubrificante é uma questão que ultrapassa os limites das pistas.

Menor pegada de carbono

O benefício ambiental do processo também foi mensurado em uma Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), concluída em 2024 com base em normas internacionais. O estudo foi conduzido pela consultoria Ramboll, que também fez o estudo de pegada de carbono da Safety-Kleen, maior empresa do mundo em coleta e rerrefino de óleo lubrificante usado, segundo a Lwart.

A ACV apontou que o óleo básico da empresa tem pegada de carbono 77% menor que a dos óleos básicos de primeiro refino usados no Brasil, o equivalente a 1.091 quilos de CO₂ equivalente a menos por metro cúbico produzido.

A comparação considera as emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida dos produtos, desde a obtenção da matéria-prima até as etapas de produção e destinação. A diferença está relacionada, principalmente, à possibilidade de recuperar o óleo já utilizado, reduzindo a necessidade de extração e processamento de petróleo virgem.

A dimensão da operação da empresa vai além do automobilismo. Em 2024, a Lwart coletou mais de 225 milhões de litros de OLUC, volume equivalente a 37% do total recolhido no Brasil naquele ano, segundo seu relatório de sustentabilidade. A companhia atende mais de 3,7 mil municípios e possui uma rede de centros de armazenamento temporário para viabilizar a logística reversa do resíduo.

A expansão da capacidade industrial também está nos planos da empresa. Um investimento de R$ 1 bilhão no Projeto H+ prevê elevar a capacidade anual de processamento de 240 milhões para 380 milhões de litros de óleo usado.