América Latina aumenta proteção animal com avanços legislativos no Dia Mundial do Veganismo
Restrições aos testes de cosméticos, reconhecimento da senciência e valorização de tradições alimentares à base de vegetais integram a mudança de perspectiva sobre a relação entre humanos e animais.
Neste 1º de novembro, o Dia Mundial do Veganismo marca mais um ano de um movimento que nasceu da recusa em tratar animais como recursos para uso humano. Na América Latina, a data chega acompanhada de avanços legislativos que ampliam a proteção animal, com novas normas no Brasil e na Colômbia e uma proposta aprovada pelo Senado mexicano que reconhece os animais como seres sencientes.
Mais do que uma escolha alimentar, o veganismo representa um compromisso ético de excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais. O princípio abrange não apenas o que se consome, mas também roupas, cosméticos, produtos e outras atividades que submetem animais aos interesses humanos.
A história do movimento começou em novembro de 1944, quando seis pessoas se reuniram em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial, para discutir uma maneira de viver sem explorar animais. O britânico Donald Watson propôs a palavra vegan, formada pelas primeiras três e pelas duas últimas letras de vegetarian. A reunião também deu origem à Vegan Society, organização que passou a defender e divulgar essa filosofia de vida.
Em 1994, quando o movimento completou 50 anos, o dia 1º de novembro foi instituído como Dia Mundial do Veganismo.
Mudanças na legislação latino-americana
O combate aos testes de cosméticos em animais está entre os avanços recentes na região. No Brasil, uma lei sancionada em julho de 2025 proibiu o uso de animais vertebrados em testes de produtos cosméticos e de seus ingredientes.
Na Colômbia, o Ministério da Saúde publicou, em maio de 2026, a Resolução 0814, que regulamenta a proibição da fabricação, importação e comercialização de cosméticos e ingredientes testados em animais. As empresas devem apresentar uma declaração de conformidade ao Instituto Nacional de Vigilância de Medicamentos e Alimentos (Invima).
México, Chile, Equador e Guatemala também possuem normas que restringem testes de cosméticos em animais.
Embora representem conquistas importantes, essas medidas não encerram a exploração animal pela indústria. A proteção precisa alcançar outras atividades e considerar os interesses dos animais para além das práticas abrangidas por cada legislação.
México avança no reconhecimento da senciência
Outro passo importante ocorreu no México. No fim de setembro, o Senado aprovou, por 115 votos favoráveis e um contrário, a Lei Geral de Bem-Estar, Cuidado e Proteção dos Animais. O projeto reconhece os animais como seres sencientes e estabelece cinco dimensões para avaliar seu bem-estar, relacionadas à nutrição, ao ambiente, à saúde, ao comportamento e ao estado mental.
A proposta segue agora para a Câmara dos Deputados. O reconhecimento da senciência representa um avanço na compreensão de que os animais possuem experiências próprias, sentem e são capazes de sofrer, o que exige que seus interesses sejam considerados nas decisões humanas.
Uma tradição alimentar que não depende da exploração
Na América Latina, a alimentação à base de vegetais também encontra raízes em tradições antigas. Feijões, lentilhas, grão-de-bico, milho e abóbora fazem parte da cozinha regional há gerações, presentes em preparações como feijão de panela, arroz com feijão, ensopados e pamonhas.
A Argentina, um dos grandes produtores e exportadores mundiais de leguminosas, também apresenta potencial de crescimento do consumo interno. Segundo a Bolsa de Comércio de Rosário, a safra 2025/26 pode alcançar o maior resultado dos últimos cinco anos.
Para Jesica Bon Denis, fundadora da organização Animal Interseccional, o veganismo não representa uma ruptura com a cultura alimentar latino-americana.
“Durante séculos, a América Latina se alimentou de feijões, lentilhas, milho e abóbora. O veganismo não nos traz nada estranho: nos devolve algo que é nosso”, afirmou.
A ativista ressalta que o movimento não deve ser reduzido a uma dieta ou a uma moda. Trata-se de reconhecer os animais como indivíduos, e não como objetos disponíveis para consumo, exploração ou utilização.
Neste Dia Mundial do Veganismo, os avanços legislativos latino-americanos mostram que a discussão sobre os direitos animais também ocupa espaços institucionais. A transformação, porém, depende de ampliar o reconhecimento dos animais como sujeitos de direitos e questionar as práticas que os submetem à exploração em diferentes setores da sociedade.
